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18/12/2017
O 20 de Novembro e a desonestidade jornalistica no Brasil
Edson Cadette

É corrrespondente de Afropress em Nova York

Manhattan, Nova York – A vontade brasileira em querer apagar de sua história séculos de escravidão não tem limite. Estou me referindo a resistencia por parte dos fazedores de opinião (a tradicional grande midia branca) em tentar diminuir a importância do 20 de Novembro para os milhões de afrobrasileiros que aprenderam às duras penas (sem a ajuda das escolas públicas ou privadas), a importancia dos africanos que trabalharam até morrerem invisíveis em território tupiniquim construindo sob a égide da chibata o arcabouço brasileiro.

Graças a mobilização da comunidade afrobrasileira nas últimas 3 décadas milhões de brasileiros estão aprendendo sobre a importancia de Zumbi dos Palmares, sobre as insurreições dos escravos, e tambem sobre aqueles que dentro de suas pequenas áreas de influencia ousaram enfrentar a escravidão e ajudaram a por fim na nefasta instituição fora dos tradicionais centros de educação.

Para estes fazedores de opiniao, o Brasil deveria seguir “celebrando” o 13 de Maio e sua falácia da democracia racial porque de acordo com o mito brasileiro, a redentora princesa Isabel com a assinatura de uma pena “libertou” os escravos, e pôs fim a uma instituição que durava mais de 350 anos. Por causa deste ato, o Brasil deveria seguir celebrando este dia sem questionamento ou reflexoes. Na verdade e o que o pais continua fazendo ate hoje. Este mito expurgou completamente o papel dos negros na luta por sua emancipacao, e ate mesmo o legado desta instituicao na desigualdade entre negros e brancos.

Uma das organizações mais importantes do país, a Rede Panamericana S/A (Jovem Pan) abriu seu programa matinal, o Jornal da Manhã no dia 20 de Novembro, não celebrando o Dia da Consciência Negra, nem tampouco falando qual era o feriado do dia. Um dos apresentadores começa o programa falando que era feriado na cidade de São Paulo, porém, não faz menção alguma a importância que esta data representa para a comunidade afrobrasileira em geral.

O programa começa as 7h30  e vai ate as 10h. Foram quase 2 horas e meia sem ouvirmos uma palavra sequer de algum intellectual, político, homem/mulher de negócio, acadêmico, jornalista, escritor/a, ou alguma celebridade falando o que esta data signifca para eles. Isto mostra a total insensibilidade desta organização (e de outras tambem) quando o assunto é relacionado aos afrobrasileiros. Basta olharmos o quadro de seus programas matutino, vespertino, e ou noturno. Diversidade  étnicorracial zero.

Meia hora antes do final do programa, a jornalista Marcela Lorenzetto entra com um áudio falando sobre as estatísticas da fundação Locomotiva e tambem do IBGE. Neste áudio ela fala sobre as disparidades salariais, os índices de mortalidade, as oportunidades de ascenção social, etc., entre negros e brancos. Em outras palavras, o racismo no Brasil, legado da instituição escravocrata, e como ele segue afetando a população negra em geral.

No fim do áudio, o historiador e parte da bancada do jornal, Marco Antonio Villa, e perguntado o que achou da reportagem. Do alto do seu “White Horse”, ele disparou (des)informações e em momento algum foi contestado pelos colegas que estavam ao seu lado.

Primeiro, o historiador começa falando que é uma mentira que o Brasil tem 55% de sua população negra. Disse que esta estatistica foi inventada pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Segundo, o 20 de Novembro foi criado pela ex-petista Marta Supicy durante seu mandato como prefeita de Sao Paulo.

Terceiro, ele critica a atriz Taís Araújo por suas declarações afirmando que o racismo no Brasil vai além da classe sócio-econômica. Por causa da cor da pele do seu filho afirma a atriz e que ele é um alvo em potencial da polícia exterminadora no Rio de Janeiro. Na cabeça do historiador Taís Araujo não pode falar sobre racismo porque ela faz parte da classe dominante (E desde quando o negro no Brasil pode ser considerado parte da classe dominante?), portanto, ela nao pode falar de racismo ou das mazelas que afligem desproporcionalmente os negros. Seria o mesmo que afirmar que uma pessoa por causa de seu alto poder aquisitivo nao pode falar de pobreza. Para o historiador Tais Araujo deveria ficar calada enquanto seus pares sao humilhados quando nao mortos.

Quarto, ele critica o 20 de Novembro afrimando que e uma farca porque o Brasil nunca soube direito quem foi Zumbi dos Palmares. Segundo ele  nao ha documentos comprovando sua existencia. Zumbi nao foi um libertador, ele fez um coluio com os escravocratas perpetuando assim as relacoes conservadoras entre negros e brancos. Como se houvesse alguma opcao para ele. O historiador esquece de mencionar o que aconteceu com Zumbi quando foi pego pelo exercito portugues. Alem do mais, Marco Antonio Villa afirma que Zumbi foi um monarca que tambem possuia escravos. Se sabemos pouco sobre o zumbi e simplesmente porque historiadores como ele nunca se interessaram por esta parte da historia preferindo ignora-la por completo.

Para o historiador o 13 de maio  faz parte da “verdadeira” historia que representou  a luta historica da populacao brasileira para por fim a escravidao. E interessante notar que nesta “luta historica” os negros ficam sempre de fora como se fossem mero espectadores assistindo passivamente o desenrolar de suas proprias historias.

Por fim Marco Antonio Villa critica o retrato de Zumbi dizendo que foi inventado ha mais de 4 decadas por um ilustrador (muito bom segundo ele) durante o lancamento da serie “os Grandes Personagens da Nossa Historia” da Editora Abril.

 Falando por mais de cinco minutos sobre o tema que ele considera “um terreno minado”, Marco Antonio Villa mostrou aos seus ouvintes sua ignorancia sobre o assunto que sem duvida alguma continua influenciando todas as relacoes contemporaneas no pais.

Na conclusao final do progama, Marco Antonio Villa regurgita mais uma vez o mesmo vies historico em relacao a Zumbi dos Palmares e o 20 de Novembro. Porem, a palavra final do dia fica por conta do seu companheiro de programa o jornalista Joseval Peixoto. Citando o soneto “Vida Escura” de Joao Cruz e Souza, o jornalista  faz uma mea culpa dizendo que o problema no Brasil nao e o racismo (no Brasil nunca e), mas sim a falta de oportunidades (como se um fosse excludente do outro), e agradece a populacao negra pelo seu “trabalho na formacao da nacionalidade brasileira e tudo que trouxe para o Brasil ate os dias de hoje”.

Nao por acaso os jovens negros do seculo XXI buscam informacoes sobre seus antepassados fora da tradicional midia nacional. Eles preferem buscar estas e outras informacoes nas midias alternativas na internet ao invez de ficarem refens de pseudos historiadores com pensamentos altamento conservadores ainda colados no inicio do seculo XX.

Viva Zumbi!

 


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
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