22 de Maio de 2018 |
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Roda Viva: A questão racial no Brasil
31/12/2017
Com os pés na África
Edson Cadette

É correspondente de Afropress em Nova York

Nova York/EUA - O jornalista, escritor, e roteirista mineiro, Sergio Tulio Caldas, radicado em São Paulo há mais de 30 anos esteve em Nova York recentemente. Com passagens pelas principais redações jornalistIcas do país, como Folha de São Paulo, Estadão, e  revista Veja, ele é o que poderíamos chamar de um jornalista peripatético. Suas viagens incluem países como a China, o Marrocos, o Peru, e tambem o Paquistão, que segundo ele, é um dos lugares mais bonitos do planeta.

Seu extenso trabalho foi reconhecido com o prestigioso Prêmio Jabuti de Literatura (2017) pelo livro "Com os Pés na África (Editora Moderna) na categoria “Didáticos e Paradidáticos”. O livro é o resultado de sua estadia em Angola por um ano dirigindo um programa jornalístico exibido na TV Púublica de Angola, TPA. Antes de voltar para o Brasil, Sergio Tulio Caldas sentou-se com o correspondente Edson Cadete para um café na gelida Nova York.

Aquilo que era para ser um encontro rapido tornou-se um bate papo de mais de 1 hora. Neste encontro o jornalista falou de tudo um pouco.  Da suas viagens ao redor do planeta, sobre a religiao mulcumana, algo que trata detalhadamente no livro Nas Fronteiras do Isla (Editora Record), e claro sobre o caldeirao cultural que e a cidade de Nova York.  Sergio Tulio Caldas falou tambem sobre  a falta de diversidade nas redacoes dos grandes jornais no Brasil e porque apoia as Acoes Afirmativas, o programa publico  federal que juntamente com o Pro Uni vem abrindo as portas do ensino superior a milhoes de jovens afrodescendentes no pais. A seguir trechos da entrevista.

Afropress: Qual foi o primeiro pais que voce visitou?

STC: Visitei primeiro alguns paises na America Latina como o Peru e a Bolivia.

Afropress: Voce se considera um andarilho?

STC: Com relacao aos meus livros sim.

Afropress: Todos os seus 12 livros foram escritos baseados nas suas viagens?

STC: Sim. Baseados nas minhas experiencias e nas conversas com a populacao local.

Afropress: Com Os Pes Na Africa e o primeiro livro de sua autoria a ganhar um premio da magnitude do Jabuti?

STC: Na verdade esta e a minha terceira indicacao. Porem, e a minha  primeira premiacao.

Afropress: Voce tem todo um carinho especial com o livro Com os Pes Na Africa. Fale um pouco de sua experiencia em Angola e do seu livro.

STC: Como falei antes,meus livros nascem da experiencia de estar nos lugares. Nao apenas como um turista. Vistar e uma coisa. Agora voce experimentar, voce vivenciar o dia a dia, ter  a oportunidade de trabalhar com africanos, trabalhar na televisao publica de Angola e diferente. Isto foi maravilhoso. Eu vivi o dia dia do pais por um ano. Senti os “perrengues” do dia a dia. A falta de agua, a falta de luz, as dificuldades no transporte publico, o transito absurdo. Passei esta experiencia. Mas e claro  vivi tambem os prazeres de estar la como por exemplo: sair para danca, ouvir musica, ir a praia, tomar uma cerveja, trocar ideia com as pessoas. O livro e absolutamente o resultado desta experiencia de viver, de conviver ali. Conhecendo os problemas dos angolanos e vivendo o drama deles tambem.

Na verdade nao sou eu quem esta contado as historias no livro, mas os angolanos locais. Eu dou voz para os meus personagens. Eu recebo todas estas mensagens e a repasso. Porem, as historias sao contadas pelas pessoas. Nao faco nenhum tipo de interferencia, nem julgamento, nem tao pouco algum tipo de comparacao com a minha cultura brasileira. Acredito que o grande lance e voce viajar e se despir dos seus conceitos, dos seus preconceitos, se nao voce nao consegue ver o outro. Ver a outra pessoa que e diferente de voce e com uma outra formacao. Quando voce se despe disto  consegue entender o outro um pouco mais. A vida e isto.

Afropress: Quanto tempo voce ficou em Angola?

STC: Fiquei 1 ano. Um ano muito intenso. Fiz grandes amigos como o escritor Pepetela ganhador do premio Camoes de Literatura. Ele inclusive faz parte do livro.

Afropress: Fale um pouco do vocabulario angolano no livro. Eles falam o portugues, mas ha tembem o proprio vocabulario local.

STC: Eu quis aproveitar e manter o maximo possivel a forma como os angolanos falam. Eles logicamente falam o portugues por causa da colonizacao portuguesa. Porem, ha muitas linguas distintas em Angola. Duas destas linguas sao o Ubundu e o Kibundu. Eu quis aproveitar  expressoes destas linguas que sao usadas no cotidano. Foi uma forma de mostar a propria linguagem local.  Os angolanos falam um portugues muito bonito. Muito rapido. As palavras sao muito sonoras como por exemplo mocamba que significa um termo mais afetuoso do que amigo. Outra expressao local e  maca usada para descrever problema. Por exemplo: falta agua e uma maca, o transito esta complicado e maca. Parece ate que e a palavra mais usada no dia a dia. Quis colocar este linguajar local no livro.

Afropress: Quem cuidou das ilustracoes?

STC: Elas ficaram a cargo da jovem e super talentosa Pepe Torquato. Achei incrivel os desenhos. Eles tem um olhar como se fossem camera de televisao. Sao quadrinhos com uma imagem cinematografica.

Afropress: Angola foi o primeiro pais africano que voce visitou?

STC: Nao. Visitei o Marrocos e a Algeria. Minha experiencia em Marrocos foi muito bacana porque atravessei parte do deserto do Saara com os nomades locais. Viajei quase dez dias ao lado deles dividindo a mesma comida no mesmo prato.

Afropress: Como surgiu o titulo do livro?

STC: E ate engracado. O titulo e no plural. Com os pes na Africa mesmo. Nao e uma viagem turistica curta. Fiz uma imersao em Angola.

Afropress: Com toda sua vasta experiencia como jornalista e escritor voce nunca foi convidado para fazer parte da famosa Flip no Rio de Janeiro. Entretanto, Lazaro Ramos que nao e escritor nem jornalista foi convidado para fazer parte deste evento literario de muito prestigio no Brasil. Voce fica chateado com esta esnobacao?

STC: Olha para ser sincero nunca pensei nisto. Este ano tive a felicidade incrivel de participar da Bienal do Livro no Rio de Janeiro. Participei de uma mesa foi muito gratificante. Ja participaei da Bienal em Sao Paulo. Ja participaei do circuito do Sesc em Salvador. Nao fico chateado com a nao participacao na Flip.

Afropress: Voce ja trabalhou para os grandes meios de comunicacao no Brasil. A falta de diversidade tanto de genero como etnico-racial e praxe tando no jornal, na televisao ou no radio. Em 2017 Como voce analisa este tema?

STC: As redacoes sao um retrato de como as nossa sociedade e excludente. Nao so as redacoes. A origem vem das universidades. Fiz jornalismo nos anos de 1980 na PUC de Belo Horizonte. Na epoca todo o departamento de jornalismo contava com duas pessoas negras. A estrutura comeca la tras a exclusao. Depois quando voce chega as grandes redacoes nao existe diversidade.

Por mais que o Brasil tenha a fama de todas as racas convivem harmoniosamente, isto e somente um mito.

Outro grande mito interessante e que o Brasil e muito aberto, recebe o estrangeiro, abre a casa. Mas recebe bem o estrangeiro branco. O estrangeiro negro nao. Por exemplo hoje no Brasil nos temos muitos haitianos, muitos africanos. Eles sao bem recebidos? Nao sao. Nao sao. Existem casos de perseguicao e de assassinatos de haitianos no Sul do Brasil. Isto e um mito. Tem um preconceito. A gente sempre ouve o Brasil recebe todo mundo. Recebe sim. Os gringos adoram. Os gringos brancos sao muito bem recebidos. E um mito muito grande. Existe um reflexo muito grande quando a gente nao tem uma diversidade dentro das redacoes. O jornalista negro tem uma visao da realidade dele que ele e a pessoa capacitada para transmitir as informacoes. Ele tem a capacidade de fazer uma analise mais profunda com uma outra percepcao. Falta essa voz. Por isto e importante a insercao de negros nas universidade. As Acoes Afirmativas sao importantes neste aspecto. Trazer uma opiniao diferente para o debate.

Afropress: Como voce ve o caso do jornalista William Waack despedido da Globo por declaracoes altamente racistas que ja nao cabem mais no pais hoje em dia?

STC: No Brasil tem essa coisa de se achar normal. Falar coisa de preto. Coisa de bicha. Parece mulherzinha. Voce vira para um amigo por alguma razao e diz que ele esta usando roupa de mulherzinha, voce vai lavar louca hoje em casa. Eu nao quero ser tratado como voce acha que eu devo ser tratado. Eu quero ser tratado como eu sou. Quando rola essa “piadas” coisa de preto, coisa de bicha tem um preconceito enorme embutido nisto. Preconceito e racismo cultural de seculos que esta enraizado. Agora veja bem, se voce tem aceso, se voce tem formacao, se voce viaja, se voce e um jornalista, acredito que voce tem que ter a obrigacao de saber para onde o mundo esta caminhando. O leme ja esta virando para o outro lado. E inaceitavel uma ‘brincadeira” de um jornalista que nao e uma brincadeira. Nao vou nem dizer que e um mau gosto. E um desrespeito. Quando voce diz isso voce esta reproduzindo algo que tem muito gente combatendo. Muita gente brigando para estas coisas desaparecerem. Isto e inadimissivel nao somente em publico, mas tambem nas suas relacoes do dia a dia.

O mundo escravizou o negro durante quase 400 anos. E muita historia. E muito tempo. E o mundo ate hoje nao pede desculpas. Porque nao se curvou e pediu desculpas. Porque a Africa viveu um holocausto. A gente usa holocausto para o que aconteceu na Segunda Grande Guerra Mundial. Mas a Africa viveu um grande holocausto.

Afropress: Fale um pouco das duas semanas em Nova York.

STC. Nova York e uma explosao Cultural. Quando visito a cidade busco aventuras fora da rota tradicional. Gosto de observar a cidade, observar as pessoas. Nova York pra mim e um Jazz, Blues, Rock & Roll. Desta vez consegui dar uma mergulhada na origem de tudo isto que e a musica Negra. Que e a raiz de tudo isto. Tive uma grande experiencia passando por Manhattan, Harlem, Bronx. Tive uma experiencia maravilhosa no apartamento de uma senhora chamada Marjorie Elliott. Ela abre o apartamento no Harlem todo domingo a tarde. Nao importa o tempo. Ela recebe as pessoas na sala. Sao 3 horas  de musica, cultura, poesia.  Um grande evento. Ela é uma senhora maravilhosa. Isto sempre me impressiona sobre Nova York.

 

 

 


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
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