23 de Outubro de 2018 |
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16/02/2018
Não somos escravos de nenhum senhor
Dojival Vieira

É editor e jornalista responsável pela Afropress

As Escolas campeãs do carnaval carioca mandaram – a Beija Flor, primeira colocada e a Paraíso do Tuiuti, a segunda – mandaram ao país de um modo geral e, em especial, a classe política – um recado direto, inequívoco, de uma contundência contagiante: ninguém aguenta mais a bandalheira e é preciso assumir que este Brasil varonil vai muito mal; quer dizer: nós, o povo brasileiro, vai muito mal obrigado.

Não é mais possível admitir uma classe política desconectada da realidade, uma verdadeira casta que, como sangue-suga, se sustenta e se alimenta do sangue da maioria da população que é negra e pobre e vai sobrevivendo como pode, aos trancos e barrancos, num mar de abandono, violência e humilhações diárias.

Os enredos das duas escolas – em, especial, o da Beija-Flor -, enfrentaram a realidade incontestável, sem meios termos: um sistema político excludente e perverso pariu uma casta política cega à realidade do país, preocupada apenas com seu próprio umbigo e do mundinho de seus interesses e privilégios, de costas, completamente de costas, para quem deveria representar.

A desconexão é já um dado evidente, porém, quando é escancarada transmitida ao vivo e a cores para milhões de brasileiros, por meio de um desfile de carnaval, é sinal de que todos os limites foram ultrapassados e de que a ninguém mais é dado o direito de ignorar o que está acontecendo.

As eleições marcadas para este ano em outubro, por outro lado, não suscitam esperanças capazes de algum alento. Por mínimo, por escasso que seja. As alternativas postas à mesa são desanimadoras. No máximo temos nomes, porque projetos de país que é o que, verdadeiramente, vale à pena discutir numa eleição para presidente da República, estes desapareceram.

E os nomes que se apresentam liderando as pesquisas, são o retrato desta falência à ceu aberto de todo o sistema político-eleitoral e partidário que apodreceu; são caricaturas; simulacros de um filme que já vimos e não gostamos.

De um lado, uma esquerda que deixou de ser esquerda ao se tornar cúmplice do maior esquema de corrupção da República; de outro um caricato deputado federal que, entre outras barbaridades, já defendeu publicamente a tortura e o fechamento do Congresso.

O mais espantoso é que são essas duas alternativas que aparecem polarizadas nas primeiras pesquisas de intenção de voto. Ou seja: não há como ser otimista, nem esperançoso. 

É neste contexto que o grito da Beija-Flor na Marquês de Sapucaí "Oh pátria amada, por onde andarás?/Seus filhos já não aguentam mais!/Você que não soube cuidar”, deve ser entendido. É mais que um apelo desesperado. É um estímulo a que nos reapropriemos da pátria que nos pariu para que ela deixa de ser a madrasta que tem sido o longo de 128 anos desta República precária construída sob os escombros do escravismo.

É um manifesto para que o povo brasileiro se una para além das nossas diferenças religiosas, ideológicas ou político-partidárias e busque esboçar e depois construir um projeto de país, que seja para todos e não para os parasitas que infestam o mundinho podre da política transformada em negócio. O carnaval como espaço de crítica social das nossas misérias e mazelas, foi mais que a festa capaz de arrebatar o entusiasmo das multidões: foi um chamado a união do povo brasileiro para a construção do projeto de país que todos queremos.

E como ensina o samba-enredo da Paraíso do Tuiuti: “não somos escravos de nenhum senhor”. Estamos por nossa própria conta.

Mãos à obra!

 


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