25 de Abril de 2018 |
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Roda Viva: A questão racial no Brasil
22/03/2018
As duas mortes de Marielle Franco
Editorial

A primeira morte de Marielle Franco, a mulher negra, socióloga, feminista, ativista dos direitos humanos e moradora da favela da Maré, no Rio, covardemente executada por pistoleiros em pleno centro da cidade, aconteceu na noite de 14/março, uma quarta-feira.

Quatro tiros disparados em direção a Marielle atingiram sua cabeça e o motorista que a conduzia, Anderson Gomes, também mortalmente ferido.

As características de uma execução já foram admitidas pela própria Polícia, que não tem dúvida tratar-se de um crime de mando. As balas, de acordo com as primeiras investigações, são do mesmo lote de calibre 9 milímetros – UZZ-18 - usados na chacina que deixou 17 vítimas em 2015, nas cidades de Osasco e Barueri, em S. Paulo, pela qual três policiais militares e um agente da Guarda Civil de Barueri, já foram condenados.

A segunda morte de Marielle começou antes mesmo que seu corpo baixasse à sepultura. Desta vez, não é mais o corpo da ativista, mas sua alma, o compromisso de vida em defesa dos oprimidos e dos humilhados pela violência cotidiana, que é o alvo dos assassinos.

Ao contrário da primeira morte, cujos autores ainda não foram identificados – embora as suspeitas recaiam naturalmente sobre grupos de extermínio e milícias que controlam e dividem territórios com traficantes – no caso da segunda morte, os autores estão claramente identificados.

São grupos que advogam o retorno à barbárie e que consideram justo que uma pessoa “mereça” ser morta por pistoleiros apenas porque assume a defesa de valores civilizatórios tais como, a igualdade de oportunidades, o combate ao racismo, a igualdade de gênero e de orientação sexual, o respeito à dignidade dos pobres.

Dentre tais personagens que deveriam figurar no livro da vergonha – estão  uma desembargadora carioca, responsável pelo assassinato da honra da ativista na sua rede social e até um deputado federal reconhecidamente integrante da bancada da “bala” no Congresso.

Flagrados no ato infame, botaram o rabo entre as pernas e simularam para as câmeras ou em suas próprias redes, pedidos vagos de desculpas, como se houvesse desculpas possível para o tamanho da covardia.

Os assassinos da alma de Marielle, tanto quanto os assassinos do seu corpo,  estão espalhados em todos os setores e instituições da sociedade brasileira – dos cultos aos iletrados. Agem em bandos, replicando com espantosa velocidade, os "disparos" mortais.

Nas duas mortes – na mão assassina que disparou e na barbárie que busca justificar a morte pelos valores que defendia - há um mesmo modus operandi; os que atiraram contra o corpo da ativista, e os que agora atiram contra a sua alma, agem com a mesma  desenvoltura dos covardes: atacam antes, quem não teve chance de defesa, surpreendida pela tocaia  e atacam agora a alma de quem não mais chance de defender, vilipendiando seu cadáver.

Num caso e no outro estamos diante de um Brasil que só pode nos causar medo, horror, asco e vergonha.

 


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