23 de Outubro de 2018 |
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01/06/2018
Os delírios de Vladmir Safatle. Ou quando os extremos se encontram
Dojival Vieira

É editor e jornalista responsável pela Afropress

O artigo “Temendo o Povo”, publicado na edição desta sexta-feira, 1º de junho, de autoria do filósofo Vladmir Safatle, é revelador pelo que diz e pelo que cala. O filósofo, que é autor de “O Círculo dos Afetos: Corpos Políticos Desamparo e O fim do Indivíduo”, é um dos ideólogos e ícones mais prestigiados da esquerda hegemonizada pelo lulopetismo, com ampla audiência em palestras e em debates na Academia.

No artigo, como que travestido de um Lênin na direção de barricadas imaginárias de massas rebeladas, começa por dizer que “a derrubada do governo por pressão grevista seria um processo civilizatório”.

Não se sabe a que pretendeu se referir com “processo civilizatório”, se porventura se deu conta de que a derrubada do fraco desmoralizado e corrupto Governo Temer a apenas quatro meses das eleições, é uma reivindicação da direita reacionária e golpista que quer intervenção militar a qualquer custo, sabotando e abortando o processo eleitoral já em curso e suspendendo, por consequência, as eleições de outubro.

Também não diz que a pressão grevista, no caso, se tratou de um lockout com características de motim, comandado e coordenado não por caminhoneiros, mas pelos donos das transportadoras e de ruralistas, que pretendiam impor sua pauta ao Governo e, por último, derrubá-lo abrindo caminho à intervenção/golpe militar e à ditadura.

Com o atendimento por um gaguejante Michel Temer de todas as reivindicações no domingo (27/05), e mesmo assim, com a continuidade das estradas interditadas e a denúncia de um dos líderes do lockout de que o que pretendiam alguns era a pura e simples “derrubada do governo”, ficou evidente que, em verdade, se tratava de um levante: essa era e sempre foi a principal proposta do movimento que emparedou o governo e nos tornou a todos - presos em nossas próprias casas, vendo o estoque de gêneros de primeira necessidade se esgotar nos supermercados - em reféns.

O afoito filósofo, contudo, possuído de intenso fervor revolucionário, em tom próximo ao épico, chega a saudar o movimento grevista/golpista em tom dos mais eloquentes, como se estivesse lidando com camaradas: “poucos foram os acontecimentos que explicitaram de forma tão cabal a realidade brasileira...”; “os caminhoneiros explicitaram a dinâmica destrutiva que alimenta a dita racionalidade econômica em vigor no governo”; “a inanidade (sic) política dos principais atores nacionais, deixando a nu o simples fato de que não existe governo no Brasil”, segue na apologia irresponsável.

Ora, se não existe governo no Brasil, como conclui, então tudo é permitido, inclusive, privar a pessoas nos hospitais de hemodiálise por falta de oxigênio, bem como destruir a produção com o sacrifício de milhões de frangos nas granjas, do leite aos milhões de litros derramados nas pistas e a morte de outros milhões de suínos por inanição, conforme noticiado.

Ele é mais explícito: “aqueles que temem um  golpe de Estado deveriam se dar conta de que um golpe já ocorreu”, enfatiza o novo Lênin de opereta, ecoando a narrativa do lulopetismo, órfão do seu líder cumprindo pena por corrupção passiva e lavagem de dinheiro em Curitiba, para justificar o impeachment de Dilma, a inepta presidente sob cujo governo, a roubalheira se espraiou de tal modo a ponto de quebrar a principal empresa brasileira – a Petrobrás –; cuja política econômica arruinou a economia e as finanças do país, responsável pelos 13,2 milhões de desempregados, pela recessão econômica e pela crise sem precedentes em que estamos todos afundados.

Sobre isso, Safatle se esquiva, esconde as cartas como um mágico amador na tentativa de iludir a plateia. Silencia. Aliás, jamais se ouviu dele qualquer condenação a roubalheira sob o lulopetismo.

Mas, ao arrotar valentia de que não teme golpe de Estado, este Lênin retardado erra na mão e dá um perigoso passo adiante na direção do aventureirismo mais irresponsável e leviano.

Todos os que viveram sob a ditadura sabem que as conquistas precárias que temos, esse precário Estado Democrático de direito obtido com a promulgação da Constituição de 1.988, que Safatle diz não existir mais, é a garantia que os cidadãos tem de que não desaparecerão nos porões, como muitos desapareceram na  noite escura de 21 anos de ditadura militar; de que poderão exigir o cumprimento de direitos previstos nas Leis de um Judiciário, que com todas as deficiências  que apresenta – e não são poucas – é guardião deste estado de Direito; de que poderão exercer o direito a liberdade de expressão e manifestação e expressão, sem a infâmia da censura e da tortura; nem poderão ser arrastados às prisões por delito de opinião.

Também isso, Safatle, tomado por um esquerdismo fora de tempo e de lugar, nada diz ao comemorar que “os caminhoneiros conseguiram parar o país e deveriam ter sido seguidos por uma mobilização radical de outros setores, tendo em vista a pura e simples derrubada de um governo que não representa ninguém, que não tem legitimidade alguma e cuja única razão de existência é procurar defender uma casta corrupta de políticos que nunca desaparecem”.

Safatle, que provavelmente votou em Dilma, também não diz, que ele e todos os que o fizeram escolheram  o vice, Michel Temer, seu substituto legal e, que, portanto, do ponto de vista da legitimidade política, Temer é tão legítimo quanto a titular da chapa que disputou as eleições de 2014.

Não satisfeito com a sucessão de disparates, o filósofo conclui que as classes populares entraram, "e não apenas no Brasil", ressalta, "em uma clara dinâmica anti-institucional". “Elas sabem que a estrutura institucional da democracia liberal é incapaz de garantir condições mínimas de justiça social”.

Os delírios de Safatle não ficam por aí: segundo ensina, "esta dinâmica anti-institucional pode tanto ir em direção às fantasias paranoicas de um regime forte e ditatorial quanto a um fortalecimento de movimentos de transferência do poder decisório a instâncias imanentes à vontade popular”.;

Não se sabe em que país e de que país, Safatle está falando. Terá se desconectado a tal ponto da realidade, para não perceber que a conjuntura política, desde que o lulopetismo se revelou a fraude que é – seguido que está sendo por uma esquerda lulista subserviente e refratária à realidade – é totalmente desfavorável às classes populares? Não vê que, nos anos pós-manifestações de 2013, à medida em que o processo de corrupção sistêmico começou a ser desnudado com o envolvimento explícito dos chefes do lulopetismo pela Operação Lava-Jato, (não por acaso todos presos), começou uma migração evidente das maiorias para posições conservadoras, à direita do expectro político.

Nunca desde a ditadura as classes populares estiveram em situação mais desfavorável, tanto no plano eleitoral, quanto nos planos político e ideológico. A esquerda lulista – que hoje se confunde com corrupção e roubalheira – causou um estrago na cabeça de gerações e gerações de brasileiros, traídos pelo discurso populista que dificilmente será reparado nos próximos 50 anos.

O grave dos delírios de Vladmir Safatle é que, além da leviandade e da irresponsabilidade com que trata o delicado e gravíssimo momento em que estamos todos imersos, acaba por jogar mais água no moinho dos que querem uma intervenção militar/golpe de estado, capaz de cancelar as eleições, soterrar as mínimas liberdades democráticas conquistadas à duras penas, abrindo caminho para a regressão social e um embarque sem volta para o mundo das trevas de mais uma ditadura.

De tudo o que disse e do que calou do alto do seu fervor revolucionário, Safatle só não explica uma coisa: como nos defenderemos dos algozes da nova ordem.


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
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