21 de Setembro de 2018 |
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Advogada negra é vítima de racismo por parte de juiza
05/09/2018
Vítima de câncer, morre no Rio jornalista Marcos Romão
Da Redação

Rio Será enterrado nesta quarta-feira (05/09), o corpo do sociólogo e jornalista, Marcos Romão, 65 anos, que morreu, às 19h30 da última segunda-feira, no Hospital Icaraí, em Niterói, vítima de um câncer. A doença foi diagnosticada em 2.009.

Criador da Agência Mamaterra – parceira da Afropress – ele era um dos mais importantes ativistas do Movimento negro brasileiro, militante em defesa dos Direitos Humanos desde o final dos anos 70, quando criou o S.O.S Racismo, no Rio. 

Romão deixa a mulher, Ortrun Gutke, 4 filhos, um rapaz e três moças, e um neto. Também deixa dois irmãos e duas irmãs, uma de parte de pai.

O velório acontece a partir das 9h desta quarta no Cemitério Confraria Nossa Senhora da Conceição, em Niterói, onde também ocorrerá o sepultamento marcado para as 15h.

LUTADOR INCANSÁVEL

Romão viveu mais de 20 anos na Alemanha, país onde se auto-exilou, segundo dizia, “para não ser alvo de balas nem tão perdidas”.

Lá se tornou jornalista ao montar uma rádio na Internet que tinha como foco a denúncia do tráfico de mulheres, o combate às manifestações de ódio racial, a violência doméstica e contra crianças.

A preocupação com as crianças era uma das suas bandeiras mais caras desde 1.993, quando participou das ações de proteção aos sobreviventes do Massacre da Candelária, no Rio e passou a ser alvo de perseguição por parte do Governo Moreira Franco. 

Com sua companheira, a alemã Ortrun, ele se tornou liderança destacada na luta em defesa da cidadania de brasileiros vivendo no exterior. No Congresso Mundial de Brasileiros vivendo fora do país, foi porta-voz dos cerca de 80 mil que, à época, viviam legalmente e ilegalmente na Alemanha.

Um dos temas desse Congresso foi o da previdência social e a reivindicação vitoriosa dos trabalhadores brasileiros residentes em cidades como Colônia e Hamburgo para que o tempo de serviço fosse contado para fins de aposentadoria, proposta que acabou fazendo parte do acordo firmado pelo Governo brasileiro com a primeira ministra alemã Angela Merkel.

A Rádio Mamaterra era uma outra das suas paixões. "É uma volta ao passado. Foi em Niterói que começamos uma luta contra o racismo ostensivo ou disfarçado. Nem se pensava em cotas na época. Depois, quando fui morar na Alemanha, fiquei na outra ponta, recebendo e repercutindo denúncias”, costumava lembrar Marcos Romão.

TRISTEZA E PESAR

Lideranças do movimento negro de todo o país, manifestaram tristeza e pesar pela partida do velho militante: “E viva Marcos Romão: um grande militante do movimento negro brasileiro. Lutava há anos contra o câncer. Ontem (segunda) foi para o andar de cima. Uma pena. Axé, para ele e sua família”, escreveu o ex-presidente da Fundação Palmares, e atual presidente da Fundação Pedro Calmon, Zulu Araújo.

O jornalista Márcio Alexandre Martins Gualberto lamentou a morte do amigo e comentou a falta que fará em emocionado texto que escreveu na sua rede social.

A irmã, Rosane Romão, lembrou que Romão deixa um legado: “Um criador, um precursor, agregador amoroso, guerreiro", destacou.

O câncer que o matou, não o venceu. Mesmo abatido, fragilizado ele permanecia ativo nas redes sociais. No dia 24 de agosto passado, por exemplo, já internado no Hospital Icaraí onde morreu nesta segunda feira, Romão mostrava ânimo: “Bom dia, amigas e amigos. Estou melhorando a cada dia. Devo ter alta nos próximos dias. Agradeço a solidariedade de todas”.

O jornalista Dojival Vieira, editor de Afropress, que o entrevistou pela primeira vez, em março de 2.010, quando ele fez a primeira cirurgia em Hamburgo para a retirada do tumor, lembra que a firmeza na defesa dos princípios e no combate ao racismo e o bom humor eram uma marca de Romão.

Reveja a entrevista: 

https://www.geledes.org.br/pelo-mundo/

Depois de dois meses de quimioterapia e radioterapia, e com as "nádegas assadas", conforme comentou bem humorado ao iniciar a entrevista, ele não demonstrava abatimento.

"Não tem metástase a possibilidade de cura é total; segundo me dizem os médicos é de 90%", comentava sobre a doença que o acabaria matando.

O editor de Afropress disse que a morte precoce do jornalista e ativista é uma perda imensa para o movimento social negro e para o Brasil.

"Romão combinava a defesa dos princípios na luta antirracista com o bom humor e a ternura no trato, sem nunca se deixar contaminar por ressentimentos e rancores, o que é raro, em um movimento em que, muitas vezes, as divergências políticas rapidamente se transformam em ódios pessoais. Estou triste. Costumava, quando falávamos, perguntar a ele da saúde e acrescentava que ele era o nosso irmão mais velho e só estava autorizado a nos deixar depois dos 100 anos. Para a nossa tristeza, ele foi muito cedo. Expresso meus mais profundos sentimentos a família, em especial, a companheira Ortrun, filhos e irmãos. Romão vai fazer muita falta para todos nós", concluiu. 

 


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