15 de Novembro de 2018 |
Última atualização :
Comentamos
Conceição Vercesi, de Botucatu, fala sobre Diversidade
08/09/2018
A chuvarada do Marcos Romão
Jose Sergio Rocha

É jornalista, produtor de conteúdo para instituições do sistema cooperativista, autor de A pedra e o fogo (biografia do governador Roberto Silveira - 1923-1961).

Minha amizade com o sociólogo e jornalista Marcos Romão começou com uma briga no Bar do Celso, na Rua Lara Vilela, bairro do Ingá, Niterói. Éramos estudantes, eu fazia Comunicação no IACS, ele Ciências Sociais no ICHF. Eu estava posto em sossego, enchendo os cornos com dois amigos "arianos" - um deles, o Wilson Soares de Magalhães, vulgo Paraná, o outro não me lembro - quando Romão, que eu conhecia de vista do movimento estudantil niteroiense, visivelmente embriagado, veio me dar um esporro:

"Porra, você é um negão besta que não fala com preto. Só com branquelos. Tu tem cabelo ruim e estes olhos verdes não me enganam. Tu deve ser judeu e negão!".

Reagi à altura do meu estado alcoólico:

"Porra, meu olho não é verde, caralho. É azul. Não estou te entendendo. Parece viadagem. Vai encher o saco de outro" (sim, eu era politicamente incorreto como quase todo mundo era nos anos 1970).

Romão queria briga, mas a resposta deve ter tirado a vontade dele de me dar uma porrada. Paraná e o outro amigo (talvez o falecido Rômulo, o popular Anjinho Barroco) intervieram, bêbados. Celso apareceu e deu um esculacho no quase agressor, que voltou para sua mesa e continuou a beber.

"Seu racista!", resmungou, evidentemente se referindo a mim. Mas tudo serenou.

Aquilo foi bom porque foi nesta época que, vasculhando meus retratos antigos de família, encontrei minha bisavó Francelina, a Dona França, mãe do meu avô Antônio Miguel e casada com o judeu Miguel. E passei a deixar o retrato em lugar que eu pudesse encontrar rapidamente, caso fosse a algum evento em que o Romão pudesse estar, para enfiar na cara dele.

O tempo se passou e, daí a pouco, passamos a nos falar, como conhecidos e colegas. Participamos de assembleias e passeatas, sempre em lados distintos, pois não éramos ligados às mesmas chapas que concorriam ao DCE.

Fora dali, com o tempo, passei a admirar o encrenqueiro por conta do trabalho social que desenvolvia em Itaipu, no tempo do Brizola. Levou tão a sério que terminou sendo meio que obrigado a se mandar do país. Na Alemanha, por muitos anos, sei que fez um belo trabalho com outros imigrantes.

Passou o tempo, um dia estava na antevéspera de um Natal com amigos e amigas na praia de Itaipu, eis que vejo ao longe um negão com uma loura e duas meninas, uma mais clarinha, a outra mais mulata (não sei se continuaram assim).

Nos reconhecemos e, para minha surpresa, Romão me deu um abraço. Apresentou-me Nina, então sua mulher, mãe das gêmeas Moema e Papoula. Eu estava separado e resolvi dar uma festa (que foi repetida mais umas duas ou três vezes) de Natal para os desajustados que não gostavam de festas de Natal, pais ou mães separados, solteiros que só queriam encher os cornos etc. O nome da festa era "Matou a família e foi pra casa do Zé Sergio".

Romão e família chegaram e as meninas gêmeas dormiram na minha cama enquanto a gente biritava com vários amigos. Lá pelas tantas, meio bêbado, peguei o retrato de vó França e, sem que outros ouvissem, mostrei ao meu convidado e não deixei passar em branco (ele ia rir desse "passar em branco").

"Esta aqui é minha bisavó, seu racista filho da puta!".

Caímos na gargalhada. Soube depois que ele havia se separado de Nina, que era ou ainda é atriz, mas continuava fazendo um trabalho social bacana em Hamburgo.

Novamente de volta, com problemas que felizmente foram resolvidos - pois ficar numa cama ou numa cadeira de rodas, sofrendo ainda dores e outras merdas decorrentes de um transplante de fígado NÃO É VIDA PARA NINGUÉM - tivemos mais alguns anos de boa camaradagem, com direito a alguns encontros bacanas em festas ao lado de seus irmãos Rosane Romão Guarani Kaiowa, Ricardo Romão, Zé Carlos e outros amigos, como Margareth Silva e Osvaldo Maneschy, e ex-companheiros de movimento estudantil como Silas Ayres e Luiz Carlos Azedo. E, tendo ao lado dele, sempre, a dedicada e guerreira valquíria Ortrum, a loura alemã por quem ele se apaixonou e que cuidou do meu amigo durante muitos anos. E os filhos que o amaram tanto: Jorge, Rita, Moema e Papoula.

Enfim, meu ex-desafeto marrento, amigo dos bons, lutador social, Marcos Romão, que veio ao mundo para se divertir e para dividir ideias e bons sentimentos com a humanidade, ontem à noite ficou MUITO PUTO com o incêndio do Museu Nacional e marcou um ponto com um monte de gente boa, aproveitando (conforme relato da Rosane Romão) a oportunidade para mandar uma chuva grossa para lavar os incêndios que devastam nossas almas.

Nas fotos com os irmãos Ricardo (com o coco), Rosane e José Carlos; marcado numa manifestação em que estávamos (mal dá para ver o cara) e dona França, a quem convidei para dar as boas-vindas ao amigo de seu bisneto agnóstico.

O velório será nesta quarta-feira, a partir das 9 horas, e o sepultamento por volta das 15 horas na Confraria Nossa Senhora da Conceição, ao lado do Maruí, no Barreto, em NIterói.


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
Artigos Relacionados
A colagem de Arya Haliba
O empreendedor Barão de Mauá (1.813-1889)
A generalização como recurso de linguagem e porta para a injustiça
"A Democracia está em risco, acordem!"
Twitter
Facebook
Todos os Direitos Reservados