23 de Outubro de 2018 |
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Conceição Vercesi, de Botucatu, fala sobre Diversidade
05/10/2018
O Brasil e o ódio que vai às urnas no domingo. Ditadura nunca mais!
Editorial

O Brasil vai às urnas neste domingo (07/10) sobre a influência dos mais baixos sentimentos e instintos:  uma mistura de raiva, ódio, rancor e ressentimentos de variados matizes acompanhará cerca de 138 milhões de pessoas que comparecerão às sessões eleitorais em todo o país. O único sentimento que uma eleição deveria despertar, porém, – a esperança – não pode estar ausente.

O candidato que lidera as pesquisas é um extremista de direita que quer botar fogo no país e provocar a intervenção e o retorno dos militares com todas as consequências que isso acarretará – fim do Estado democrático de direito, prisões para quem se opuser, censura prévia, supressão das liberdades e dos direitos (seu vice tem falado em acabar com o 13º salário e cogita de um auto-golpe para promulgar uma constituição de notáveis, e outras aberrações, capazes de deixar qualquer democrata de cabelo em pé).

A onda de irracionalidade ameaça desembocar nas urnas e se isto ocorrer, pode-se esperar o pior, inclusive, a vitória no primeiro turno, de Bolsonaro, o capitão reformado e candidato da extrema direita civil/militar. Destituído de qualquer preparo, sequer para ser o síndico do luxuoso condomínio em que vive na Barra da Tijuca, no Rio, em condições normais, Bolsonaro, jamais estaria disputando a Presidência da República.

Num futuro próximo, analistas políticos e historiadores, se perguntarão como foi possível que uma parte expressiva do povo brasileiro se deixasse seduzir pelo canto da sereia de alguém que defende a tortura e celebra e homenageia notórios torturadores da tribuna do Congresso Nacional; que em 28 anos de parlamento,  apresentou apenas dois projetos; que combate e desdenha de mulheres, negros, indígenas e homossexuais, a quem se refere sempre com palavras de humilhação e desprezo, estimulando e fazendo a apologia da violência. Onde foi que erramos?!

Não, não é só a economia, estúpido! O que pode explicar o risco que todos corremos de eleger um presidente com viés abertamente fascista e que deseja um governo tutelado pelos quartéis e por generais – um dos quais, o seu vice, o notório Hamilton Mourão passou para a reserva para presidir Clube Militar. Não, não é só a economia paralisada a, pelo menos, quatro anos, mantida na UTI pelo desgoverno Temer, o vice de Dilma, com índices próximos de zero de crescimento do PIB.

Há outros fatores que podem explicar o fenômeno. Bolsonaro não é o resultado apenas da falência do sistema político, eleitoral e partidário, desconectado, há muito, das demandas da cidadania e dos cidadãos. É a expressão também da falência do lulismo e do petismo que esteve à frente do país por 14 anos, instaurando um modelo de governança baseado na corrupção sistêmica e no enriquecimento dos seus dirigentes, todos eles - inclusive Lula - presos na Operação Lava-Jato.

Um partido político nessas condições, flagrado praticando crimes e mal-feitos, teria como prioridade uma profunda autocrítica, a punição exemplar dos envolvidos. Mas, não o PT, nem Lula. Nunca se ouviu e ou se ouviu qualquer sinal – por mais tímido que fosse – de autocrítica. Nem pública, nem interna.

O resultado aí está: a estupidez do petismo de tentar transformar os vários processos de que Lula é alvo (são seis ao todo) em processos políticos contra todas as evidências, confrontando o sistema de um Poder Judiciário que não conseguiu aparelhar totalmente, foi levando a maioria das pessoas à exasperação. Hoje, isso está estampado nos índices recordes de rejeição ao partido e ao candidato indicado para representá-lo nas eleições, após a impugnação da candidatura com base na Lei da Ficha Limpa, - o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad.

Haddad e Bolsonaro se equivalem em rejeição, ou seja, a maioria das pessoas, não os querem como presidentes da República, o que diz muito a respeito da natureza da crise em que nos encontramos - literalmente à beira do abismo.

Para a esquerda brasileira, a hegemonia do lulismo é um fardo impossível de continuar carregando, sob pena de sacrificar qualquer esperança de futuro. O PT foi, nos primeiros anos de sua fundação, a grande esperança de mudança, de que seria um partido capaz de fazer as transformações estruturais que vem sendo proteladas há séculos pelos herdeiros da Casa Grande. Essa esperança, porém, há muito, acabou. O partido hoje é visto - e não sem razão - como sinônimo da corrupção e da roubalheira que tomou conta da política e dos políticos e tem se esforçado em ocupar a desonrosa posição na história de coveiro da esquerda brasileira.

Nestas condições, se impunha a necessidade de uma ampla frente de forças que unificasse o campo popular e progressista, com um candidato e um programa que retomasse a agenda interrompida em 2002, quando, para ganhar as eleições, Lula e o PT se compuseram com o grande empresariado e o cartel das empreiteiras. O resultado todos sabemos.

Mas, esperar de Lula e do Lulismo iniciativas que coloquem em risco a condição de guardiães da hegemonia da esquerda é esperar demais;  uma ampla frente popular capaz de derrotar o candidato da extrema direita já no primeiro turno e que abrisse caminho a um governo de novo tipo, seria colocar em risco essa hegemonia mantida à ferro e fogo por alguém que, há muito, passou a "brincar de Deus", e  parece mais preocupado com a narrativa que farão no futuro da sua biografia de condenado há 12 anos e um mês por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. 

As condições estavam dadas pela existência, inclusive, de um candidato, preparado e com experiência e traquejo popular para conduzir a tarefa – o ex-governador do Ceará, Ciro Gomes. Lula e o lulismo optaram por não apenas criar dificuldades para uma aliança tendo Ciro como candidato. Fizeram pior: não pouparam esforços para sabotar essa possibilidade e, da cadeia em Curitiba, foi o próprio Lula quem despachou as ordens de que tudo deveria ser feito para impedir que Ciro se tornasse uma alternativa do campo popular nas eleições.

A burocracia lulista cumpriu fielmente as ordens, sabotando candidaturas como a de Marília Arraes ao Governo de Pernambuco, queimando as pontes de uma aliança de Ciro com o PSB, o que lhe permitiria alguns segundos a mais no horário eleitoral gratuito. Mas, ao que tudo indica, não ficará nisso: para manter a hegemonia da esquerda e do campo popular está disposta a tudo, mesmo que isso custe abrir caminho a um governo de inspiração civil/militar tutelado pelos quartéis, que abrirá as portas do inferno de nova ditadura.

A história não absolverá, nem Lula nem o PT. A ausência de autocrítica desse partido chocou o ovo da serpente, que agora nos ameaça a todos. Acompanhar pela televisão à propaganda dos seus candidatos, é como fazer uma viagem ao passado, anterior ao mensalão e ao petrolão. O Partido, esconde-se da história e, ao fazê-lo, nos toma a todos - e ao povo brasileiro - como idiotas. É essa exasperação e raiva que projetou a onda no qual estamos todos mergulhados.

A desconexão com a realidade, porém, não é nova. Quando as multidões foram as ruas em junho de 2013, para pedir por um país com serviços públicos de qualidade e sem corrupção, foram ignoradas. Depois de acenar até com a convocação de uma constituinte para fazer a reforma política, o Governo Dilma ignorou-as. Essas mesmas multidões continuaram ocupando as ruas, até se tornarem o tsunami que desaguou no impeachment. A esquerda perdeu a hegemonia das ruas e, claro, que isso seria só o prenúncio dos tempos trevosos que vivemos. Agora, esse tsunami, que se tornou uma ameaça conservadora e retrógrada, quer sequestras as urnas.

Não se fazem mais golpes militares como antigamente, todos sabemos. Agora, eles podem se dar, inclusive, pela via eleitoral, e é isso o que precisamente se pretende. E até nisso, a narrativa do petismo é equivocada: apeado do poder pela própria base que organizou à custo da propina e da corrupção de deputados e partidos para apoiar a Dilma, passou a ecoar o mantra do "golpe", naturalizando-o, sem se dar conta de que o golpe verdadeiro está em marcha.

É esta mistura de ódio e ressentimento, com a frustração e a raiva de governos do lulismo, que impulsionaram a candidatura da extrema direita militar em sintonia com os quartéis e que tem como projeto abrir caminho para o retorno da ditadura, e o que é pior: com apoio das urnas.

Bolsonaro, o tosco e sem preparo capitão reformado que se mantém há 28 anos na Câmara Federal, é a expressão dos baixos e sinistros sentimentos que passaram a ser ecoados por cidadãos comuns e por uma classe média ressentida, disposta a apoiar o primeiro aventureiro que aparece no momento de crise.

A onda de irracionalidade em que surfa, contudo, pode ser esvaziada se o povo brasileiro, recusar o ódio e ressuscitar nas urnas a esperança traduzida no voto ao candidato que recusa a estúpida polarização entre o bolsonarismo e o petismo, que nos levará à ruína.

Não apenas por ter nome limpo, mas por apresentar um programa de governo com propostas claras e factíveis, de destravamento da economia e de estímulo a criação de empregos e ao desenvolvimento nacional, Ciro Gomes pode ser o nome dessa esperança represada.

Nas pesquisas - de todos os institutos - é o único capaz de vencer o capitão reformado, em qualquer cenário. E é também o único com condições de governabilidade, na medida em que sairá das urnas - no caso de vitória - com a disposição de unir o Brasil em torno de um Governo capaz de afastar o fantasma da extrema direita retrógrada e da intervenção militar, que começa a ser cogitada.

O país precisa derrotar o ódio que inviabiliza o diálogo entre os diferentes e confunde discussão política com troca de insultos. Que das urnas no domingo, saia a esperança que pode ganhar forma e conteúdo e tomar conta do Brasil. Para por fim à cultura do ódio e da violência, Ciro Presidente.


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