15 de Novembro de 2018 |
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27/10/2018
EDITORIAL: Voto em Haddad é ato de legítima defesa
Da Redação

O povo brasileiro vive uma situação dramática em que o ex-capitão do Exército, Jair Bolsonaro, um deputado de extrema direita, com falas, atitudes e iniciativas abertamente fascistas, pode chegar à Presidência da República neste domingo (28/10), dinamitando a democracia e abrindo caminho para a intervenção militar. Seu vice, o general Hamilton Mourão, destacou-se na campanha por defender o fim do 13º salário, por dizer que o brasileiro herdou a malandragem dos negros e a indolência dos índios, e afirmar que a criação de filhos por mães e avós, são "fábricas de desajustados".

Trata-se de uma chapa, que venceu o primeiro turno e até agora na liderança das pesquisas, sem qualquer compromisso com as regras da democracia. Por mais de uma vez, Bolsonaro, que há 28 anos se elege deputado pelo Rio, bem como os três filhos da clã que lidera, colocou em dúvida a credibilidade do processo eleitoral, lançando suspeitas sobre as urnas eletrônicas, e deixou clara a postura golpista, ao dizer que só aceitará o resultado das urnas se este lhe for favorável. 

Fomos trazidos até aqui – às margens do precipício - pelo PT e por Luis Inácio Lula da Silva, o ex-presidente, preso em Curitiba, condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro a 12 anos e um mês.

Lula e o PT não apenas trairam valores que, por muito tempo, foram defendidos como se fossem monopólio do Partido - o combate sem tréguas à corrupção, políticas públicas em favor dos mais pobres, as reformas que vem sendo secularmente adiadas.

Nesta campanha, esses erros e a tentativa de manter a qualquer custo a hegemonia sobre a esquerda brasileira, foram maximizados e inviabilizaram a construção de uma frente ampla de todas as forças democráticas, populares e progressistas que, unidas em torno de um candidato como Ciro Gomes, teria sido o suficiente para derrotar o fascismo, muito provavelmente já no primeiro turno.

A proposta de uma chapa encabeçada por Ciro com Haddad de vice, chegou a ser proposta por petistas insuspeitos como o ex-governador e atual senador baiano, Jacques Wagner. O próprio Haddad era favorável a composição. Da cela em Curitiba, porém, Lula vetou a proposta e ainda fez o possível e o impossível para sabotar a campanha de Ciro. A presidente do PT, senadora Gleisi Hoffman, chegou a dizer que “Ciro, como cabeça de chapa, nem com reza brava”. Fez mais: operou para reduzir o tempo de TV do ex-governador do Ceará,  inviabilizando aliança do PDT com o PSB.

Ficou claro para quem tem um mínimo de independência intelectual que a campanha do PT, sob a direção de Lula, colocou no centro da sua tática, a sua própria sobrevivência e liberdade, sintetizado no “Lula livre”, e não a apresentação de um programa para tirar o Brasil do atoleiro em que o país se encontra com corrupção sistêmica, 13 milhões de desempregados e a descrença completa no sistema político e nas instituições. Foi como se o partido que ocupou o Governo nos últimos 13 anos e meio, nada tivesse a ver com isso.

O próprio ânimo na campanha para o segundo turno, foi revelador de uma tática, que passou para muitos a idéia de que, a conquista da segunda maior bancada de deputados, a manutenção de alguns governos estaduais no nordeste, e a passagem para o segundo turno, eram os objetivos, de fato, pretendidos para manter o partido na liderança da oposição ao próximo governo. 

Ao longo de 13 anos, nenhuma das reformas estruturais que vem sendo adiadas foram feitas, nem a reforma do sistema político e partidário. As políticas públicas em favor dos mais pobres, não foram institucionalizadas. Em contrapartida, os banqueiros nunca ganharam tanto sob os governos do petismo, e a corrupção sistêmica se instalou com o aparelhamento da máquina do Estado por malfeitores.

O lulismo e o petismo criaram o monstro

Foi a farra do petismo que criou o monstro que agora nos ameaça a todos. A ascensão da extrema direita liderada pelo capitão reformado, favorável à tortura e a ditadura e defensor de políticas de caráter abertamente fascista, não teria se dado se Lula e o PT tivessem tido, ao menos três iniciativas: defendido a punição dos corruptos que se locupletaram do dinheiro público dos seus governos, desde o "mensalão", e a defesa clara da Operação Lava-Jato; a punição dos envolvidos na corrupção, "doesse a quem doesse"; uma autocrítica sincera dos erros e dos crimes cometidos. Essas medidas poderiam ter representado a refundação do partido que chegou a ser defendida por vozes como o ex-governador gaúcho Tarso Genro, rapidamente abafadas pelo lulismo.

A arrogância dessa corrente política, o sectarismo com que trata quem ousa exercer o direito à crítica, contudo, não permitiram movimento algum nessa direção. Ao contrário: o processo judicial em que o próprio Lula foi condenado se caracterizou pela tentativa de transformar os tribunais em palanques e em confrontar e desafiar o Judiciário como instituição, provavelmente pela ausência de álibis que pudessem explicar o enriquecimento dos dirigentes do Partido, e do envolvimento em  tenebrosas transações sobre as quais as investigações da Polícia Federal e o Ministério Público lançaram luz.

Como se pode ver, não foram só erros políticos, de avaliação, como, por exemplo, carregar a fama - por não condenar - a ditadura Maduro na Venezuela, herdeiro do Chavismo e que está provocando uma crise humanitária  no continente. Foram crimes dos mais variados calibres, da corrupção passiva, a lavagem de dinheiro, sem contar com o crime maior que foi a traição às bandeiras históricas do povo brasileiro, e a transformação da esquerda, sob a hegemonia do lulismo, em sinônimo de corrupção, fato jamais havia ocorrido na história da esquerda brasileira e que terá repercussões e reflexos ainda por muitas gerações.

Voto em Haddad, em legítima defesa

Contudo, diante dos riscos e do perigo que corre a democracia brasileira se o candidato da extrema direita ganhar, não podem deixar dúvidas a qualquer pessoa com uma mínima convicção democrática: o candidato do PT, Fernando Haddad, representa riscos bem menores a essa mesma democracia.

Não se pode, para justificar a adesão ao "Partido de Pilatos" dos que advogam voto neutro ou abstenção, lavando as mãos, afirmar que os dois candidatos tem programas igualmente catastróficos. A começar que quem, nesta eleição, se põe a avaliar programas parte de uma premissa: falsa: a de que estaríamos diante de um processo eleitoral normal, uma eleição como qualquer outra.

Não, essa não é uma eleição como qualquer outra. Essa é uma eleição que pode, pela primeira vez na história do Brasil, promover a chegada ao poder de um candidato comprometido com valores anti-civilizatórios, como a defesa da tortura, a supressão de direitos trabalhistas como o 13º salário; o fim da demarcação das terras indígenas; o desprezo a maioria da população negra, a quem trata como animais; contra as mulheres a quem defende que ganhem menos; e a perseguição a homossexuais; que faz a defesa da tortura e a apologia da violência. E o que é pior: pelo voto.

Esse perigo jamais corremos, e não é por outra razão que o mundo está alarmado com essa possibilidade catastrófica. Artistas e pessoas das mais variadas posições políticas e ideológicas, estão usando suas redes sociais e alguns saindo às ruas para fazer o alerta. A Democracia brasileira, precária, como sempre foi, a Constituição de 1.988, a constituição cidadã, que é o pacto sob o qual estamos amparados desde o fim dos 21 anos de ditadura, corre perigo.

Não se trata apenas do mal que alguém com esse perfil pode causar a nossa frágil ordem democrática; é o que o discurso de ódio do capitão reformado provoca nos seus apoiadores, que não tardarão em se organizar em milícias para espalhar o terror, a violência e a morte.

Os casos de violência já registrados, inclusive, a morte a facadas de um mestre de capoeira na Bahia - o mestre Môa do Katendê, da Bahia - são uma pequena amostra do que pode vir por aí.

Por tudo isso, defendemos o voto em FernandoHaddad 13, contra Bolsonaro e a extrema direita. Nosso voto não significa qualquer aval e ou concordância aos erros e crimes do lulismo e do petismo, sob a hegemonia deste, mas de legítima defesa diante das ameaças que pairam sobre a ordem democrática.

Queremos, com a vitória de Haddad, estar desde o primeiro dia, na fiscalização desse Governo, em atitude crítica e de oposição, para que não se repitam os desmandos dos 13 anos de Governo do petismo, nem o desastre da cria deixada pelo PT nos últimos dois anos: o desastroso e corrupto governo Temer, escolhido duas vezes por Lula para ser vice.

Com Haddad já sabemos que as regras da democracia permaneceram e nós estaremos vigilantes e nas ruas. Com o candidato da extrema direita, teremos avançado para um tempo de sombras, em que sequer podemos ter certeza se, em quanto tempo, poderemos voltar às urnas para o exercício do direito de voto.

A ditadura, o autogolpe sobre o qual o vice Mourão já especulou abertamente, são possibilidades concretas postas à mesa. Este é um risco que o povo brasileiro não pode correr.

FRANÇA, GOVERNADOR

Em S. Paulo, o Estado mais importante da federação e onde vive a maioria da população negra do país - 34,6%, cerca de 15 milhões de pessoas - defendemos o candidato Márcio França, do PSB, para derrotar Dória, o candidato do PSDB, que representa o que há de pior na direita brasileira e que tenta, no desespero surfar na onda da extrema direita para chegar ao Palácio dos Bandeirantes.

Márcio França tem se posicionado pela neutralidade na disputa presidencial, posição política que representa um avanço para enfrentar o tsunami do bolsonarismo (ou bolsonazismo).

Em situação de empate técnico e até mesmo numérico nas intenções de voto, a eleição de França representará um importante contraponto, na hipótese da vitória da extrema direita, pela importância de S. Paulo e pela postura democrática com a qual o candidato do PSB, históricamente está sintonizado.

 

 

 


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