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06/12/2018
Morte da cadela Manchinha no Carrefour: omissão e cumplicidade
Editorial

Desde o ocorrido com o vigilante da USP, Januário Alves de Santana que, no dia 07 de agosto de 2.009, ao se dirigir com a mulher e filhos para fazer compras na loja da Avenida dos Autonomistas, em Osasco, foi confundido com um ladrão e espancado bárbaramente, suspeito do roubo do próprio carro, que temos alertado: a ausência de políticas de sensibilização e capacitação dos funcionários das empresas de segurança contratadas por lojas, bancos e redes de supermercados como o Carrefour, acabaria por tornar os casos de racismo e discriminação rotineiros.

São quase que diárias as situações vexatórias, os constrangimentos a que cidadãos vem sendo expostos publicamente, com danos irreparáveis à sua imagem e dignidade.

A morte da cadela Manchinha, por um segurança, visto com uma barra de ferro usada para o espancamento do animal, e que está causando comoção e mobilização em todo o país, em especial, de ativistas e organizações protetoras de animais, expõe com toda a crueza a que ponto chegamos e que só pode ser descrito com uma única palavra: intolerável. 

Não é possível mais tolerar, a violência naturalizada. Não são apenas as pessoas, consumidores que frequentam diáriamente tais lojas, em especial, se negras, os alvos: como se vê, até mesmo animaizinhos indefesos não escapam da brutalidade, da insensibilidade humana de tais funcionários, em geral, com pouca qualificação e sem nenhuma aptidão e preparo para lidar com o público.

Não, por acaso, o caso da cadela Manchinha ocorreu na mesma loja em que o vigilante da USP se tornou alvo da sanha de seis brutamontes que o encurralaram, o dominaram e o espancaram com requintes de sadismo, provocando-lhe fratura em três partes do maxilar esquerdo, o que fez com que tivesse que passar por cirurgia de média complexidade no Hospital Universitário da USP.

A responsabilidade por tais violências diárias, porém, não é apenas de quem os emprega, mas de quem os contrata, que se torna cúmplice de tais práticas ao não obrigar as empresas a adotarem programas de qualificação e sensibilização desses profissionais.

E não estamos falando de um setor que enfrente problemas de caixa. O mercado de segurança privada, que surge em 1.969 em pleno auge da ditadura militar, tem crescido continuamente. É um dos setores da economia que mais fatura. Estima-se que, entre 2002 e 2015, o faturamento nominal do setor passou de R$ 7 bilhões para R$ 50 bilhões, segundo o IV ESSEG (Estudo do Setor da Segurança Privada) feito pela Federação Nacional de Empresas de Segurança e Transporte de Valores (Fenavist).

O número de empresas também cresceu em torno de 75% entre 2002 e 2016, passando de 1.386 para 2.438 autorizadas a prestar serviços, especialmente com a presença de policiais em seus quadros. Em S. Paulo, por exemplo, cerca de um quarto (23%) das empresas especializadas registradas, tem ou já teve policiais em seu quadro societário, de acordo com dados de um levantamento feito pela Pública com as fichas cadastrais das 476 empresas e cursos de formação da área registrados na Junta Comercial do Estado de S. Paulo (Jucesp) e autorizados pela Polícia Federal.

Há, ainda, um grande número de policiais associados ao enorme setor clandestino da segurança privada. Estima-se que para cada vigilante cadastrado haja outros três atuando na clandestinidade, frequentemente policiais, agentes penitenciários e outros servidores ligados à segurança pública.

O número de vigilantes também impressiona. De acordo com os dados da PF – que é, por lei, a responsável pela fiscalização das empresas –, há quase 500 mil vigilantes cadastrados no país. Muito próximo do número de policiais civis e militares em todo o país: 552 mil. Entre 2010 e 2015, a PF emitiu em média 160 mil novas Carteiras Nacionais de Vigilantes (CNVs) por ano. Ainda segundo o órgão, as empresas de segurança privada possuem um arsenal de 248 mil armas e 122 milhões de munições.

Considerando a estimativa de que, para cada segurança cadastrado, existam três atuando na clandestinidade, estamos falando de 1,5 milhão de homens na clandestinidade, sem formação, sem preparo e sem qualquer condição de prestar serviços lidando com o público em grandes lojas de supermercados.

É aí que entra a responsabilidade de bancos, lojas e empresas como o Carrefour, reincidente nas práticas de discriminação e de maus tratos – agora envolvendo até mesmo animais indefesos. O anúncio da criação de um "Pet Day", a ser celebrado sempre no dia 28 de novembro para lembrar a morte da cadelinha, é um expediente de marketing concebido com um único propósito: desviar a atenção do problema real, que é a ausência de treinamento e capacitação dos seguranças das empresas contratadas.

Ao não exigir dessas empresas formação adequada para esses profissionais, o Carrefour torna-se, não apenas, omisso e conivente com tais práticas e violências. Pior do que isso: torna-se cúmplice.


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