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17/02/2019
Maju e a falácia da inclusão simbólica
Editorial

A trajetória profissional da jornalista Maria Júlia Coutinho é digna de toda admiração de quem a acompanha: trata-se de profissional séria, competente com uma brilhante carreira na TV Globo, onde ocupa o papel de “moça do tempo” do Jornal Nacional, o telejornal de maior audiência.

As celebrações nas redes sociais pela sua aparição na bancada do telejornal como a primeira mulher negra a ocupar este espaço, neste sábado (16/02), não podem ser vistas, senão como a repetição de um equívoco recorrente de quem considera que avançamos aceitando o modelo de inclusão em que negros são reduzidos à símbolos, alegorias, adereços de mão.

A luta pela verdadeira inclusão da população negra brasileira aos direitos básicos da cidadania, direitos que vem sendo negados desde a Abolição incompleta ocorrida em um 13 de maio, há 131 anos, não pode se resumir ao território do simbólico.

E por uma razão simples: esse é exatamente o modelo de inclusão das classes dominantes brasileiras, dos herdeiros da Casa Grande.

A nós negros nunca foi negado o acesso ao território do simbólico. No futebol - a paixão nacional -, no carnaval - a maior festa popular brasileira -, temos exemplos de sobra de que o espaço de visibilidade como símbolos sempre esteve aberto, pelo menos desde o fracasso da política de branqueamento adotada pelo Estado brasileiro no pós-República, notadamente nas três primeiras décadas do século XX.

Claro que, até nessas áreas – no futebol e no carnaval -  o acesso não é amplo, tem seus limites. Negros podem brilhar em campo, mas, se você ainda não se deu conta, preste atenção em quantos são os negros técnicos dos grandes times brasileiros. Preste mais atenção ainda: veja quem são os presidentes dos principais clubes que disputam os campeonatos estaduais e o compeonato brasileiro. Você não encontrará negros – ou são raríssimos – nas direções desses clubes.

O mesmo raciocínio, ainda que em menor escala, vale para os presidentes das escolas de samba, os principais destaques nos desfiles que monopolizam a atenção do país. São uma minoria.

No caso da TV e do mercado publicitário, nas grandes empresas, nos bancos, nos espaços de poder – Executivo, Legislativo e Judiciário – os negros seguem sendo uma ínfima minoria em um país em que somos mais de 100 milhões.

Na TV, a política das grandes emissoras e redes como a Globo é a mesma desde sempre: um ou outro negro pode aparecer precisamente como símbolo de uma inclusão falaciosa.

Para cada Maju que aparece na bancada do Jornal Nacional, ou Glória Maria, ou Eraldo Pereira, quantos tão competentes quanto estes profissionais, não tem o acesso negado porque a cota do símbolo já foi preenchida?

Qual o sentido de se transformar em notícia, em fato a ser saudado que uma mulher negra, jornalista competente, participe pela primeira vez em 50 anos da bancada do principal telejornal em um país que a maioria da população é preta e parda – 50,7% da população, de acordo com o censo do IBGE 2010 - 54% de acordo com a mais recente Pesquisa de Amostra por Domicílio (PNAD)?

A resposta é óbvia: claro que esse tipo de política em que somos reduzidos a símbolos de uma inclusão que nunca acontece, só pode servir a manutenção do sistema racista. Trata-se de uma cilada, simplesmente isso: uma cilada.

Não, por acaso, no mesmo dia em que estreava na bancada, coube a Maju dá a notícia que comprova onde ainda estamos: o assassinato por um segurança do Extra, do jovem negro carioca Pedro Oliveira Gonzaga, morto com um golpe conhecido por mata-leão, episódio que expõe o grau de vulnerabilidade a que estamos todos expostos (veja matéria http://www.afropress.com/post.asp?id=21151). O assassino foi preso e logo em seguida liberado com o pagamento de uma fiança de R$ 10 mil reais, porque o delegado considerou que agiu em legítima defesa.

O sistema racista brasileiro, elemento estruturante da desigualdade social capitalista, que faz do Brasil uma das sociedades mais desiguais e injustas do mundo se alimenta desse modelo de inclusão: aos negros o acesso está aberto desde que como símbolos, pela janela, pela porta dos fundos.

O incrível é que não percebamos a cilada e ainda haja quem comemore.

 

 

 

 


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