9 de Dezembro de 2019 |
Última atualização :
Comentamos
Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
17/06/2019
Olho vivo no capitão-do-mato.
Maria Adelina Guglioti Braglia

Exerceu no período de 2014 a 2018 o cargo de Coordenadora do Núcleo de Apoio aos Povos Indígenas, Comunidades Negras e Remanescentes de Quilombos do Estado do Pará.

O entendimento da  questão racial no Brasil, para uma descendente de italianos, não foi uma  das coisas que veio naturalmente. Afinal, crescemos numa sociedade que há séculos tratava o recismo como se uma questão “natural”, tal como o nascer do dia ou o cair da chuva.

Foi preciso ir pro chão, foi preciso ler, pesquisar, ouvir muito e, embora dando plena razão à minha querida Nilma Bentes – “você nunca saberá a dor da cor” – aprendi a me reconhecer suavemente racista, por ter demorado tanto a enxergar o submundo da discriminação e do “discreto” apartheid”  nacional e a ler as estatísticas com olhos inquiridores.

Foi já na idade madura que revi meus conceitos esquerdistas de que a solução de tudo viria pela luta de classes. Aprendi que por dentro dela havia nesse Brasil “cordial” um crime jamais reparado: o do racismo.

Aprendi também que ainda que tenhamos muito a construir e a combater, sou testemunha do quanto avançamos nos últimos 50 anos. E, perder isso de vista, é desmerecer a luta e o sacrifício de milhares de negros, dos mais ilustres aos anônimos e não podemos nos permitir isso. Portanto, é fundamental abrir os olhos para combater as armadilhas do capitão-do-mato que preside o país.

Num um país construído no genocídio e no escravagismo, uma sociedade cínica, hipócrita e insensível, que combate toda e qualquer possibilidade de lutar contra a desigualdade racial, distorceu nosso conhecimento e escreveu nossa história como bem quis. Pior, aniquilou na população negra a sua participação imprescindível para nos tornarmos um país e roubou-lhes o orgulho de serem quem são. No máximo, deixou brechas no “folclore”, para não aniquilá-los definitivamente da nossa história.

A eleição de Jair Bolsonaro fragiliza muitas conquistas e o campo dos direitos está formal e informalmente minado. Ele e seu governo ferem diariamente, pelo racismo expresso ou com disfarces -  ainda que ele use um deputado negro como figuração nas fotos oficiais -  em  medidas ditas administrativas, o caráter político de exclusão das minorias. Todas.

Duas conquistas da população negra são sagradas, como marco do avanço sobre o racismo e estão sendo ameaçadas: a  política de cotas, que é a justa reparação da sociedade brasileira a mais de 300 anos de escravidão, submetendo negros escravos e sua descendência a tratamento ignóbil, transformando-os – se não houver intervenção de políticas públicas – em cidadãos de 5ª classe, deformando sua autoestima, querendo validar a naturalidade de um crime.  A segunda é a ameaça da não titulação ou revisão da área dos territórios quilombolas – e das terras indígenas – uma afronta à Constituição.

Em janeiro deste ano, Bolsonaro anunciou a criação de um “grupo de trabalho” com a função de rever demarcações de terras indígenas e quilombolas. Ainda que o STF, em fevereiro , tenha derrubado a tese do marco temporal e referendado os ritos para a demarcação dos territórios quilombolas e, recentemente, saiu do Ministério da Goiaba e retornou ao Ministério da Justiça a gestão da FUNAI e do INCRA, basta sufocar orçamentos para que nada aconteça. E, onde nada acontece pela via institucional, acaba “acontecendo” pela lei dos mais fortes!

Axé, camaradas.


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
Artigos Relacionados
Bolsonaro e o negro "sim-senhor" da Casa Grande.
A “regra de uma gota” e o lado negro da cor..
O Brasil não é a Bolívia, mas está próximo e começa com B
As balas endereçadas da Polícia carioca
Twitter
Facebook
Todos os Direitos Reservados