13 de Dezembro de 2019 |
Última atualização :
Comentamos
Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
18/07/2019
Sobre cautela, sem canja de galinha.
Maria Adelina Guglioti Braglia

Exerceu no período de 2014 a 2018 o cargo de Coordenadora do Núcleo de Apoio aos Povos Indígenas, Comunidades Negras e Remanescentes de Quilombos do Estado do Pará.

Uma das principais propriedades escravistas no município de Santarém era o engenho Taperinha pertencente ao Barão de Santarém, que possuía o maior plantel de escravos da região, num total de 56 cativos. Na segunda metade do século XIX, provavelmente em 1868, o barão se associou ao norte-americano, Rhome, radicado naquela região, juntamente com outros que para ali migraram, a partir de 1867, logo após o término da guerra civil nos EUA, em 1865 (...) após um contrato firmado, em 7 de novembro de 1866, pelo major Lansford Warrem Hastings, cidadão dos Estados Unidos da América do Norte, com a presidência da Província do Pará, para o estabelecimento de uma colônia de compatriotas que quisessem imigrar.”

Bom Jardim, Murumurutuba, Murumuru, Tiningu, Ituqui, Saracura, Arapemã. Terras de Afro-amazonidas - “Nós já somos a reserva, somos os filhos deles”- Eurípedes A . Funes

O governo proto-fascista que se abateu sobre o Brasil em 2019 tem como meta extinguir direitos. Os direitos individuais vão continuar a ser detratados, por enquanto,  na unha e no chicote. Os direitos coletivos requerem mais sofisticação e legislação “adequada”. E maior rapidez.

Os sintomas protofascistas estão no ar, pela ignomínia das declarações de Zero-Zero, pelas infames posições dos  01 a 03. O conjunto do governo nada fica a dever. De Jesus na goiabeira ao devastador do meio ambiente, passando pelo mais atrasado dos setores das forças armadas, o caldo esquenta. E o comando é de Paulo Guedes, um escroque.

A par da  virulência do combate às terras indígenas e aos territórios coletivos quilombolas, para que essas terras possam ser incorporadas ao mercado, é notório o “compromisso” com a eliminação de instrumentos legais que possam garantir a universidade pública, seja através do sufocamento pelo corte de verbas ou pela transformação delas em “fábricas”  privadas. E, nessa bacia das almas, lá se vão as cotas raciais, essa coisa que incomodou tanto a imbecil classe média brasileira.

Nenhuma política de ação afirmativa causou tanto rebuliço na Casa Grande. Negrinhos com livros debaixo do braço entrando pelo portão central da Universidade para estudar, e não para ser garçom ou varrer e limpar banheiros, foi demais para o racismo endógeno do  povo brasileiro. Ainda que em 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) referendasse  a constitucionalidade do sistema de cotas e alguns ministros sugerissem que o modelo fosse usado nas instituições privadas, com o objetivo de superar desigualdades, lembre-se que lei  Brasil nem sempre “pega”. Mesmo quando referendada no STF.

Está em tramitação desde 19 de março passado, na Câmara de Deputados,  o PL 1531/2019, de aurotia da Deputada “Professora” Dayane Pimental, do PSL-BA. O Projeto  propõe a alteração dos  “ arts. 3º, 5º e 7º da Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012, para retirar o mecanismo de subcotas raciais para ingresso nas instituições federais de ensino superior e de ensino técnico de nível médio.”  Esses artigos são os que garantem a cota racial, dentro da cota socioeconômica.

A longa epígrafe acima foi para lembrar que cotas sempre foram interesse do capital. No Brasil, desde tempo imemoriais, passando pelos suíços de Dom João VI, que queria branquear a região fluminense, ou pela vinda de imigrantes portugueses, italianos e espanhóis entre o finalzinho do século XIX e  início do século XX. As cotas são “bacanas”. Elas só incomodam quando  ferem a supremacia da raça dos não-pretos.

Portanto, olho vivo e vigilância não fazem mal a ninguém: esse é um governo e um Congresso que, na calada da noite, é capaz de inomináveis manobras. Acutelemo-nos.

 

 

 

 

 

 

 

 


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
Artigos Relacionados
Bolsonaro e o negro "sim-senhor" da Casa Grande.
A “regra de uma gota” e o lado negro da cor..
O Brasil não é a Bolívia, mas está próximo e começa com B
Terra Brasilis: um caldeirão multicultural
Twitter
Facebook
Todos os Direitos Reservados