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Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
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05/09/2019
Prefeito de São Carlos "premia" acusada de racismo com cargo em Fundação
Da Redação

São Carlos/SP - O prefeito de São Carlos, Airton Garcia, do PSB, decidiu "premiar" com um cargo de diretoria na Fundação Pró-Memória do município, a servidora Carla Campos, exonerada por ele próprio da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, há cerca de um mês, acusada da prática de constrangimentos e assédio moral com viés racista, a duas servidoras negras.

Embora a recontratação da servidora exonerada, que ainda responde a sindicância e a inquérito policial aberto na Delegacia da Mulher, tenha sido determinada por Garcia, quem assumiu o ato foi a presidente da Fundação Pró-Memória de São Carlos, Maria Isabel Alves de Lima, que assina a portaria.

Campos assumiu a nova função na última terça-feira (02/09), sob protestos do movimento negro e antirracista, para quem com a nova nomeação representa "um escárnio, um deboche de um prefeito que demonstrou não ter respeito, nem sensibilidade".

Provavelmente, por se sentir protegida pelo prefeito, a acusada nega o fato, embora jamais se tenha se manifestado para esclarecer o caso. A Afropress tentou, mais de uma vez, ouví-la e aos seus advogados sem sucesso.

Assédio e racismo

Segundo funcionários da Prefeitura, a nova diretora do Patrimônio Cultural, Carla Campos, costumava determinar a funcionária terceirizada, Benedita Maria dos Santos, de 60 anos, que se recolhesse a um quartinho após a rotina de trabalho "porque lá era o lugar de gente preta". Eliane Cristina Florindo, funcionária de carreira da Prefeitura, disse que também era alvo com frequência de comentários racistas e depreciativos a sua cor.

A denúncia foi feita no dia 10 de julho e o caso está sendo apurado em inquérito policial e numa sindicância interna da Prefeitura.

No mês passado, ativistas do movimento negro e antirracista de São Carlos e cidades da região como Araraquara, promoveram tomaram as ruas numa manifestação de protesto exigindo a exoneração da acusada, o que aconteceria logo depois.

A decisão do prefeito, porém, duraria menos de um mês, pois agora Carla Campos exerce um cargo ainda de maior importância, já que no anterior era assistente do secretário e agora tornou-se diretora da Fundação que zela pela memória cultural do município.

Indignação

O Sindicato dos Servidores Autárquicos de São Carlos divulgou nota de repúdio a decisão do prefeito e manifestou estranheza pelo fato de que Garcia não esperou sequer a conclusão da comissão de sindicância aberta por iniciativa da administração. "A nomeação da mesma (Carla Campos) para uma fundação do município configura desrespeito ao Sindicato, aos servidores e a toda sociedade são-carlense. Esperamos o imediato cancelamento da infeliz portaria", conclui a nota.

O Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de S. Paulo, por iniciativa da presidente Alessandra Laurindo, também lançou nota, assinada por entidades do movimento negro, em que afirma que a nomeação "evidencia menosprezo às vítimas e a população negra".

A Nota é assumida por entidades como União de Negros pela Igualdade (Unegro), Congresso Nacional Afro Brasileiro (CNAB), Promotoras Legais Populares de Piracicaba, Rede Nacional de Mulheres Negras no Combate à Violência, Nova Frente Negra Brasileira, dentre outras.

Na Câmara, o vereador Ditinho Matheus lembrou que o caso teve repercussão até nacional e pediu ao prefeito para que aguarde a conclusão da sindicância "para que se tome uma atitude em relação a nomeação ou não da Campos, até por uma questão de respeito à sociedade".

Apesar da proximidade das eleições municipais do ano que vem, o prefeito Garcia, porém, parece não estar preocupado com o que pensa a sociedade.


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