23 de Outubro de 2019 |
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25/09/2019
Ainda há tempo para livrar o Brasil da ameaça do fascismo
Dojival Vieira

É Advogado, jornalista e editor responsável pela Afropress

O Brasil não estava preparado para um governo de extrema direita, com viés ideológico e traços fascistóides cada vez vez mais nítidos. Nem a direita, atropelada nas eleições com seus candidatos  com votações pífias abaixo dos dois dígitos; nem a esquerda, hegemonizada pelo lulismo desde uma cela em Curitiba, incapaz de identificar o perigo, enxergar o inimigo e desapegar-se do projeto de poder de um partido, em nome do país.

A mais recente peça de Bolsonaro na ONU - o discurso lido num telepromter, em que convidou o mundo a um passeio pela barbárie - expõe, com toda a clareza, que estamos diante de um inimigo que ousa dizer seu nome e sobrenome e não se peja, nem se envergonha.

A defesa do desmatamento com a negativa cínica das queimadas que devastam a Amazônia, abrindo caminho à destruição da terra e das nações indígenas, em nome dos interesses de madeireiros e mineradores; o ataque a países que não rezam pela sua cartilha extremista – inclusive a França, que tem um governo sabidamente de centro-direita; o desrespeito aos direitos humanos fundamentais e a celebração da ditadura militar, não deixam dúvidas: todos os que amamos a liberdade e a democracia corremos riscos enormes - e devemos deixar de lado, imediatamente, o estado de perplexidade, que tem caracterizado a atitude de muitos até aqui.

“Não precisamos de oração, precisamos de ação”, sintetizou Paloma Costa, 27 anos, aluna da Universidade de Brasília (UnB), a jovem brasileira que falou na Cúpula do Clima da Organização das Nações Unidas, em Nova York, convidada pelo secretário-geral da ONU, Antonio Guterrez.

Sim, este não é o governo do Brasil, este é um governo de uma facção miliciano-familiar, que tem como guru ideológico um reconhecido charlatão vivendo na Virgínia, nos EUA, em militares saudosistas da ditadura e do fundamentalismo neopentecostal dirigido por espertalhões que o próprio Cristo já teria se encarregado de expulsar do templo a chicotes – os donos das pequenas igrejas, grandes negócios.

O capital financeiro, rentista, o baronato dos bancos que, no Brasil, mais do que em qualquer outro lugar no mundo, monopoliza a ciranda financeira – sem ter tido, em momento algum, senão lucros exorbitantes, independente do mês do ano e da crise que pesa sobre os ombros da maioria do povo brasileiro -, convocou o fascismo para o trabalho sujo: retirar os direitos básicos conquistados por gerações, acabar com os direitos trabalhistas e a aposentadoria pública, e desmontar o Estado de bem estar social que, em nosso caso, apenas se esboçava a partir da Constituição de 1.988.

Confira: https://economia.uol.com.br/cotacoes/noticias/redacao/2019/08/08/lucro-bancos-acoes-bolsa-2-trimestre.htm

É preciso, sim, - e com urgência - deixar o estado de perplexidade em que alguns ainda se encontram sob o impacto dos horrores que assistimos – dia, sim, outro também.

Por outro lado, não se pode continuar no equívoco de julgar este governo como mais um no processo de alternância democrática de poder, como alguns ainda insistem, ignorando os dados da realidade objetiva. Este governo não é democrático e o seu titular conspira - dia sim, outro também -, contra as frágeis instituições construídas ao longo dos últimos 30 anos.

Paremos com ilusões baratas - quem ainda as tem.

É fato que Bolsonaro se elegeu com 57 milhões de votos, numa eleição sabidamente fraudada não apenas pela manipulação das fakenews impulsionadas desde o comando de Steve Bannon – o guru máximo da extrema direita mundial - mas também porque, agora se sabe, beneficiou-se da retirada do candidato favorito na disputa – o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – preso em Curitiba, por conta de uma farsa judicial -  a maior da história da República: os processos dirigidos pelo ex-juiz Moro e o Partido da Lava-jato.

Contudo, Bolsonaro e os seus ideólogos se julgam no comando de uma “revolução” em que as instituições se tornaram empecilhos para a instauração da ditadura e da tirania. As declarações de um dos filhos (zero qualquer coisa), posteriormente corroboradas pelo próprio de que “por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos…”, são mais do que eloquentes quanto aos propósitos do bando que hoje ocupa o centro do Poder no Brasil.

Veja: https://www.infomoney.com.br/politica/carlos-bolsonaro-diz-que-pais-nao-tera-transformacao-rapida-por-vias-democraticas-e-sofre-criticas/

Não se trata de um governo normal, mas de ocupação. Não se trata de revolução, mas de uma regressão ao século XIX e, em alguns casos, ao pré-iluminismo e aos valores que a civilização ocidental tem cultivado por séculos. Sua meta: acabar com os mais elementares direitos da maioria do povo brasileiro, armar os perversos em milícias e entregar o que restou do nosso país – suas riquezas, inclusive, do subsolo – aos interesses de grupos norte-americanos. A Base de Alcântara e as riquezas do subsolo da Amazônia são um exemplo do que pretende o sabujismo e a vassalagem bolsonarista a Trump.

Esse bando não deixará o poder pela via democrática do voto, ilusão que alguns ainda mantém. Na hipótese da derrota eleitoral em 2.022, o que é mais do que provável, uma vez que o povo brasileiro é amplamente majoritário e não incidirá duas vezes no mesmo erro, Bolsonaro e o seu exército de milicianos tentará o golpe clássico, aberto, com os generais que o rodeiam, cada vez em maior número.

Nunca, nem na Ditadura se registrou a presença de tantos generais e militares em um Governo, nem no Governo própriamente militar. Pode-se dizer, sem nenhum exagero, que a Esplanada está militarizada, como nunca esteve, e que os militares (os mesmos que jamais prestaram contas dos crimes praticados durante a ditadura) abandonaram qualquer projeto de defesa do país e do nacionalismo e se articulam de forma corporativa, numa espécie de sindicato para defesa de privilégios - por exemplo: o de se manterem intocáveis na reforma da previdência que prejudica os mais pobres.

Veja: https://www.brasildefato.com.br/2019/03/06/governo-bolsonaro-tem-cerca-de-130-militares-em-cargos-de-confianca/

Só para se ter uma idéia dos R$ 50 bilhões do déficit da previdência, os militares respondem por R$ 47 bilhões e só contribuem com R$ 3 bilhões. Não apenas não arcarão com os custos desse déficit como ainda tiveram vantagens.

Por isso mesmo, sem prejuízo da necessária organização e mobilização para derrotar Bolsonaro e o seu bando de milicianos nas eleições do ano que vem, é urgente que todos os que se colocam na oposição a este governo vende-pátria, sabujo de Trump e dos interesses dos norte-americanos, se organizem em comitês, de rua, de bairro, por local de trabalho e ou estudo, para a defesa do Brasil e da ameaça do terror e da violência que este Governo vem se encarregando de espalhar.

A primeira e principal tarefa desses comitês – independente dos partidos a que pertençam seus membros -, será retomar o contato direto com o povo, informando-o do que se passa no Brasil, acompanhar os fatos e os acontecimentos e organizar as mobilizações de rua que é o que garantirão, de fato, a resistência e a nossa defesa, inclusive, para garantia das liberdades que ainda nos restam.

Subordinar a resistência apenas ao calendário eleitoral será mais um monstruoso equívoco: estaremos caindo na cilada desse inimigo - Bolsonaro e o bolsonarismo - a quem não se deve subestimar, muito menos ter qualquer contemporização ou diálogo.

Às forças do campo democrático popular e de esquerda, cumpre o papel de organizar o povo pela base, transformar esses comitês em organismos vivos e de mobilização popular com pautas que levem em conta as demandas e carências da população, a questão da segurança pública, as manifestações da cultura popular, em cada cidade, com a missão de derrotar e banir da vida democrática do Brasil o terror miliciano de Bolsonaro e seu bando.

Ainda há tempo. Depois será tarde. Muito tarde.

 

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"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
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