23 de Outubro de 2019 |
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Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
04/10/2019
As balas endereçadas da Polícia carioca
Edson Cadette

É colaborador de Afropress e escreve desde Nova York, cidade onde vive

Nova York/EUA - A vereadora carioca Marielle Franco (1979-2018) um pouco antes de morrer tinha denunciado as forças policiais do Rio de Janeiro por sua truculência e pela maneira como tratam os moradores das comunidades, na sua imensa maioria, pobres e negros.

Em especial a vereadora criticava o 41º Batalhão da Policia Militar, que tem sede na comunidade do Acari. Marielle Franco não acreditava que a intervenção Militar no Rio de Janeiro (entenda-se nas favelas cariocas) era a melhor solução para acabar com a violência endêmica. A vereadora foi morta exatamente porque denunciava a total falta de direitos civis e humanos, principalmente, aqueles relacionados aos cidadãos das comunidades. A ausência poder público e, sem duvida, a chave para se entender o que vem acontecendo há décadas nestas áreas mais vulneráveis.

Desgraçadamente, milhões dse pessoas no Brasil ainda acreditam que defender direitos humanos é defender bandidos, ou quem defende os direitos mais vulneráveis é integrante de um suposto "complô socialista" para transformar o Brasil uma Cuba ou uma Venezuela, como acredita e prega o Governo de Jair Bolsonaro.

O recente discurso do presidente na tribuna das Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, comprovou que o atual mandatário vê o fantasma do comunismo - o bicho papão sempre útil para calar o debate sobre justiça social nos tempos da guerra fria - até mesmo debaixo da sua cama.

No dia 20 de Setembro esta violência policial que grassa e da qual são vítimas as pessoas negras e pobres, fez mais uma vítima. A menina Ághata Vitoria Sales Felix, de apenas 8 anos, foi morta com um tiro nas costas, disparado tudo indica por policiais militares, quando estava numa Kombi no Complexo do Alemão ao lado do avô. A falta de sensibilidade do poder público nas áreas mais vulneráveis ficou, mais uma vez, comprovada porque além da responsabilidade pelo disparo, ninguém do Governo do Estado compareceu sequer para falar e ou tentar dar explicações a família da criança assassinada.

Há pelo menos 60 anos as favelas cariocas vem sendo alvo de todo tipo de violência e extorsão, seja praticada por agentes do Estado, milicianos ou traficantes que ocupam esses territórios, beneficiando-se da ausência de Estado. As vítimas são sempre as mesmas - negros e pobres. Por isso, não se pode mais falar em bala perdida. As balas disparadas pela Polícia do Rio tem endereço certo.

Para os setores mais conservadores e reacionários que hoje ocupam o centro do poder no Brasil, a morte de uma menina - a quinta vítima este ano - foi apenas um "evento triste", nas palavras do ministro da Justiça, Sérgio Moro. Para estes mesmo setores, que jamais tem de lidar com a presença de militares nas portas de suas casas ou com o barulho ensurdecedor de helicópteros sobre suas cabeças, a pressao deve seguir ate “limpar” totalmente as comunidades dos elementos criminosos, mesmo que, para isso pessoas, inocentes e crianças morram  nesta luta.

O Estado tem responsabilidades com o bem-estar dos cidadãos, e nelas estão incluidas a garantia à vida, direitos humanos e civis. Os defensores da atual política, a começar pelo governador Witzel, que se transformou no mentor e defensor da criminosa "política do abate", que advoga atirar primeiro e perguntar depois, considera que o rol de direitos previstos na Constituição brasileira, só deve servir aos seus próprios e mesquinhos interesses.

 


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
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