23 de Outubro de 2019 |
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04/10/2019
Terra Brasilis: um caldeirão multicultural
Carlos Roberto da Costa Leite

É pesquisador e coordenador do setor de imprensa do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa
 

As águas do Oceano Atlântico foram denominadas, pelos africanos, de “Calunga Grande”, cuja expressão, em dialeto ioruba, significa cemitério, pois os escravizados que morriam de inanição, durante o transporte nos navios negreiros, eram jogados ao mar. Este reino é de Yemanjá (yèyé omo ejá) , que é traduzido como “ Mãe cujos filhos são peixes”, ocupando na hierarquia a função de matriarca na teogonia africana.      

Orixás, voduns ou inkices vieram dentro do coração do escravizado e, de forma sincrética, foram associados a santos da Igreja Católica. Este foi o recurso, do qual o escravizado se utilizou, para burlar o poder dominante, eurocêntrico e cristão, mantendo viva, desta forma, a fé e as tradições de seus ancestrais.

Um exemplo marcante do sincretismo religioso, no Brasil, é a associação de Nossa Senhora dos Navegantes com Yemanjá. No dia 02 de fevereiro, ela é reverenciada, por meio de procissões fluviais, marítimas e de ritos religiosos, que são realizados nas areias das praias brasileiras, reunindo católicos e adeptos dos cultos de matriz africana numa verdadeira simbiose espiritual.

No Brasil, embora predominasse, entre os escravizados, a prática ritualística de cultuar os orixás, é importante que se registre a presença dos negros malês. Convertidos ao Islamismo, a maioria deles exerciam atividades como negros de ganho (alfaiates, pequenos comerciantes, artesãos e carpinteiros. Em 1835, seus líderes organizaram uma insurreição, em Salvador (BA), para tomar o poder e submeter a população branca. Conhecida como a Revolta dos Malês, na noite de 24 para 25 de janeiro daquele ano, ao ser descoberta foi sufocada  e os líderes presos e executados.

O tráfico negreiro

No transcorrer do século XV, a expansão de Portugal, ao longo da costa africana, favoreceu, com o aval de bulas papais, o tráfico negreiro. Totalizando 1.552.000 escravizados, a América espanhola perde em índice numérico para o Brasil que, segundo estudos recentes na Universidade de Emory, em Atlanta, atingiu o total de 4,8 milhões de escravizados.

A presença massiva do africano

 A caminho do Rio de Janeiro, que era a porta principal de entrada de navios negreiros, em torno de 300 mil morreram. Tratados como animais, os escravos eram transportados nos tumbeiros (navios negreiros), nos quais se misturavam negros de diferentes locais da África, falando dialetos diversos. Esta era a forma de dificultar a comunicação entre os mesmos, enfraquecer a identidade cultural, enquanto grupo étnico, visando a anular qualquer articulação de insurreição, durante o transporte, ou uma fuga em massa.

Quando a Corte Portuguesa  se transferiu, em 1808, para o Brasil, fugindo da invasão francesa, sob o comando do general francês Junot, a proporção, no Rio de Janeiro, era de 10 africanos para um branco. 

Mais tarde, com a implantação de políticas imigratórias, que visavam ao branqueamento, ocorreu um aumento do percentual da população branca, conforme o pesquisador do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) José Luis Petruccelli. Durante os 350 anos de tráfico negreiro, entraram no Brasil cerca de 4 milhões de africanos. Já no período de 1870 e 1930, aqui, vieram morar em torno de 4 milhões de imigrantes europeus.

Sob uma ótica atenta aos fluxos migratórios, que se realizaram de forma forçada (tráfico negreiro) ou voluntária na condição de imigrantes, busca-se compreender a relação entre o indivíduo e a sociedade estabelecida, tendo como ponto de partida a travessia desse Atlântico, os processos de aculturação e as formas de organização sociopolítica, econômica e cultural.

Esta nova configuração se dá a partir deste processo de aculturação , que resultou numa complexa e fascinante amálgama cultural, embora os conflitos, genocídios e sofrimentos, que foram gerados por  processos eurocêntricos de dominação econômica, política e cultural.É incontestável a riqueza desta diversidade cultural, formada a partir de religiões, idiomas, tecnologias e artes, que cruzou o Oceano Atlântico, chegando às Américas.

A miscigenação

Embora o Brasil seja, em sua origem, uma nação indígena, o brasileiro é fruto de uma miscigenação que, no decorrer dos séculos, adicionou ao sangue do indígena a carga genética do negro; do branco (portugueses, franceses e holandeses e, a partir do século XIX, dos imigrantes alemães, italianos, eslavos, judeus, entre outros), além do amarelo (imigrantes chineses, no período de 1810 a 1820, e japoneses que aqui  aportaram no ano 1908).

Nossa diversidade Cultural

O resultado de tantas combinações é um povo cuja diversidade étnico-cultural é de uma riqueza genuína. Composta por tradições remanescentes dos quilombos, em diversos estados do Brasil, a estas se somaram as festas tradicionais do mês de junho (Santo Antônio e São João), a Folia de Reis e a Festa do Divino, que se constituem em heranças portuguesas do período colonial. A este quadro, nós podemos acrescentar também as datas comemorativas de santos padroeiros italianos, as celebrações do calendário judaico e as festividades alemãs - a exemplo da Oktoberfest.  Estas tradições compõem um mosaico de diversas nacionalidades, etnias e religiões, que fazem parte do processo da construção identitária do povo brasileiro.

Em 1500, de acordo com a Carta de Pero Vaz de Caminha, ao cruzarem o Atlântico, os portugueses chegaram à Ilha de Vera Cruz, dando início a uma história na América Portuguesa que se deu na forma de uma colonização exploratória. Embora o Brasil tenha realizado a sua independência em 1822, a conquista da cidadania plena do povo brasileiro se constitui numa promessa. Os processos golpistas, oligárquicos e elitistas, vivenciados, ao longo da história brasileira, vão de encontro à construção de uma sociedade mais igualitária. Como dizia o historiador gaúcho Décio Freitas (1922-2004): o Brasil é um país “Inconcluso”.

Ao analisar a última estrofe, extraída do nosso Hino Nacional, cuja letra é de Osório Duque Estrada (1870-1927), o leitor - atento às mazelas sociais do nosso Brasil - constata que os versos não correspondem à realidade da maioria dos brasileiros.  

“Terra adorada

Entre outras mil,

És tu, Brasil, Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,

Pátria amada, Brasil! “                                                

Bibliografia

BERND, Zilá. Literatura e identidade nacional. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2011. 

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. O longo Caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. 

CÔRTES, Paixão J.C. Folclore Gaúcho / Festas, bailes,música,e religiosidade rural. Porto Alegre: Corag, 2006.

JUNG, Roberto Rossi. O Príncipe Negro. Porto Alegre: Edigal / Renascença, 2007.

LOPES, Luiz Roberto. A Aventura dos Descobrimentos. Porto Alegre: Editora Novo Século, 1999. 

 

 

 

 

 

 

   
 

 


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