15 de Agosto de 2020 |
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Paulino de Azurenha : da infância pobre a cronista famoso
Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite

Pesquisador e coordenador do setor de imprensa do MuseCom.

Nascido, em 25 de maio de 1861, em Porto Alegre, (RS), José Paulino de Azurenha faz parte da galeria dos grandes nomes da história do jornalismo gaúcho. Em sua trajetória, destacou-se como jornalista, cronista, poeta e romancista. O escritor e pesquisador Ari Martins, em sua conhecida obra Escritores do Rio Grande do Sul (1978), registra apenas o nome da mãe do nosso cronista: Paula Maria da Conceição.

De origem bastante humilde e negro, Paulino Azurenha, após ter sido alfabetizado, aprendeu o ofício de tipógrafo, visando a garantir o seu sustento. No desempenho de suas atividades, a inteligência, o talento e a dedicação lhe possibilitaram adentrar nos caminhos da literatura e do jornalismo.

Já em meados de 1892, substituía os caixotins - cada um dos compartimentos da caixa tipográfica - pela mesa de escritor. Ao ingressar no Jornal do Commercio (1864-1911), ele conheceu dois ícones da nossa imprensa: o escritor Aquiles Porto Alegre (1848-1926) e o empresário e poeta Caldas Júnior (1868-1913). Neste jornal, ele começou a publicar artigos num período anterior ao ano de 1895.

Em 1º de outubro de 1895, Caldas Júnior fundou o seu próprio jornal, dando-lhe o nome de Correio do Povo, cujo objetivo – como registrou no editoral do primeiro número, era fazer um jornalismo informativo ao invés do político-partidário, que então dominava o cenário da nossa imprensa. O Correio do Povo é considerado o mais antigo jornal, ainda, em circulação, na capital dos gaúchos. Neste tradicional periódico, Paulino de Azurenha passou a fazer parte da redação, permanecendo ali até a sua morte. Equilibrado e dono de uma reputação ilibada, era um conselheiro a quem todos recorriam nos momentos difíceis.  

Católico fervoroso e o monarquista assumido, nosso jornalista era muito modesto quanto aos acenos da glória e vivia imerso em suas atividades cotidianas. 

Assinando com o pseudônimo de Léo Pardo, ele escreveu, a partir de 1900, no Correio do Povo, crônicas publicadas, aos domingos, na sessão, cujo nome era Semanário. Estas foram reunidas, mais tarde, em 1926, no livro Semanário de Léo Pardo, que foi publicado pela Editora Globo de Porto Alegre. Estas crônicas, segundo o jornalista e escritor Itálico Marcon, foram escritas no período de 8 de julho de 1905 até 19 de junho de 1909. Nosso cronista usava também o pseudônimo de P. de Ascyro, conforme se constata, em poesias assinadas por ele, na Revista Literária (1881).

Paulino de Azurenha, em sua trajetória, pelo universo das letras, legou-nos dezenas de poemas parnasianos com laivos de lirismo romântico. Em 1881, com Aurélio de Bittencourt (1849-1919) - outro nome importante do cenário cultural, da época, ele ajudou a fundar a Revista Literária. Esta publicação, além da coleção do jornal Correio do Povo, fazem parte do acervo do MuseCom.

Como cronista, ele merece, especialmente, um destaque, tendo sido considerado por João Pinto da Silva (1889-1950) "o nosso melhor cronista literário" do período que se iniciou em 1900. Esta opinião era também compartilhada pelo importante poeta Zeferino Brazil (1870 -1942).

Se o Rio de Janeiro, no gênero da crônica, orgulha-se dos ícones João do Rio (1881-1921) e Lima Barreto (1881-1922) - ambos afrodescendentes e autores contemporâneos ao nosso cronista; a figura de Paulino Azurenha , no Rio Grande do Sul,  constitui-se num grande expoente.

Autodidata, ele dominava com propriedade singular o vernáculo e escrevia com fluidez e elegância, deixando muitos acadêmicos surpresos com a qualidade da sua escrita.

No ano de 1897, em parceria com José Carlos de Souza Lobo (1875-1935) e Mário Totta (1874-1947), foi lançado, pela Livraria Americana, o romance "Es-tricnina", que traz por subtítulo "página romântica".

A obra se trata de uma pequena novela, sendo um misto de crônica e de noticiário policial à moda antiga, Conforme destacou o escritor e historiador Guilhermino César (1908-1993): "trechos que fotografam o meio porto-alegrense, os hábitos da vida noturna, os mexericos de rua, os bairros à margem do Guaíba".

No dia 02 de julho de 1909, em pleno vigor de sua atividade profissional, Paulino Azurenha, encontrava-se na companhia dos colegas jornalistas Fábio de Barros (1881-1952) e Alcides Gonzaga (1889-1970), quando sofreu  uma apoplexia ( hemorragia cerebral). Levado, já quase sem vida, para a sua residência, ele veio a falecer, no dia seguinte, cercado de amigos e familiares.

De acordo com o Almanaque do Correio do Povo, de 1960, pág. 48, nosso cronista faleceu aos 49 anos. Viúvo, há nove anos, sua vida era voltada às suas cinco filhas, ainda, menores.  Com a notícia do seu óbito, houve, em nossa Capital, uma grande consternação por parte de seu público leitor e dos amigos.

Assim escreveu Caldas Júnior sobre a figura de Paulino de Azurenha: “Foi sempre um relevante elemento de valia na fundação e no desenvolvimento do Correio do Povo. Tinha êle para esta fôlha um amor verdadeiramente paternal, motivo por que, pela sua competência, todos nesta casa o contavam como um sincero consultor e conselheiro”.

Em Porto Alegre, no bairro Partenon, a Rua Paulino de Azurenha é uma homenagem ao nosso ilustre cronista, poeta e romancista, que também é patrono da cadeira 31, da Academia Rio - Grandense de Letras (1901), cujo titular , atualmente, é  Ruben Daniel Méndez Castiglioni.

Em sua época, nosso cronista foi um exemplo de luta e superação do preconceito. Pobreza e invisibilidade social foram resultados de 400 anos de escravidão e de uma abolição inconclusa, conforme registrou, em seu livro Brasil Inconcluso (1986), o historiador Décio Freitas (1922-2004). Ao negro foi concedida a liberdade, mas não a cidadania plena. 

O 13 de maio ofereceu a “porta da rua” e não a inserção social. Ainda assim, vivemos, no Brasil, o mito da chamada Democracia Racial, embora existam pesquisas sérias, com dados estatísticos, a exemplo do IBGE, comprovando que estamos diante de uma falácia histórica. Esta reparação, de quatro séculos de escravidão, dá-se por meio de políticas afirmativas, priorizando a educação como uma das principais ferramentas para desenvolver a consciência cidadã. O jornalista Paulino Azurenha, entre tantos outros exemplos de superação, possa  nos inspirar na construção uma sociedade mais igualitária e menos excludente.                                


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