30 de Março de 2020 |
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Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
16/01/2020
Paraisópolis e o perigo de viver à “margem” da sociedade
Edson Cadete

É colaborador de Afropress e escreve desde Nova York, cidade onde vive

Queens, Nova York – “Divirta-se, juízo e cuidado. Tá levando lenço e documento?” Estas eram a palavras de advertência e cuidado que a dona Cleusa dizia sempre quando seu filho mais velho saía de casa a noite para atravessar a cidade. Saindo da Zona Leste para a Zona Oeste, mais precisamente para o ginásio de esportes da Sociedade Esportiva Palmeiras.

Este ritual acontecia uma vez ao mês quando a equipe de baile black CHIC SHOW reunia para suas festas mensais um grupo de aproximadamente 5 mil jovens negros periféricos.

Na cabeça da minha mãe, bem como na cabeça de outras mães que moravam nas periferias da cidade e da Grande São Paulo nos anos 80, a grande preocupação era mais com a polícia do que, própriamente, com algum tipo de briga, assalto ou até mesmo um tiro.

Os jovens negros das periferias estavam acostumados com a fama e truculência policiais. A famosa ROTA (Rondas Ostensiva Tobias Aguiar) era notória por atirar primeiro e perguntar depois. Criada em 1970 no auge do autoritarismo brasileiro, este orgão de repressao estadual certamente não levava em conta direitos humanos, direitos civis ou no Estado de Direito. Quase 40 anos depois, as mortes dos jovens na comunidade de Paraisópolis mostraram que estes direitos ainda são desrespeitados por agentes do Estado.

Nós, jovens negros nos anos 80, sabíamos bem que, quando abordados por policiais, qualquer movimento brusco poderia ser fatal. As palavras de ordem: “Encoste na parede, mãos na cabeça e documentos (Carteira de Trabalho)”, faziam parte do vernáculo dos jovens negros periféricos.

O que aconteceu recentemente numa das maiores favelas na cidade de São Paulo causando a morte de 9 jovens era somente uma questão de tempo. As explicações estapafúrdias do governador sinhôzinho do Estado, o senhor João Dória, ao ser perguntado sobre o ocorrido, do alto de sua peculiar arrogância disse que “os protocolos da Polícia Militar não seriam mudados.” Ou seja, ele dava um sinal claro aos seus subordinados para não se preocuparem com os reclamos da sociedade civil das periferias. Ele disse isso mesmo antes de saber o que realmente tinha ocorrido.

Com bolsões de pobreza espalhados por toda cidade, e em muitos casos vivendo lado a lado com a opulenta riqueza financeira, milhões de jovens na cidade de São Paulo não tem um acesso adequado a válvulas culturais para darem vazões aos seus hormônios nesta faixa etária. Quando, porventura, tentam entrar num dos refinados shopping centers, estes mesmos jovens são barrados meramente por causa de uma suposta imagem que não condiz com as imagens da clientela frequentadora dos tais estabelecimentos.

É de conhecimento geral que as favelas não passam de um enorme barril de pólvora a ponto de explodir ao menor contacto com seu pavio social. Os notórios bailes FUNK são estas faíscas à espera de serem acesas.

Nestes últimos 30 anos São Paulo cresceu desordenadamente. Se milhões de cidadãos aproveitaram o “boom” econômico depois da estabilização da moeda, em 1994, é verdade também que, tanto os prefeitos quanto governadores, não souberam tranformar a bonança econômica numa melhora da qualidade de serviços prestados pelo Estado, especialmente, nas centenas de favelas espalhadas por São Paulo.

Nunca houve realmente um plano a longo prazo para tirar esta enorme população da sub-moradia para um suposto conforto de uma classe média. A dobradinha política PSDB e PT, em São Paulo, não mudou a dinâmica da pobreza na cidade.

Depois de muita pressão por parte dos parentes das vítimas e de muitos ativistas, o governador “mudou” sua postura. Disse que iria rever a maneira como a polícia interage com os jovens periféricos. Certamente as palavras “duras” do ministro da justiça, o senhor Sergio Moro, dizendo que houve “grave erros por parte dos policiais” pesaram na nova decisão do governador.

Com tudo isso uma coisa é certa: estes jovens, provavelmente, receberam os mesmos avisos de suas mães que me foram dados há quase 40 anos. Infelizmente, eles não voltaram vivos para suas respectivas famílias. Nove mães choraram pelas mortes de seus filhos.

 


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
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