4 de Junho de 2020 |
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22/03/2020
Ninguém é ariano: é preciso abandonar a mesa
Dojival Vieira

É Advogado, jornalista e editor responsável pela Afropress

O bolsonarismo não é só uma corrente política de extrema direita, com óbvios traços nazistóides emprestados pelo seu líder; é um traço de caráter. Reúne gente de variados matizes e estratos sociais, no geral, a classe média branca recalcada, impotente, ignorante, com um traço em comum: carente de um "fuhrer", de um "duce" para dar sentido às suas vidas miseráveis.

Esta espécie de coalizão dos perversos não tem qualquer apreço aos valores e avanços civilizatórios que fizeram com que a humanidade chegasse até aqui – ainda que aos trancos e barrancos, duas guerras mundiais que mataram milhões de pessoas e a experiência de máxima perversidade e crueldade humanas, experimentada com o holocausto nazista.

A interdição à promoção de espetáculos em que pessoas – geralmente inocentes, como Giordano Bruno - ardiam em fogueiras, por exemplo, é um avanço civilizatório. O impedimento a que hordas promovessem a vingança privada, com a atribuição ao Estado moderno do monopólio da violência e da tutela dos direitos e das penas, é outro.

O bolsonarismo e os bolsonaristas, porém, ignoram e não reconhecem tais avanços. Estão em alguma fase entre a barbárie e o pré-iluminismo. Advogam a vingança privada e o linchamento, daí o seu apego obsessivo ao uso das armas. Nada mais emblemático do que o uso de um símbolo fálico para camuflar sua impotência moral e ética.

A disputa política e eleitoral, a raiva e o ódio ao PT e ao lulismo são meros pretextos. Tanto é assim que depois de vencerem as eleições, utilizando toda sorte de patranhas e crimes como o uso indiscriminado de fakenews e violências, seguiram na sua tarefa insana de destruir o que se construiu nos 30 anos pós-Constituição de 1.988 – a Constituição Cidadã – que encerrou o ciclo de 21 anos de ditadura.

Seu líder é um looser como o cabo alemão, com tendências psicopatas e traços paranóicos evidentes. Diante da marcha insana empreendida, seus apoiadores jamais vacilaram em estimular seu projeto nazi/fascista.

Quando recomendou que a população passasse a defecar dia sim, outro não, como forma de combate à poluição, foi saudado com aplausos pela horda de fanáticos.

Quando passou a estimular as queimadas na Amazônia para defender os interesses dos grileiros e mineradoras, ameaçando o já frágil equilíbrio do planeta, igualmente recebeu palavras de incentivo e as milícias digitais lhe disseram amém.

Quando passa a atacar jornalistas - como no caso da jornalista Patrícia Campos Melo, da Folha, a quem dirigiu palavras próprias do esgoto em que chafurda – e distribui bananas a repórteres que comparecem para cobrir suas entradas no Palácio, seus apoiadores o aplaudem: “mito, mito, mito”.

Quando, mesmo agora, quando o mundo e o Brasil estão de joelhos diante uma ameaça a nossa saúde, segurança e vidas, comete o crime de chamar uma pandemia que já matou milhares de pessoas, algumas delas no Brasil, de uma “gripezinha”, e chama de histeria o justificado pânico de uma população esgotada, ainda assim, os bolsonaristas vão ao delírio.

Na sua insanidade sem limites, brasileiros, nossos compatriotas e vizinhos, que jamais suspeitamos que cultivassem instintos perversos, cristãos, como se dizem, gente do bem, evangélicos habituais frequentadores da escola dominical, se revelam tipos perigosos, gente sem nenhum caráter, fanáticos de um culto, quase religioso que é a defesa de um tipo tão desprezível, quanto incapaz de qualquer humanidade ou empatia.

Ligado historicamente às milícias que o  Estado brasileiro passou a terceirizar para a prática de crimes – uma espécie de ordem extra-legal – seu projeto é destruir as vozes dissonantes para poder instalar a sua ditadura - mais violenta e sanguinária do que a militar, que ele nega e de cujo ventre é filho bastardo.   

Os bolsonaristas continuarão dizendo amém ao seu fuhrer de opereta até que paremos de achar que se trata apenas de diferenças de opinião próprias de uma democracia, mesmo uma precária como a nossa, que nunca guardou relação com a palavra grega. Aqui, Democracia não é e nunca foi Governo do povo para o povo e pelo povo, como se aprende nos bancos escolares; seria mais próprio chamá-la de Capitalcracia – o governo do capital.

É preciso afastar Bolsonaro da cadeira de Presidente da República em que ele permanece sentado, para vergonha do Brasil e dos brasileiros. O mundo tem testemunhado diariamente como o Brasil se tornou um país pária internacional nestes pouco mais de um ano e três meses, em que vivemos o pesadelo.

Mas, não tenham dúvidas, ninguém se iluda: para isso, é preciso começar por identificar, denunciar e destruir o bolsonarismo e o seu projeto nazista totalitário nas suas bases. Seus seguidores estão aí nas redes sociais, ativos nas milícias digitais. O inimigo que elegeram por aqui, não são os judeus, mas a “esquerda, os comunistas”.

Desconectados da história e do sentido político das palavras, esse “macarthismo” sem contexto, passou a fazer parte do discurso dos boçais seguidores do líder, que assumiu o seu negacionismo revisionista em pleno Museu do Holocausto, em Jerusalém, ao dizer que o nazismo era de esquerda.

Sim, bolsonaristas são nazistas; de novo tipo, sim, mas nazistas é o que são.

E como diz um velho ditado alemão “Se há dez pessoas numa mesa, senta um nazista e ninguém se levanta, é porque tem onze nazistas na mesa”.

O Brasil só começara a derrotar o bolsonarismo, quando todos e cada um de nós, os democratas, de esquerda e ou de direita, passar a levar à sério a advertência. Estamos em guerra não apenas contra o coronavírus. Nossa guerra é também contra outro vírus, tão ou mais letal quanto: o vírus do totalitarismo nazista/bolsonarista.

Não há nenhuma possibilidade de convivência, muito menos de amizade, não importa quem seja ou de quem se trate. É preciso denunciá-los e apontá-los, sem nenhuma condescendência nas ruas, nas praças, nos locais públicos, nas redes sociais para que não se corra o risco de se ver repetir nos trópicos a experiência original. Aqui, todos os que não dizemos, amém ao “mito”, somos judeus, negros, ciganos, homossexuais - não somos arianos.

É preciso abandonar a mesa.

 

 

 


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