19 de Janeiro de 2021 |
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A ação brutal de dois assassinos covardes contra um homem negro
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01/12/2020
Racismo à brasileira
Edson Cadete

É colaborador de Afropress e escreve desde Nova York, cidade onde vive

Queens, Nova York - Após o linchamento de um homem negro dentro do supermercado Carrefour na presença de várias testemunhas, a turma voraz e cada vez mais isolada do “não existe racismo” no Brasil reapareceu para defender a idéia de que o assassinato está ligado ao despreparo dos seguranças do supermercado e não tem nada a ver com o racismo no país.

É até justificavel que uma massa ignara que conhece muito pouco, se é que conhece a história negra brasileira, saia negando a existência de racismo no Brasil, porque o brasilieiro, em geral, é mestiço e não carrega no seu âmago nada contra as pessoas de “cor”.

Agora, quando um representante máximo do Governo diz que não há racismo no Brasil, só podemos concluir que se trata de uma pessoa absolutamente ignorante. O vice presidente Hamilton Mourão disse ao jornal "O Estado de São Paulo", que no Brasil não há racismo. Que o que aflige a populacão negra, segundo suas ignorantes análises são outros problemas, menos o racismo.

“Digo com toda tranquilidade para você: não existe racismo no Brasil”, disse o general”. O vice presidente continua: “Digo isto porque morei nos Estados Unidos. Racismo tem lá. Aqui existe desigualdade. Fruto de uma série de problemas”, acrescentou.

Gostaria muito de perguntar ao general Mourão se estes problemas que ele não menciona; quais são e se eles por acaso estariam ligados aos quase 400 anos de escravidão e seu nefasto legado. Infelizmente, ele não é o único a pensar desta maneira. O atual presidente da Fundação Palmares, Sergio Carmargo, é também um fiel devoto deste pensamento. O presidente Jair Bolsonaro gosta de afirmar que racismo no Brasil é coisa rara. Ele tem até um amigo “negão” para exibir a quem quiser ver que ele não é uma pessoa racista.

Na psiquê de milhões de pessoas, a idéia de um país totalmente miscigenado em que vigora uma suposta democracia racial está tão enraizada na nossa cultura que, mesmo dados mostrando claramente  o abismo socio-econômico entre negros e brancos,não convence a quem se recusa a acreditar na dura realidade. Como se pode esperar que tais pessoas acreditem em dados se elas se recusam a acreditar até mesmo na ciência?

Já que o vice presidente desconhece a história brasileira e sua relação com a escravidão e o período pós-escravidão, separei alguns livros que certamente poderão ajudá-lo neste tema. A propósito, seria interessante sabermos também a opinião do general a respeito do verdadeiro holocausto indígena já que ele teve a sorte de seus ancestrais não terem sido mortos pelos escravocratas, que antes da escravização negra, escravizaram os indígenas praticando ainda hoje um genocídio que reduziu os povos originários a menos de um milhão, quando eram entre 5 e 6 milhões quando da chegada dos portugueses, em 1.500.

Mas vamos aos livros:

O abolicionismo: Obra prima clássica do abolicionista Joaquim Nabuco. Sem dúvida alguma um dos livros mais importantes escritos sobre o tema. Publicado no final do século XIX, faz um critica contundente ao regime escravista brasileiro e sua nefasta ramificação na sociedade. Para Nabuco enquanto o Brasil não reconhecer sua dívida com sua população negra ele não será totalmente livre.

A vida dos Escravos no Rio de Janeiro: 1808-1850: Sem dúvida alguma o livro mais importante que li sobre o peródo da escravidão e a cruedade perpetrada pelos senhores de escravos. O requinte de crueldade chegava a punição de mais de 300  chibatadas. Escrito pela historiadora norte-americana, Mary C. Karasch, este indispensável livro deveria ser lido pelo senhor Mourão e cia para deixarem de  pensar que a escravidão brasileira foi mais “amena” do que a dos Estados Unidos.

O Negro No Mundo Dos Brancos: Este importante livro do cientista político Florestan Fernandes denuncia a supremacia da “raça branca” brasileira, acusa a “acomodação vigente” e seu papel no sentido de obstar ao negro seu lugar como o protagonista da sua própria história. Um livro indispensável para aprendar o funcionamento da sociedade brasileira pós abolição e sua recusa em ver o negro como um agente transformador e importante dentro do Brasil.

 

A Enxada e a Lança: A África Antes Dos Portugueses: Escrito pelo diplomata de carreira, Alberto da Costa e Silva, mostra uma África fora do esteriótipo tão propagado pela grande midía dentro do Brasil e que certamente ajudou a sedimentar o racismo contra o negro brasiliero mostrando que ele não tinha história, cultura e o que é pior não contribuiu em nada para a civilização mundial.

O livro aborda povos, etnias, técnicas agrícolas e de navegação, expressões religiosas e artísticas, reinos extintos, cidades desaparecidas, costumes e crenças, línguas e dialetos. Ou seja, tudo aquilo que jamais aprendemos sobre a verdadeira África e seus habitantes.

RACISMO: COTAS E AÇÕES AFIRMATIVAS: Escrito pelo cartunista, jornalista e gestor público, Maurício Pestana, este livro é uma excelente contribuição para analisar as questões raciais tomando por base as opiniões de pesquisadores, professores, estudantes, profissionais de diversas áreas, gestores, políticos, integrantes de movimentos sociais e da sociedade civil de forma geral.

É claro que esta é somente uma pequena lista tratanto de um assunto de vital importância na história do Brasil.  Afinal de contas, estamos falando de mais de 300 anos da instituição escravocrata e 131 de um pós-abolição onde o Estado ignorou completamente as demandas dos os ex-escravos e seus descendentes e segue ignorando as demandas da comunidade afrobrasileira nos dias de hoje.

 Em pleno século XXI ouvir de pessoas responsáveis pelo bem estar social da população em geral de que não existe racismo no Brasil é no mínimo desonestidade intelectual. No caso do atual presidente, do vice, e do atual presidente da fundação Palmares, é uma simples ignorância mesmo. Fica aí minha dica caso eles queiram saber  porque mais um homen negro foi linchado dentro do Brasil.