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01/12/2020
Escrita Caroliniana: Lugares de fala e visibilidade na Língua escrita do Pretuguês
Raquel do Nascimento Gomes

             Ao investigar a construção de uma literatura perpassada por enunciados polissêmicos em que se almeja conferir se existe o estilo estético realista e a presença de uma lírica romântica na composição do estilístico na escrita de Maria Carolina de Jesus no seu livro "Quarto de Despejo - Diário de Uma favelada".

          Neste sentido, tecer diálogos entre teorias da linguística, literatura e teoria da linguagem para identificar os traços da tradição oral de uma leitora que pode aferir-se refletidos em uma escrita constituída por marcas de oralidade contrapondo-se à escrita legitimada pela visão canônica da escrita literária, além da visão restrita da língua portuguesa, confabulando fundamentação metodológica para construir uma visão teórica para além do prisma gramatical das interações entre fala e escrita.

            A partir destes pressupostos sugerir um ponto de vista que entenda a literatura periférica como alta literatura, traçando uma identificação na figura paratópica da narradora, negra, pobre e mulher uma construção discursiva paradoxal que a coloca ora no lugar de visibilidade por ser escritora ora a coloca no lugar de invisibilidade por ter uma escrita permeada por um imaginário endossado por narrativas da população periférica . Para além de seu contrafluxo em criar uma literatura que nos faz rever a linguagem literária afrodescente sem a restringir aos valores eurocêntricos da arte.

            Ao apurar e construir uma interpretação deste lugar de fala, logo, confirma-se o rompimento do mesmo livro com o discurso de uma superestrutura, considerando o surgimento de vozes citadinas diversas que constituem uma polifonia nos enunciados que emergem da escrita caroliniana. Esses escritos concebem-se por meio de interações da catadora de papel com um contexto sócio histórico pouco profícuo à leitura, mas fiel à tradição cultural de uma “fiandeira de palavras” ( PADILHA, 2002) que tem a finalidade de  tecer o cotidiano da sua vida através da tradição oral que se costura em seu diário como registro verossímil à própria realidade.

                     Para elaborar este fiar da realidade, importante compreender que a relação da narradora verseja com uma tradição de mulheres que trazem em suas mentes estórias advindas das diásporas africanas, mesclados com as suas leituras dos consagrados romances literários. Estes dois elementos, destacam-se como formadores de uma literatura que se concebe não no plano da espontaneidade, mas se realiza com distinção estética em que se percebe uma literatura fincada na tradição oral afrodescendente através da observação, bem como da presença de aspectos da oralidade na escrita caroliniana, apurando os fenômenos sociolinguísticos de sua escrita permeada por intenção estética e discursiva.

                     A obra Quarto de Despejo Diário de uma favelada situa um pragmática entre fala e escrita. Este motivo, instiga-me a uma problematização metodológica que confina a língua às regras gramaticais da língua portuguesa. Como estabelece Conceição Evaristo em sua visão sobre a escrevivência, as narrativas de matrizes afrodiaspóricas são promovidas por uma gramática atrelada ao cotidiano das mulheres negras que fiam histórias aos sujeitos saídos de seus ventres.

            Desta feita, existe uma predispõe a ignorar a pluralidade linguística perante os fenômenos da língua que passam a não ser verificáveis, por exemplo, em espaços em que não se deu a escolarização. Porém, as práticas de ficção, as práticas de contação de estórias, a poética de fabular a realidade circulam nestes lugares periféricos em que as figuras enunciativas, dessas ações narrativas, são adversas àquela teoria estruturalista, porque a palavra absorve o contexto sócio histórico cultural transparecendo o desejo humano em fazer parte dos círculos socias.

           Neste sentindo, justifico a relevância em compreender uma textualidade perpassada pelo eu-lírico feminino, bem como o lirismo, o estilo, o valor literário da obra homônima expõe fenômenos da língua portuguesa em que a escrita é atravessada pela oralidade. Uma oralidade permeada por palavras que se costuraram em tecelagens antigas, aquisição advinda das diásporas de etnias africanas ao continente americano. Estas oralidades demarcam uma subjetividade a qual cria e reverbera um imaginário literário, linguístico das etnias africanas.

            Lélia Gonzalez, destaca que as formas de expressão das populações que descenderam dos africanos são marginalizadas confirmando um conceito excludente de norma culta da língua portuguesa. Em sua proposta, existe uma reivindicação à epistemologia dominante do uso da língua. Neste sentido, formula uma ciência que considera saberes linguísticos de parteiras, bem como dos povos colonizados como legitimas, ricas formas em expressar os pensamentos, uma cosmogonia, um ponto de vista através de uma escrita envolta pelo cotidiano experienciado. Estas manifestações linguísticas são reversas aos protocolos das regras dos discursos dominantes a partir de uma verificação do surgimento de uma língua intitulada de pretuguês. (GONZALEZ, 1984, p. 238)

            Esta valorização da linguagem falada dos povos negros entra em contrariedade com as ciências das gramaticas normativas as quais estipulam “um erro” na língua, essa que está fincada na visão estática da língua portuguesa advinda dos preceitos eurocêntricos , confirmando uma submissão linguística às demais formas de expressão, tal como nossas oralidades, além de ignorar a fala do sujeito que prática o pretuguês como não cabível aos cânones da literatura de língua portuguesa.

            Logo, compreendemos nas páginas do livro Quarto de Despejo: diário de uma favelada contém uma discursividade que contesta um lugar eurocêntrico da escrita na qual flui de maneira estética sem uma autorização branca para obter o direito de fala de nós, mulheres negras, tal como observa a filósofa Djamila Ribeiro.

            À luz dos estudos da Raffaella Fernandez, no livro Carolina Maria de Jesus meu sonho é escrever..., destaca que a escrita desta grande escritora torna-se imprescindível aos estudos pós-coloniais, já que se consagra como um “antídoto para abertura” de outras narrativas, que não somente àquelas consagradas pela academia beletrista.

Ainda nas contribuições dos estudos de Fernandez, a validade da escrita desta escritora consagra-se por um processo criativo que fia uma poética de “feituras hibrida” o qual não se encerra em um julgo pueril sobre o gosto estético visto sob um ponto de vista hierárquico. Deste modo, a literatura de Carolina Maria de Jesus não se encerra nas contribuições da literatura de categoria periférica, pois passamos a compreende a sua escrita através de uma visão paradigmática na qual considera para além dos cânones.

Tal como discute Fávero e Marchuschi, a língua portuguesa não deve restringir-se a uma análise “estável e estática”, porque o gênero escrito torna-se misto, logo a língua a qual Maria Carolina de Jesus usa para contar as vicissitudes do seu cotidiano consta-se em movimento, como a língua que ela usufrui, forma de expressar, esteticamente, o pensamento.  

            Neste contexto, percebo que a escrita caroliniana pode contribuir para estabelecer valores estilísticos em produções literárias que se percebe influenciada pela modalidade oral.  Por conseguinte, colaborar com soluções analíticas que distinguem a presença da fala na escrita por meio de critérios mais metodológicos. Desta feita, acredito na importância da pesquisa por promover um estudo que tende a se nortear no sentindo de irromper com estereótipos e estigmas frente a constatação da presença da tradição oral na escrita caroliniana.

 Ao pesquisar os lugares de oralidade na escrita caroliniana, o presente trabalho embasa-se em Fávero ao propor uma fundamentação teórica em que o paradigma da fala e da escrita não se repelem (FÁVERO, p. 109-111). À luz desta visão teórica, compreende-se uma categoria sistémica para analisar a modalidade de oralidade e modalidade de escrita.

 

Muitas pesquisas abordam o texto falado e o escrito – como já dissemos -, mas não descrevem adequadamente as relações entre as duas modalidades, ou porque se fixaram em dois extremos (do texto mais formal ao informal), ou porque deram primazia a uma modalidade (escrita) em detrimento da outra (fala). Normalmente, a fala é observada a partir da escrita e não por um grau desejável de autonomia. (FÁVERO, p.82)

 

             O “grau desejável de autonomia” permite compreender os aspectos localizados na fala que se verificam presentes no diário, esse que é criado em um contexto periférico em que se nota um enunciado que condensa  as vivências de leitura, de catadora de papel, de mãe, de mulher escritora e de mulher que passa fome.  As marcas de leitora romântica convivem com as experiências vivenciadas no cotidiano. Deste modo, obtemos uma escrita que, tal como afirma a escritora Conceição Evaristo: “Carolina trabalha com a escrevivência”.

          Visto esta percepção de escrita, descolonizamos a visão sobre produções textuais – oral e escrita - para avaliar “a complexidade léxico – sintática” (FÁVERO,           p. 81) que percorre o diário, esse que está repleto de “falas” que demonstram o efeito da escrita polissêmica da escritora Maria Carolina de Jesus, já que traz traços líricos românticos que estabelecem um paradigma no enunciado, pois outra voz discursiva  aparece de forma mais realista, mais prosa, mais enraizada na realidade, remontando, talvez, o estilo estético realista. 

          Mediante o interesse em analisar a polissemia no enunciado caroliniano, valemo-nos dos estudos teóricos de Bakhtin à medida que este teórico possibilita embasamento sobre a constituição de diversos atores – vozes compondo o enunciado, pois afirma que “a polifonia se caracteriza por vozes polêmicas em um discurso” (PIERES; ADAMES, p. 67).

 

Conforme Scorsolini-Comin et al. (2008, p.6), Bakhtin emprega a palavra polifonia para descrever o fato de que o discurso resulta de uma trama de diferentes vozes, sem que nunca exista a dominação de uma voz sobre as outras. E uma das características do conceito de dialogismo de Bakhtin é conceber a unidade do mundo como polifônica, na qual a recuperação do coletivo se faz via linguagem, sendo a presença do outro constante. A linguagem, na concepção bakhtiniana, é uma realidade intersubjetiva e essencialmente dialógica, em que o indivíduo é sempre atravessado pela coletividade. (PIRES; ADAMES, p.67)

 

            Esta complexidade no enunciado consubstancia uma produção textual cujo valor estético, tal como analisa a literatura moderna, dá-se por meio de tensões produzidas mensuráveis pela modalidade oral que se apresentam na obra, já que se determina o encontro de universos que, no plano social, estão impossibilitados de coexistirem:     

 

 (...) Sentei na mesa para comer. A toalha era alva ao lírio. Eu comia bife, pão com manteiga, batata frita e salada. Quando fui pegar outro bife despertei. Que realidade amarga! Eu não residia na cidade. Estava na favela. Na lama, as margens do Tietê. E com nove cruzeiros apenas. Não tenho açucar porque ontem eu saí e os meninos comeram o pouco que tinha.   (JESUS, pg. 39)  

 

           Deste modo, a escritora vive a realidade mais lírica, bem como onírica que, logo, interrompe-se na crua realidade da fome.

              A partir da visão linguista estabelecida por Preti, Konch e Marcuschi, o tracejo da fala na escrita, a teoria de gênero misto em que ambas modalidades se fundem no ato de criação do texto literário caroliniano, reverberando uma gramática do cotidiano, um pretuguês que representa tantas narrativas orais das fiandeiras afrodescentes. No esquema abaixo, podemos notar um gráfico que fundamenta e esquematiza a maneira em que devo categorizar e analisar as diferentes “concepções” no diário.

                     Fonte:  Marchuschi (2001)

     Nota-se, neste gráfico, que o meio sonoro apresenta influência no meio gráfico. As palavras apresentam duas dimensões distintas, porém não excludentes, já que existe a intersecção mediada pela concepção das modalidades escrita e oral. Deste modo, as “escrevivências” estão situadas no ponto que podemos teorizar as diferenças entre as modalidades sonoras e gráficas, mas delimitando, também, as suas semelhanças.

             Neste caso, a língua ultrapassa a barreira gramatical para se atrelar a um status que constitui o paradigma das mulheres, eu-lírico, que se cria,  humaniza-se por meio da criação da linguagem que se encontra na cultura, bem como no convívio social,  possibilitando a humanidade adentrar nos recursos da língua, criando imagens a partir da palavra. Tal como explana Bruno Garcia sobre Buenaventura (1995, p. 181), “la palabra mismo es metáfora de um árbol, que como un hombre, como un ser vivo, nace, crece, se reproduce y muere...Hay palabra raíz, palabra tronco, palabra rama, palabra hoja, flor y fruto.

             Sendo assim, a palavra toma uma dimensão em que é significada como elo de vida, movimento das tradições orais dos povos afrodescendentes em uma escrita que causa fissuras na superestrutura ao destacar a escrita caroliniana, como uma figura da enunciação (MAINGUENEAU, 1995) uma forma de localizar a narradora negra-mulher-pobre como protagonista do enunciado, trazendo à visibilidade o discurso do pretuguês.    

Referência

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