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A ação brutal de dois assassinos covardes contra um homem negro
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02/12/2020
O Comitê do Carrefour, a impunidade, o marketing e o caminho do inferno
Editorial

Não há nenhum reparo a fazer, nem a acrescentar, no programa de intenções do autodenominado Comitê Independente sobre Diversidade e Inclusão, anunciado às pressas, para abafar a repercussão do assassinato do soldador Beto Freitas, 40 anos, morto a pancadas, por seguranças, nas dependências da loja da Zona Norte, de Porto Alegre, na Véspera do 20 de Novembro - Dia Nacional da Consciência Negra.

O problema é que a iniciativa, além de já nascer velha, é apenas uma peça de marketing feita às pressas para conter a corrosão do valor das ações da empresa na Bolsa de Valores de São Paulo e de todo o Mundo.

Na segunda-feira (23/11), quatro dias após o assassinato covarde, vil, praticado por dois seguranças, um dos quais da Brigada Militar de Porto Alegre, e as manifestações populares de indignação e protesto que se seguiram, a empresa perdeu 6% na Bolsa, o equivalente a R$ 2,2 bilhões, a maior no Índice Bovespa da Bolsa de valores este ano. Na Bolsa de Paris, as ações do Carrefour registraram queda de 2,21%.

Assustados com as perdas, um grupo de grandes varejistas, como o próprio Carrefour, GPA e BIG (ex-Walmart), anunciaram a criação de uma comissão para discutir políticas antirracistas.

A peça de marketing, como se vê, tem uma motivação econômica óbvia – conter a sangria financeira –, além de se constituir na repetição de velhas declarações de intenções já conhecidas e manjadas há pelo menos uma década, quando do episódio envolvendo o vigilante da USP, Januário Alves de Santana, barbaramente torturado por seis seguranças na loja do Carrefour/Osasco, após ser tomado por suspeito do roubo do próprio carro – um EcoSport.

Na ocasião, a empresa em Nota anunciou “um movimento, não apenas para evitar que incidentes como esse se repitam, mas para promover transformações que permitam, de fato, avançar na consolidação dos princípios fundamentais da empresa, migrando do campo das intenções para a esfera da realidade concreta”.

Além do pedido formal de desculpas à família de Januário que acompanhou a indenização, o Carrefour demitiu os envolvidos e rompeu o contrato com a Empresa Nacional de Segurança Ltda., empregadora dos acusados. Também criou Grupo de Trabalho para desenvolver “ações relacionadas à diversidade e inclusão social e treinou cem funcionários em parceria com entidades de defesa da inclusão social". Nada diferente do que está sendo feito no caso do pobre homem morto a socos, ponta-pés e esganadura na loja de Porto Alegre. 

Julgava-se que o "Caso Januário" teria sido o ponto extremo da violência nas relações de consumo contra negros no Brasil, garantidas por uma espécie de milícia informal em que foram transformadas empresas de segurança privada, boa parte das quais controladas por militares, oriundos do aparato repressivo do regime militar. Ledo e ivo engano.

Outros casos se repetiriam, com uma frequência quase de rotina, como a morte também a pauladas da cadela Manchinha, que costumava se abrigar no estacionamento, não por coincidência, na mesma loja em que o vigilante da USP foi torturado. Em Sorocaba, o jovem negro Marco Antônio Leandro dos Santos, soube o que significa a "defesa da inclusão social" pelo Carrefour ao ser proibido de fazer a caminhada matinal que fazia, habitualmente, passando pelo estacionamento de uma loja do Carrefour. Causa: era negro e, sendo negro, é suspeito-padrão.

Revelador no caso da cadela Manchinha foi o valor da indenização. Em que pese o fato da indenização a Januário e família ter sido mantida em sigilo, graças a uma cláusula de confidencialidade constante do acordo extrajudicial, sabe-se, que não teria chegado (nem perto) do R$ 1 milhão que o Carrefour teve de pagar a um Fundo pela Causa Animal, em acordo assinado com o Ministério Público do Estado de São Paulo, à título de indenização pela morte da cadela.

A nomeação do Comitê, integrado por negros notórios escolhidos à dedo pelo Carrefour, (Rachel Maia, Adriana Barbosa, Silvio Almeida, Anna Karla da Silva Pereira, Mariana Ferreira dos Santos, Maurício Pestana, Renato Meirelles e Ricardo Sales), com o objetivo de "orientar e embasar um amplo plano de ação de combate ao racismo estrutural no varejo no Carrefour" é, portanto, sim, uma peça de marketing com prazo de validade.

Tão logo o caso suma do noticiário, como já está acontecendo e as ações da empresa se recuperem, como também já está acontecendo, o programa de intenções desaparecerá e casos mais tenebrosos poderão se repetir. Quem viver, verá!

Já vimos esse filme antes. Os envolvidos também. A diferença é que nós não gostamos. Os envolvidos, inclusive, os integrantes da peça de marketing, ao que parece, não estão muito preocupados com a qualidade, mas com as vantagens de participar do "evento" (também de quinta), em que uns poucos negros fazem o papel que lhes está reservado em peças apresentadas pela Casa Grande: o de figurantes secundários em pontas, em que entram pela porta dos fundos e ou pela janela, e em que quase sempre sequer são notados pela platéia.

Quanto aos demais - os mais de 100 milhões restantes, que correspondem a cerca de de 57% da população brasileira - sabemos bem qual o nosso papel e o nosso lado na condição de vítimas - e alvos - de um sistema racista estruturado (recuso o conceito abstrato de racismo estrutural, tão velho quanto andar prá frente, reciclado por conveniência igualmente de marketing), para encher os bolsos e as bolsas de meia dúzia de capitalistas e manter a desigualdade obscena que faz o Brasil ser o que é.

Quanto às boas intenções, deixemos que o ditado popular delas se encarregue: o inferno também está cheio de boas intenções; e de bem intencionados, acrescentamos nós.

 

 

 


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