30 de Maio de 2020 |
Última atualização 0:0
Comentamos
Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
06/12/2019
Bolsonaro e o negro "sim-senhor" da Casa Grande.
Edson Cadete

É o colaborador da Afropress desde 2006 e escreve de Nova York onde vive

Nova York – Ao escolher o jornalista Sergio Nascimento de Camargo para presidir a Fundação Cultural  Palmares, órgão de preservação e conservação da cultura afro-brasileira, vinculada à Secretaria Especial da Cultura (Antigo Ministério da Cultura), o presidente Jair Bolsonaro desrespeita a luta e a história dos negros brasileiros que, há séculos, lutam para transformar o país numa verdadeira democracia racial.

Bolsonaro conhecia o perfil do candidado escolhido. Teria de ser alguém, que a exemplo dele, defendesse a ideia anacrônica de que não há qualquer tipo de impedimento racial para ascensão social do negro na sociedade. Ou seja, Sergio Nascimento de Camargo, ainda acredita em Papai Noel, mula sem cabeça e outras crenças exóticas, como se pode constatar.

Trata-se de um notório bolsonarista que assim como o presidente, acredita que o país está infiltrado de comunistas que precisam ser extirpados da vida pública e de negros mal intencionados querendo dividir o país. Sua ignorância a respeito do que realmente foi o regime escravocrata é tamanha que afirma, sem pudor, que os negros escravizados por mais de 350 anos no Brasil tiveram uma vida melhor sob o chicote do que se estivessem vivendo na África.

A suprema ironia é que o jornalista é filho de Oswaldo Camargo, uma liderança negra importante, que lutou bravamente contra a ditadura e o AI-5, ato nefasto, defendido pela atual "familia real” bolsonarista.

O novo escolhido para a Fundação Palmares, não é apenas um "negro sim-senhor", expressão usada por escravos que suavam nas minas e plantações para definir os escravos que não se sentiam atraídos à fuga com seus co-irmaos porque passavam a maior parte do tempo dentro da Casa-Grande ao lado do sinhozinho ou da sinhazinha.

O termo pode ser associado hoje a qualquer pessoa negra ignorante da história brasileira, à sua própria história e ao racismo. Apessar de todas a evidências e estudos mostrando o contrário, esse tipo de gente ainda acredita que as oportuniddades entre negros e brancos são iguais.

O jornalista foi escolhido porque esta de acordo com o pensamento arcaico do presidente em relação ao problema racial brasileiro. É de conhecimento geral que Bolsonaro afirma, sempre que perguntado, que nao existe racismo no Brasil. Como exemplo, o presidente sempre cita sua amizade com o deputado Hélio Negão, uma espécie de lacaio bolsonarista que o companha como uma sombra.

Esta turma é seguidora da falácia de que a grande maioria dos negros brasileiros segue na base da pirâmide social simplesmente porque não tem força de vontade suficiente. Oportunidades é que não faltam para sua ascensão social.

Os seguidores desta “doutrina” imaginária e estapafúrdia sempre citam as mesmas fontes: Demétrio Magnoli, Yvone Maggie, Augusto Nunes, Vera Magalhaes, e o norte-americano Thomas Sowell, para defenderem suas ideologias. Com esta escolha o presidente mostra mais uma vez o descaso com metade da população brasileira. A primeira prova desta attitude ficou clara durante o 20 de Novembro deste ano, quando o presidente não fez qualquer pronunciamento.

Ao defender cegamente o seu dono(Bolsonaro) o novo presidente da Fundação Palmares, desonra a história e a memória dos negros brasileiros e dá prova contundente de sua assimilação cultural e submissão ideológica a elite branca e européia sem qualquer tipo de questionamento. Parece ter sofrido uma lobotomia que causou danos irreversíveis ao seu cérebro.


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
Artigos Relacionados
O último suspiro
As correntes da escravidão no século XXI
Enfrentar os fascistas em todas as frentes
Nair de Teffé: a primeira caricaturista no Brasil
Twitter
Facebook
Todos os Direitos Reservados