21 de Setembro de 2019 |
Última atualização :
Comentamos
Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
Mais vistos
31/03/2019
Nada será como antes: 64 não se repetirá
Editorial

Nunca é demais lembrar que a frágil democracia brasileira está sob ataque e corre riscos. O governo de extrema direita com inclinações fascistas e ou neofascistas, tutelado por militares, conspira - dia sim, outro também - contra as instituições da democracia e a Constituição de 1.988.

Na prática, se ainda não temos um governo militar, temos um governo de militares, o que, por si só, é auto-explicativo e expõe a natureza dos riscos às instituições da democracia. Nunca, na história da República - nem mesmo durante a ditadura  - houve tantos militares no governo.

Militares, como se sabe, em especial, os brasileiros desde que assumiram a condição de força política após a guerra do Paraguai e nos primórdios da República, tem um conceito muito peculiar de democracia. Só a aceitam quando sob sua tutela, como é o caso do presente momento.

As classes dominantes brasileira - aqueles 10% que detém 50% de toda a riqueza produzida no país, contra os 90% que ficam com o resto - optaram pelo caminho sem volta de destruir o centro político optando por um extremista de direita e sua famíglia, os três filhos, como o próprio pai simpatizantes do crime organizado das milícias, sem qualquer qualificação para o exercício das funções de Estado.

Para se ter uma idéia do que representou a opção para a qual a classe média foi conduzida pelo ódio cego ao PT e a Lula, homens como o ex-governador Geraldo Alckmin, que por muitos anos governou S. Paulo, o Estado econômicamente mais poderoso da federação, e ainda hoje presidente nacional do PSDB, tornou-se coadjuvante secundário de um programa de entretenimento em um canal de TV de reduzida audiência.

As condições objetivas para instauração de um regime de força - de um governo de militares para um governo militar e o sepultamento de qualquer resquício de democracia - estão dadas, não se iludam aqueles que ainda consideram que a votória do extremista nas urnas é parte da normalidade democrática e da regra de alternância de poder.

O ex-presidente Lula, o principal líder popular do país, está preso há um ano em Curitiba, em um processo em que não teve direito a um juízo imparcial, portanto, uma óbvia prisão política, sem o que a nova ordem/desordem não teria chances de se instalar. Não, por acaso, o juiz que decidiu pela sua prisão é hoje o seu carcereiro.

O ataque aos mais pobres já começou com uma proposta de reforma da previdência que acaba com o sistema de seguridade social conquistado na Constituição de 1.988, atinge em cheio os mais pobres e as mulheres, e beneficia os bancos com o regime de capitalização.

No plano dos costumes, uma espécie de talibanato evangélico neopentecostal, uma das bases do governo de extrema direita, se encarrega de uma regressão, não ao século XIX - o que já seria surreal - mas ao pré-iluminismo e a idade das trevas.

Há, ainda, na sociedade, em especial nos setores progressistas e no campo popular, uma certa perplexidade paralisante. O que temos é ainda um oposicionismo difuso, até o momento incapaz de garantir a unidade das forças democráticas e do campo popular em torno de um programa que parta da defesa da "Constituição cidadã" de 1.988, a essa altura a única garantia para não descambarmos de vez no autoritarismo e no arbítrio do bolsonarismo.

Diante da mais recente provocação do extremista presidente (elas são diárias) que propôs aos quartéis a comemoração do golpe de Estado e a instauração de uma ditadura que prendeu, cassou, torturou, matou e sumiu com os corpos de brasileiros durante a longa noite de 21 anos, o que tivemos foram atos de protesto - ainda tímidos, diga-se a bem da verdade - em capitais como S. Paulo, Rio, Belo Horizonte e Brasília.

É ainda muito pouco, embora possa ser o começo de uma grande virada para nos livrarmos desse pesadelo. A única garantia que nos resta é a unidade popular e do campo progressista e de esquerda que seja capaz de ganhar as ruas e mostrar ao extremista e aos generais que o tutelam e querem estender essa tutela a todos nós, de que nada será como antes: podem criar ficções como a ordem do dia lida nos quartéis na semana passada, em que reinventam, a seu gosto, a história e torcem os fatos com uma desfaçatez constrangedora, mas nada será como antes - 64 não se repetirá.

Porém, essa garantia só quem pode dar mesmo é o povo nas ruas reunido em torno de um programa que deve ter como ponto de partida a decisão de não permitirmos "nenhum passo atrás" para seguirmos avançando rumo a um Brasil mais justo, igualitário e solidário digno da grandeza do seu povo.


Artigos Relacionados
Bolsonaro e a face mais odiosa e bárbara do racismo
Resistir enquanto é tempo e por todos os meios possíveis
Maju e a falácia da inclusão simbólica
Morte da cadela Manchinha no Carrefour: omissão e cumplicidade
Twitter
Facebook
Todos os Direitos Reservados