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03/02/2021
Hank Aaron, o Martelo do Baseball
Edson Cadete

É colaborador de Afropress e escreve desde Nova York, cidade onde vive

Queens, Nova York – No Baseball, o esporte mais popular nos Estados Unidos, o “home run” é a jogada mais buscada pelos atletas. É quando o jogador dá uma volta completa sozinho no campo depois de rebater a bola e mandá-la para fora do alcance de qualquer jogador. O emocionante acontece quando a bola vai parar nas arquibancadas.

O jogador de Baseball mais conhecido no país é o ítalo-americano Babe Ruth (1895-1943). Ele jogou pelos dois maiores rivais da Liga de Baseball. O “NY Yankees” e o “Boston Red Sox”. Pense na rivalidade que existe entre o Corinthians e o Palmeiras.

Seu recorde de 714 “home runs” ficou 30 anos sem ser quebrado. Hank Aaron conseguiu esta proeza em 1974 quando jogava pelo time do “Atlanta Braves”. Ele era uma dos poucos jogadores negros da equipe a integrar a Liga Negra de Baseball. Os afro-americanos só começaram a fazer da Grande Liga profissional depois de 1947.

A barreira foi quebrada com a entrada do jogador Jackie Robinson vestindo a camisa 42 do “Brooklyn Dodgers”, o time de Nova York. Hoje o time está na Califórnia, o famoso “Los Angeles Dodgers”.

Entretanto, a busca de Hank Aaron em bater o recorde de Babe Ruth não foi nada fácil dentro e fora dos gramados. Quando, finalmente atingiu a marca de 715 “home runs” na noite do dia 8 de Abril de 1974 contra o  “Los Angeles Dodgers” no estádio Atlanta Fulton County, ele triunfou enfrentando mensagens de ódio enviadas pelo correio a sua residência, acompanhadas de ameaças de morte por pessoas que se sentiam ofendidas e ultrajadas pelo fato de um negro suplantar um ícone branco do Baseball.

Apesar de todo o brilhantismo como jogador, sua força com o taco,  e charme como atleta, (seu apelido nos gramados era o “Martelo Hank”), ele sentia que jamais teve o reconhecimento que, de fato, merecia.

Aaron nasceu no Alabama, em 1934, e, claro, cresceu na atmosfera pesada da rígida segregação local. Enquanto jogador amador, recebeu inúmeras vezes, ofensas verbais de torcedores brancos nas arquibancadas.

Anos depois já aposentado, disse que tinha a impressão que os os torcedores da sua equipe, na sua maioria, eram indiferentes a sua luta por quebrar o recorde de Babe Ruth. O comissionário de Baseball, Bowie Kuhn, não estava presente no estádio na noite histórica do feito.

Em entrevista ao colunista do “The New York Times”, William C. Holden, para celebrar os 20 anos do grande feito, confessou. “O 8 de Abril de 1974, realmente me afastou do Baseball. Me fez ver, pela primeira vez, uma imagem clara sobre o que é realmente este país”, acrescentaria. “ Meus filhos tinham que viver como se estivessem numa prisão por causa das ameaças de sequestro; e eu tinha que viver como um porco num matadouro. Tinha que me agachar, tinha que sair pela porta do fundo do estádio. Tinha que  ter policiais me escoltando o tempo todo. Eu recebia correspondência me ameaçando o tempo todo. Tudo isso acabou deixando um gosto muito amargo na minha boca e ele não vai embora. Eles talharam um parte do meu coração”, concluiu.

No seu livro “I Had a Hammer” (Eu Tinha um Martelo), de 1991, ele disse: “Eu me concentrava nos arremessadores. Eu ficava acordado a noite preocupado com a distribuição do meu peso no meu corpo, onde estavam minhas mãos, com o balanço das minhas ancas; eu ficava acordado pensando nos arremessadores que iria enfrentar no dia seguinte. Eu costumava jogar com todos os arremessadores na minha mente antes de ir para o estádio”.

Enquanto Hank Aaron perseguia o recorde de Babe Ruth, em 1973, ele finalmente surgiu como uma grande figura nacional. Apareceu na capa das revistas “Time” e “Newsweek”, era buscado para entrevistas tanto no rádio como para a televisão e para os jornais. Até mesmo o cartunista, Charles Schuls, criador de Charlie Brown e Snoopy, prestou uma homenagem ao jogador enquanto criticava os racistas de plantão.

Hank Aaron recebeu quase 1 milhão de cartas dos fans, mas entre estas cartas havia muitas de conteúdo racista, com ofensas. As ameaças chegaram a tal ponto que seu time foi obrigado a contratar dois agentes do FBI quando não estavam trabalhando para sentarem nas arquibancadas para prevenir que nada acontecesse com o jogador.

Na noite de garoa do dia 8 de Abril de 1974 quando aconteceu a quebra do recorde, diante de uma platéia de mais de 50 mil torcedores, sua família estava no estádio juntamente com seus pais. O radialista do estádio disse: “Que momento maravilhoso para o Atlanta e para o Estado da Geórgia. Que momento maravilhoso para o país e para o mundo. Um homem negro conseguiu uma ovação em pé no estádio na parte mais conservadora do Sul dos EUA, quebrando o recorde do ídolo de todos os tempos”. Finalmente, naquela noite todo molhado ele receberia a aclamação que tanto merecia.

Em 2002 Hank Aaron recebeu do presidente, George W. Bush, na festa de 25 anos da comemoração do seu grande feito esportivo, a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta condecoração oferecida a um civil na América.

A mensagem constante da medalha dizia que ele representava o verdadeiro espírito da Nação. Quando seu nome foi colocado na sala da fama do Baseball, sentiu que, finalmente, tinha recebido o respeito que merecia. Porém, ele não deixou de lado o feito de Babe Ruth. Em relação aos fans do jogador ele disse: “Eu nunca quis que eles o esquecessem. Eu queria apenas que eles se lembrassem de Hank Aaron.

Para termos uma idéia da importância deste grande atleta, o The New York Times abriu sua edição da sexta-feira dia 22 de janeiro passado falando da sua morte. O jornal dedicou duas páginas inteiras a sua carreira esportiva e sua história. Hank Aaron faleceu aos 86 anos de idade. Descanse em paz Aaron.

Hank Aaron recebendo a Medalha Presidencial da Liberdade das mãos do presidente George W. Bush.


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