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17/06/2019
Imprensa: o riso irreverente
Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite

Pesquisador coordenador do setor de Imprensa do Museu da Comunicação HJC

Neste mês de junho de 2019, no dia 1º,  comemorou-se o Dia da Imprensa no Brasil que nos remete à figura do jornalista gaúcho Hipólito José da Costa (1774-1823). Devido à Censura Régia existente no Brasil Colônia, o patrono da nossa Imprensa fundou, em Londres, o nosso primeiro jornal: o Correio Braziliense (1808-1822). Ao defender a liberdade de pensamento, a Monarquia constitucional, além de combater os ministros corruptos, o seu jornal teve que circular clandestino no Brasil e em Portugal.

É importante que nesta data alusiva à  imprensa, lembremo-nos dos nossos chargistas que, durante a Ditadura Civil-Militar (1964-1985), denunciavam as arbitrariedades, com humor e sutileza, alertando o cidadão quanto aos abusos de poder.

O destacado humorista Millôr Fernandes foi quem “abriu o caminho” para o aparecimento, nos anos 60 e 70, de caricaturistas da envergadura de Ziraldo (Ziraldo Alves Pinto), Borjalo (Mauro Borja Lopes), Fortuna (Reginaldo Azevedo), Jaguar (Sérgio Jaguaribe), Claudius (Claudius Ceccon), Appe (Amilde Pedrosa), Lan (Franco Vaselli), Santiago (Neltair Rebés Abreu) e o Henfil (Henrique Souza Filho).

Grande parte do nosso “primeiro time” de  chargistas começou a desenhar no início da década de 70, em pleno regime do AI-5, sendo que muitos foram presos e perseguidos durante “os anos de chumbo”. Do traço do chargista emergia um mar de fardas, óculos escuros e coturnos, estereotipando o regime militar. Uma das charges, que desafiou a censura, foi a do mineiro Luiz Oswaldo Carneiro, conhecido como Lor. Publicada  em 1978,  esta charge registra uma parada militar que se desvia de um simples cachorrinho. Seu autor se divertia da vulnerabilidade que o regime já apresentava 

Em 1974, foi criado o “Salão de Humor de Piracicaba” com a presença de nomes importantes do humor gráfico e dos quadrinhos nacionais. O evento ocorreu num período em que a censura estava no auge. Produto de um projeto dos jornalistas Alceu Marozi Righeto, Carlos Marcos Colonese e Adolfo de Queiroz, o salão contou, por meio de Zélio Alves Pinto, com o apoio do Pasquim.

Nesta primeira amostra participaram artistas como Millôr Fernandes, Jaguar, Ziraldo, Henfil, Fortuna, Paulo e Chico Caruso, Laerte Coutinho entre outras figuras.  Laerte ganhou o prêmio, naquele ano de 1974, com uma charge onde aparecia um menino sendo torturado e gritando: "O rei estava vestido!", numa alusão à fábula dos irmãos Andersen em que o menino  berra: "O rei está nu", sendo   aclamado pelo povo.  Este salão de humor é um dos três mais importantes eventos do gênero, ficando lado a lado com os salões de Lucca, na Itália, e de Montreal no Canadá.

Segundo o gaúcho Luis Fernando Veríssimo, o período do regime militar talvez tenha sido, paradoxalmente, o período de maior criatividade. O final da ditadura civil- militar  (1964-1985) tirou o aspecto do desenho como travessura. Fundado, em 1969, pelo jornalista Tarso de Castro, O Pasquim é um ícone desse período, sendo, inclusive, fonte de trabalhos  acadêmicos. 

Em 1976, teve uma de suas edições apreendidas devido à charge, do gaúcho Edgar Vasques, que associava as três pombas usadas pelo Exército na Semana da Pátria à carência de proteínas no organismo de um menor abandonado. Ainda em 1976, Chico Caruso foi premiado, no “Salão de Humor de Piracicaba”, apresentando uma charge que mostrava um palhaço preso pelos militares.  

Nessa mesma linha contestatória, surgiu, em Porto Alegre,  O Pato Macho (1971), indo de encontro ao provincianismo gaúcho. Publicado  por um grupo de jornalistas, cartunistas e escritores, este periódico teve, em sua direção, Luís Fernando Veríssimo. Muitos profissionais do traço ali vivenciaram a sua primeira experiência profissional.

Outro jornal alternativo importante foi o Coojornal (1974-1983), Fundado por uma cooperativa de jornalistas de Porto Alegre, este jornal foi a primeira experiência no gênero. Seus assinantes e anunciantes sofriam pressão, pelos censores do regime militar, para desligarem-se do jornal.  Ambos os periódicos fazem parte do acervo do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, cujo nome presta uma homenagem ao patrono da imprensa no Brasil : Hipólito José da Costa (1774-1823).

Na Campanha das Diretas Já (1984), foi importante o papel desempenhado pelos cartunistas. O processo resultou na maior passeata de todos os tempos, acompanhada pelos cartuns e pelo boneco de Teotônio Vilela.  Organizada pela Associação dos Cartunistas do Brasil, esta passeata é um ícone da Campanha das Diretas Já. O boneco de Teotônio Vilela viajou por todo o país,  abrindo os comícios. Essa passeata  foi capa da revista Senhor.

A morte de Helfil, em 04/02/88, que contraiu Aids devido a uma transfusão de sangue, resultou em intensa campanha, realizada pela imprensa,  por meio de cartuns, para que a doença tivesse o tratamento adequado. O Pasquim e a revista Isto É deram total cobertura , resultando na redução de casos e um maior controle na doação de sangue.

Muitos nomes, ao longo dos anos, surgiram na arte do traço, especialmente após  o golpe militar de 1964. Naquele período, de intensa censura, além dos nomes já citados, destacaram-se também Sampaio, Sampaulo,  Canini,  Bendati, Xico Stockinger,  Bier,  entre outros  talentos.

Ao comemorarmos  os 211 anos da imprensa brasileira, nossa homenagem  aos chargistas que têm  enriquecido o jornalismo com sua arte e assim como Hipólito José da Costa, em momentos diferentes da  história do Brasil, defenderam a liberdade de expressão. A Associação Riograndense de Imprensa (ARI) está promovendo a “Semana da Imprensa Hipólito José da Costa” marcada  com a realização de debates, ciclo de filmes, encontros e homenagens até a próxima sexta-feira, dia 7, em Porto Alegre (RS).

Bibliografia

SOUZA, Cláudio H. de. Impressões do Brasil /A imprensa brasileira através dos empos: Rádio, Jornal e TV. São Paulo: Praxis Artes Gráficas Ltda, 1986.

FONSECA, Joaquim da. Caricatura / A Imagem Gráfica do Humor. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1999.

Revista Veja, 04 de agosto, 1993


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
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