23 de Maio de 2019 |
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Racismo explícito do ex-conselheiro do Santos. Ouça.
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22/04/2019
Não existe ex-racista
Douglas Martins de Souza

É advogado, ativista do movimento negro, ex-secretário-adjunto da SEPPIR

A Constituição de 88 afirma que o racismo é crime imprescritível e inafiançável. Tanto faz se ficamos sabendo na hora ou tempos depois. Racista responde a qualquer tempo. Logo, não existe “ex-racista”. O secretário adjunto de esportes (demissível a bem do serviço público) regurgitou um zap racista que vaza na rede como um excremento. Ele disse que foi há muito tempo.

Agora somos constrangidos com novo “zap racista de arrependimento” do mesmo sujeito tirando do baú discriminatório aquela história batida e ultrajante da empregada negra e do amiguinho preto de infância para confirmar o racismo ancestral da ama de leite e da proximidade com escravos de alma branca da Casa Grande. Esse é o país onde o racista é tão racista que não larga o seu racismo nem na hora de pedir desculpas.

Sobre a mestiçagem que o secretário racista despreza, Darci Ribeiro diria que “todos nós, brasileiros, somos carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós, brasileiros, somos por igual a mão perversa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos. E a gente insensível e brutal que também somos”.

Assistimos revoltados os que teimam em manter erguida com orgulho imbecil a mão perversa do suplício. Recentemente um sujeito de igual mentalidade se dirigiu aos quilombolas valendo-se do termo “arroba”, para deixar claro o conceito que tem desses brasileiros. Recebeu aplausos, risos e votos, muitos votos. O tempo da sociedade se perceber doente é lento. Permanecer calado diante dessa doença é contribuir com ela.

Estamos fartos do racismo brasileiro velhaco articulado numa rede hipócrita que se estende às instituições e na rejeição brucutu das políticas antidiscriminatórias, escondendo-se no velho discurso da igualdade formal que nunca existiu e nem existirá enquanto essa gente tiver poder.

Um velho princípio jurídico destinado a transgressores afirma que para a lei “a ignorância não é argumento”. Nessa sociedade que se sabe racista, desnudá-la já é um ato revolucionário. É o que estamos fazendo agora ao denunciar todo silêncio como cúmplice.

 


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
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