28 de Janeiro de 2021 |
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A ação brutal de dois assassinos covardes contra um homem negro
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29/12/2020
Não podemos naturalizar a morte. Vacina, Já!
Dojival Vieira

É advogado, jornalista e editor responsável pela Afropress

Como é possível que, com quase 200 mil pessoas mortas, continuemos tocando a vida como se nada estivesse acontecendo? Como é possível que continuemos nos comportando desta forma quando, há menos de um mês, todos assistimos estupefatos um homem negro ser espancado até a morte diante das câmeras de um supermercado por seguranças do Carrefour, em Porto Alegre?

Será este o novo normal, de que falam cientistas e articulistas?

Como é possível que não reajamos diante de um extremista de direita, que dirige um governo que debocha de uma doença mortal para a qual não se descobriu ainda cura e que, uma vez descoberta a vacina, dá de ombros e trata com desdém a única iniciativa capaz de salvar a vida de centenas, milhares de pessoas?

Como podemos continuar passivos diante desta coalização de perversos que se apoderou desta República da Casa Grande, constituída por militares, fundamentalistas, traficantes da fé, grileiros, milicianos, mineradores, destruidores da Amazônia e do Pantanal e das terras indígenas, uma classe média estúpida que “come mortadela e arrota peru”, armamentistas, defensores da anti-civilização, capitalistas beneficiários do rentismo financeiro, racistas, machistas, boçais de todos os tipos e calibres?

O que terá acontecido com a “brava gente brasileira”, que se esconde sob “um temor servil”, e permanece dormindo em “berço esplêndido”, “fugindo à luta”, mais do que nunca necessária, mais do que isso, urgente, como um imperativo de defesa da própria vida?

Nos anos 30 uma população inteira de alemães, em geral um povo culto, que produziu gigantes como Karl Marx, Albert Einstein, Immanuel Kant e Ludwig Van Beethoven, foi seduzida pelo nazismo e embarcou na aventura convocada por um cabo responsável pela matança, em fornos crematórios, de, pelo menos, 6 milhões de judeus, negros, ciganos, homossexuais. É impossível não enxergar neste tosco e medíocre capitão, amante da tortura e celebrador de torturadores, que deixou o Exército brasileiro por desonra, os traços, os trejeitos, as falas, os esgares da peste nazista.

É impossível não enxergar na legião de seus apoiadores, o mesmo fundamentalismo estúpido, a mesma boçalidade, quando vão às ruas para combater a vacina contra a Covid-19. E quanto a nós, o que explica a nossa passividade?

Onde estão as lideranças políticas, onde está a Esquerda brasileira, onde estão os democratas verdadeiros, os que sabem que, se não agirmos a tempo, o aspirante a tirano, o genocida está pronto a sufocar um país inteiro nas trevas da tirania nazi-fascista?

Como podemos continuar fingindo que não é conosco quando temos as mortes chegando cada vez mais perto de nós - de parentes, de amigos, de conhecidos? Como uma doença igualmente contagiosa o bolsonarismo genocida vai infectando o país e parece que já chegou a alma das pessoas, paralisando-as. Ganha espaço e terreno, inclusive, quando falamos dele para atacá-lo.

Só isso explica a nossa mortal passividade, que nem chega a ser a passividade dos bovinos, de vez que, bois, em geral, dão arremetidas violentas quando descobrem estar sendo levados ao matadouro. Só isso explica que, mesmo conduzidos para a morte, não estejamos arremetendo contra os responsáveis. Como, os alemães, nos anos 30 do século passado, parece que estamos naturalizando a morte diária, que o genocida cínicamente traduz com a frase conhecida “todo mundo vai morrer mesmo...”.

Quando se aproximar da passagem do ano em que vivemos todos em perigo, celebremos a vida, nós que conseguimos até aqui sobreviver, apesar de tudo, e tomemos uma atitude para celebrar a vida verdadeira – a sua, a minha – e a de todos os seus amigos, da sua família, pessoas amadas, conhecidos, brasileiros como você e eu, que não tiveram a mesma sorte.

A hora é agora. Que em cada cidade, em cada local de trabalho, no seu home office, nas quebradas, nas periferias das cidades grandes e pequenas, em cada recanto deste país que ainda se chama Brasil, nos seus círculos mais próximos, se levante uma única e poderosa voz: Vacina ou Morte!

Para que não seja a nossa...!

 

 

 

 


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
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