22 de Julho de 2019 |
Última atualização 0:0
Comentamos
Racismo explícito do ex-conselheiro do Santos. Ouça.
24/04/2019
OS 100 dias de uma tragédia previsível e anunciada
Dojival Vieira

É Advogado, jornalista e editor responsável pela Afropress

Passados os primeiros 100 dias do novo Governo ainda se nota em boa parte das pessoas, que não tinham razões para esperar da extrema direita nada que não fosse “isso daí”, um sentimento de perplexidade e, no fundo, a pergunta: como pudemos deixar que o Brasil descesse tanto e chegasse a esse nível de aberrações e absurdos produzidos em série?

Temos, na verdade, não um Governo, mas três governos comandados, respectivamente: 1 - pelo bolsonarismo - a clã dos bolsonaros, e o próprio chefe, todos dirigidos pelo rasputin da Virgínia, o autoproclamado filosófo, Olavo de Carvalho; 2 - o fundamentalismo evangélico neo-pentecostal, bancado por pastores e bispos picaretas, que desonram os verdadeiros evangélicos e seguidores de Cristo; 3 - militares de pijama – nunca se viu em toda a história da República tantos militares ocupando postos de comando, 130 de acordo com levantamento feito pelo Jornal O Estado de S. Paulo, oito dos quais no primeiro escalão, representando mais que 30% do total de 22 ministérios.

Governo de militares

À propósito, o número de representantes das Forças Armadas no Governo é maior que no governo Castelo Branco (1.964/1.967), o primeiro do regime de exceção, e do que nos Governos Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo, ou seja, todos do período militar.

Neste quesito, há outros dados reveladores - em verdade, assustadores, melhor seria admitir: a) enquanto oficiais de pijama ocupam postos estratégicos na Esplanada, é de um da ativa – o general Rêgo Barros – a condição de porta-voz, ou seja, a voz responsável por tentar dar um certo verniz de normalidade à cena, de tudo e, por tudo, anormal numa Democracia e num Estado Democrático de Direito; b - o ex-comandante do Exército, general Vilas Bôas, tornou-se assessor especial de outro general, o Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, fato que a mídia hegemônica fingiu não ver para não contrariar os ares de normalidade que pretende que respiremos.

Por trás dos três governos, a mão invisível (nem tanto) do mercado, com um único interesse neste e em qualquer governo: a defesa da acumulação capitalista em níveis sempre crescentes de exploração, pouco importam as consequências que gritam nos números da desigualdade; na violência como ocorreu com o caso da família metralhada por uma patrulha do Exército no Rio, com duas mortes registradas - o músico Evaldo Rosa e o catador Luciano Macedo, ambos negros -, mortes a que Bolsonaro e militares de alta patente chamaram de mero "incidente"; e na privação de direitos para a maioria da população.

Vergonha alheia

Não bastasse isso, o Brasil tornou-se alvo do riso e da vergonha mundiais, graças aos vexames protagonizados por um chanceler olavista que envergonha a tradição da diplomacia brasileira: trata-se da submissão ao nível mais baixo de uma classe dominante brasileira que abdicou, de vez, de qualquer projeto nacional para subordinar-se de forma vexatória aos interesses do império norte-americano.

Se ainda restasse dúvidas a respeito de a quem serve este Governo, a que veio, dúvidas não há mais; pelo menos para qualquer um que não engrosse as hordas fanatizadas dos robôs bolsonaristas, que infestam a rede mundial de computadores e as redes sociais.

A entrega da Base de Alcântara no Maranhão (único lugar no mundo em que é possível o lançamento de foguetes e satélites a um custo 30% menor) a Donald Trump, na recente visita aos EUA, é por demais eloquente.

Colônia americana

Para que não restasse dúvidas da submissão ao nível de mera colônia, Bolsonaro liberou a entrada de norte-americanos em território brasileiro, sem qualquer contrapartida para os brasileiros, que continuaremos amargando filas e transtornos para ter autorizada a entrada naquele país. Com isso, mandou às favas o princípio da reciprocidade, pedra angular de qualquer diplomacia, declarando que o Brasil, doravante, de fato, se tornou a “casa da mãe Joana”, com todo o respeito a mãe e as joanas.

No plano interno o bolsonarismo precisa alimentar o conflito como dinâmica para manter o país sob perplexidade e susto: dia sim, outro também, o espaço do debate público é ocupado pela clã integrada pelos três filhos, a que a mídia passou a chamar de zero um, zero dois, zero três, em disputa aberta com o general vice, já visto como um conspirador interessado no cargo por – pasmem! – ter aparecido nestes 100 dias como a voz moderada e sensata.

Convém não esquecer que essa é a mesma voz que considera justificável um auto-golpe para a promulgação de uma Constituição de "notáveis" e trata como herói, o maior torturador da história recente – o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra – como fez em entrevistas durante a campanha.

A violência contra a população tem sido a tônica: os casos de assassinatos de mulheres (feminicídios), queima de mendigos nas ruas, execuções por agentes policiais, nunca foram tão altos.

É o que temos, por ora.

Democracia direta

Diante do caos instalado e da crise como forma de governo, não há outra saída senão a união e a organização miúda, cotidiana, casa por casa, rua por rua, bairro por bairro, cidade por cidade, Estado por Estado, para sairmos da perplexidade e retomarmos a iniciativa que tem nos faltado. É a partir daí que devemos ganhar as ruas para exigir o respeito a Constituição e a Democracia, que não pode continuar significando apenas a obrigatoriedade de voto a cada dois anos. 

Aliás, é a própria Constituição em vigor que assim estabelece. No seu artigo 1º, parágrafo único, a Lei maior do país diz que "todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente nos termos desta Constituição".

No capítulo IV, quando trata dos direitos políticos, no art. 14, diz que "A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: I - plebiscito; II - referendo; III - iniciativa popular.

A Lei que trata desses temas - a 9.709 - é de 1.998, porém, jamais é lembrada para que se coloquem as coisas nos devidos lugares. Não há sentido, por exemplo, em se pretender mudar a Constituição no que tange a importante conquista da seguridade social com uma reforma da Previdência que acaba com direitos e consagra privilégios, sem se consultar diretamente à população por meio de plebiscito e ou referendo.

Não temos partidos, nem organizações políticas, capazes de dar direção e de assumir essa tarefa, o que torna imperioso que seja assumida por todos os que já tem consciência do grave momento em que nos encontramos.

Comitês populares

A constituição de comitês domésticos para esclarecer a população sobre o que significa a reforma da previdência da extrema direita, a quem ela serve, quem ganha e quem perde, é uma boa idéia. Tais comitês, podem evoluir para outros temas – como o racismo e o assassinato sistemático de negros e mulheres -  e se tornarem comitês permanentes de defesa da cidadania ameaçada.

A união do campo democrático, popular e de esquerda, é mais que uma necessidade: é urgente, inclusive, porque este Governo, provado está, não tem proposta alguma, a não ser acabar com a aposentadoria pública e extinguir o sistema de seguridade social, conquista fundamental da Constituição de 1.988. Sua única proposta, o único projeto é a instalação de uma ditadura, de uma tirania, já que Bolsonaro jamais teve qualquer respeito pelos ritos e procedimentos da democracia.

Na sua cabeça desvairada e paranóica (onde, até mesmo, o general vice passou a ser uma ameaça) gostaria de governar pelo twitter, como de certa maneira, já o faz, sem as instituições, dirigindo-se diretamente aos apoiadores, uma escória que cultiva os mesmos valores.

Retire-se dessa conta as pessoas que, de boa fé, votaram nele por raiva e ódio ao lulismo e ao petismo e que, a essa altura, começam a se dar conta do terrível engano.

Noves fora elas, que ainda podem ser ganhas para o campo democrático, o que resta do bolsonarismo é uma gente inculta, boçal, ignorante no nível mais extremo, e que cultiva os mesmos valores do seu ídolo, em verdade, anti-valores, e o completo rebaixamento do padrão civilizatório mesmo para os níveis de brutal desigualdade que nos atingem.

A esses, o povo brasileiro, mais dia menos dia, terá de derrotar, mandando-os para a lata do lixo da história, assim como fizeram os alemães após a derrota do nazismo.

 

 

 

 


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
Artigos Relacionados
Sobre cautela, sem canja de galinha.
Olho vivo no capitão-do-mato.
Imprensa: o riso irreverente
Festas Juninas Acionam Todos Meus Gatilhos de Rejeição*
Twitter
Facebook
Todos os Direitos Reservados