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25/05/2019
25 de Maio: Dia Nacional de Incentivo à Adoção. Amor Não é Passarela. É voo!
Elenízia Bernardes

É roteirista, mitóloga e produtora cultural

Comemora-se, em 25 de maio, o Dia Nacional de Incentivo à Adoção. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), no Brasil, cerca de 47 mil crianças e adolescentes vivem hoje em abrigos. O Cadastro Nacional de Adoção (CNA) registra, atualmente, 45.923 adultos pretendentes à adoção e apenas 9.566 crianças e adolescentes – 17, 8% do total, portanto – legalmente aptos a encontrar uma nova família. 

Ainda segundo o CNJ, 61,95% das crianças e adolescentes recolhidos nos quase 2 mil abrigos brasileiros são pardos e negros – o que não constitui um obstáculo à adoção, visto que somente 15% dos adultos habilitados aceitam apenas crianças brancas, 83% dos pretendentes não se opõem à adoção de pardos, 56% adotariam negros e 50%, todas as etnias.

Imprescindível que o Movimento Negro tenha olhos voltados para as questões inerentes à adoção, posto que negros constituem mais de 60% das crianças e dos adolescentes cadastrados no CNI. Não havendo a inserção em uma nova família, a chegada da maioridade põe fim ao período de acolhimento em abrigos. Muito embora, em grande parte dos municípios brasileiros, esses jovens contem, até os 21 anos, com o amparo do poder público para se estabelecerem no mundo adulto, o fato é que não são poucos os que retornam à família disfuncional de origem ou chafurdam, sem interregnos, na marginalidade: transformam-se, facilmente, em mão-de-obra acessível e barata para o crime organizado.

Um levantamento do Portal G1 sobre homicídios apontou que, no Brasil, o perfil de quem mata é o mesmo de quem morre: majoritariamente, jovens negros, do sexo masculino, de baixa renda, baixa escolaridade, moradores de áreas inalcançadas pelas políticas públicas de inclusão social. Corroborando essa informações, o sociólogo Maximiliano Vicente sublinha que a tragédia dessa juventude contraventora inicia-se com o abandono familiar, mas relaciona-se diretamente com as deficiências do Estado.

Os números reacendem a discussão sobre a urgência de se repensar medidas que combatam a morosidade nos processos de adoção que tramitam no Poder Judiciário e as políticas públicas de incentivo à adoção tardia – especialmente na semana em que a segunda edição do evento, “Adoção na Passarela”, realizado num shopping de Cuiabá, recebeu uma torrente de críticas Brasil afora.    

Mesmo ouvidos pouco atentos são capazes de auscultar, pelos alaridos das associações de apoio a adotantes e adotados, o esforço gigantesco no sentido de coser lantejoulas novas à velha fantasia de que “filho é tudo igual.” Urge etiquetar ao tecido nobre do Amor a garantia de que ele não desbotará jamais. Num mundo que não nos dá garantias de nada – nem mesmo de um dia seguinte – a ilusão de segurança é tentadora. Imprescindível avaliar, nalguma passarela da vida, o nosso “objeto de amor”; blindarmo-nos na certeza de que aquela criança é tal qual todas as outras. Por conseguinte, vale a nossa entrega amorosa. Para nós, os chamados adultos – pequenos burgueses do Ocidente – Amor é PagSeguro.

Curiosamente o Sânscrito, protolíngua da maioria dos idiomas indo-europeus, possui cerca de 95 vocábulos para definir o Amor. Já a maior parte das línguas ocidentais, como a portuguesa e a inglesa, por exemplo, possui um vocábulo apenas. Português e Inglês não têm, como o Sânscrito, a sutileza necessária para significar as infinitas possibilidades de experiência amorosa.                 

O Amor é diverso sempre. Todo filho, único em sua indômita singularidade. Não raro, ama-se com amores variados o mesmo parceiro nas diferentes fases de um relacionamento. De igual maneira, cada filho nascido inaugura amores irrepetíveis à imagem e semelhança de si próprio.

Quem fornece genes é genitor. Quem cuida é cuidador. Mãe e Pai são quem estará amorosamente a postos. Sempre.       

Quando, num abrigo, a Luz dos olhos de uma criança acende as fagulhas do olhar de um adulto elegendo-o seu, o momento é de ressignificações estranhas. Primeiramente porque, se o anúncio de uma gravidez espalha, ao entorno, compreensível euforia, comunicar o ingresso em uma fila de adoção produz constrangimento. Quando não, horror:

“Ficou louco(a)? Já pensou no que essa criança pode se tornar quando crescer?”

 “Mas você ainda pretende ter o seu filho de verdade, né?”

“E se ele (a) quiser roubar o lugar dos seus filhos legítimos?”

“Por que não fez uma inseminação artificial?”

“Por que não adotou um cachorro? Ou um gato? Ou um hipopótamo?” (Quem sabe um unicórnio alado?)

“Já pensou que ele(a) pode ir atrás da ‘família de verdade’?”

Mesmo as eventuais felicitações são desalentadoras:

“Parabéns! Deus irá te recompensar por seu enorme gesto humanitário...”

O filho que dá à luz seus pais, através da adoção, expõe-lhes o quanto os adultos ainda somos, em matéria de Amor, não mais que uns australopitecos atrapalhados.

Amor não é para preguiçosos. Pelo contrário. É a prova de fogo. Tremendo desafio ao nosso vigor emocional. Não há linha de chegada ou coroa de louros. O Amor é, em si mesmo, travessia e prêmio.  

O que gente grande quer é maciez de sofá, alegria encenada de comercial de margarina.  Heróis e vilões. Conjunções astrológicas. Destino. Maktub. Vidas passadas. Promessas de final feliz. Garantia de felicidade sem final. Solidez sem solidão. Inobstante, quando uma criança, ferida pela negligência e pelo abandono, atira-se, quase pássaro, ao nosso colo e nos adota, sem prévias exigências, vislumbramos que Amor é voo. O mundo perdendo as beiradas. Escuta-se, desde então, mais e melhor. Julga-se menos. Entende-se que o preconceito do outro é eco de si mesmo. Da obsessão por simplificar o complexo. Do vício de rotular pessoas e organizá-las nas prateleiras das memórias, apenas para facilitar o acesso.

Quando uma criança adota um adulto disposta a amá-lo – na alegria, na tristeza e em seus intervalos– não ganha um Super-Pai ou uma Mãe-Maravilha. Alça, ao contrário, mortais comuns do precipício de sua própria humanidade.  É que Amor é voo e ama abismos. Tremores e temores. Herói é o filho que, cheio de cicatrizes, desconfia da desconfiança e ousa, uma vez mais, amar, incitando-nos a voar à sua altura.

Nunca se viu uma criança que escolhesse pais tomando por critério a performance de pretendentes à adoção numa passarela! E, no entanto, escolhido por uma criança, um adulto pode enfim fremir asas no escaldante horizonte das idiossincrasias humanas. Amar apenas.  Adoção é isso.

É a Vida ganhando significâncias.

É a Vida ganhando transcendências.

É a Vida ganhando asas.  

 

 

 

 

 


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
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