15 de Novembro de 2019 |
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Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
05/09/2019
Bolsonaro e a face mais odiosa e bárbara do racismo
Editorial

O recrudescimento da face mais odiosa, violenta e bárbara do racismo – aquela que se manifesta em tortura e morte -, como se pôde constatar no mais recente caso do espancamento a golpes de chibata de um adolescente de 17 anos, numa unidade do supermercado Ricoy, na Zona Sul, de São Paulo, tem um responsável: o bolsonarismo e a sua estética da violência, bem como a pregação sistemática do ódio pelo seu chefe, que ocupa hoje, nada mais nada menos, que a Presidência da República.

O discurso racista, do ódio e da intolerância que sai todos os dias do Palácio do Planalto, tem dois efeitos óbvios: mantém a manada de seguidores, e empodera os violentos que passam a agir como se donos da vida e da morte, bem como agiam os capitães do mato.

Não, que seja novidade neste Brasil – que jamais ajustou contas com os 350 anos de escravidão – episódios dantescos desse tipo. Ao contrário: tais episódios de desprezo, humilhações e violências que tem os negros como destinatários, estão inscritos em nosso cotidiano, ainda que vivamos ainda sob esta espécie de “racismo cordial”, que, em alguns momentos, até se tornou peça de propaganda do Brasil para o mundo sob a designação de “democracia racial”.

A democracia por aqui – hoje sob ameaça explícita segundo reconhecido pela própria comissária da ONU para os Direitos Humanos, a ex-presidente chilena, Michele Bachelet – nunca passou de um arremedo, suscetível ao humor dos poderosos, alvo de golpes e quarteladas.

Em 519 anos de existência do país, é a primeira vez que um período que se pode chamar democrático dura mais de 30, ainda que não saibamos hoje, até quando as precárias instituições da democracia, se manterão para impedir sua completa derrocada.

A vítima dessa vez da tortura e dos maus tratos físicos num quartinho dos fundos por dois covardes, foi um adolescente de rua, órfão de pai e de família destroçada pela miséria e pelas drogas. Nem o seu nome sabemos, o que expõe para os violentos e perversos que hoje ocupam o poder central do país, a condição de ninguém. Não ser humano, assim mesmo, da mesma e exata forma  e com o mesmo status atribuído aos negros durante o escravismo: ninguém.

Em agosto de 2.009, há 10 anos, o negro da vez, foi outro: bem mais visível, com nome, sobrenome e carteira assinada na condição de funcionário da maior Universidade da América Latina – a Universidade de S. Paulo (USP).

Januário Alves de Santana também foi levado para um quartinho (no caso um corredor) nas dependências da loja do Carrefour, da Avenida dos Autonomistas, em Osasco, e lá foi brutalmente espancado, a socos,, chutes e coronhadas por cerca de 30 minutos. O crime de que era suspeito, não era o roubo de uma barra de chocolates como agora; era o de estar puxando carros no estacionamento da loja.

Só havia um detalhe: o carro - um EcoSport, comprado em 72 prestações - era dele, como comprovado ficou, e a suspeição só tinha uma razão: ele é negro. E, claro, para este Brasil racista e violento o negro é e será sempre o suspeito padrão.

No caso do Carrefour, a empresa, pressionada pela repercussão na opinião pública, indenizou Santana, por meio de um acordo extra-judicial.

Porém, o Estado, por intermédio do Poder Judiciário brasileiro demonstrou que a impunidade é – como tem sido – sempre o prêmio dos covardes e violentos que atacam negros, os mais vulneráveis dentre os mais pobres. Os seis algozes de Januário, foram, primeiro absolvidos pela 2ª Vara Criminal de Osasco.

A decisão seria posteriormente, confirmada pelo Tribunal de Justiça de S. Paulo, com a participação na relatoria do processo do mesmo desembargador que inocentou os 74 policiais militares que atuaram no massacre do Carandiru, alegando não ter havido masssacre, mas "legítima defesa”. No episódio 111 presos mortos como mosca, "abatidos", como agora prega um outro violento, no Rio – o governador Witzel. Também, no caso do Carandiru, 70% deles, negros, como Januário e como o adolescente agora alvo da tortura.

O padrão é o mesmo e os personagens – algozes e vítimas – também.

A pergunta é: até quando, nós, que fazemos parte dessa imensa maioria, humilhada diariamente, torturada e sem direitos, vamos deixar a passividade bovina para exercer o direito à legítima defesa.

 

 


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