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A ação brutal de dois assassinos covardes contra um homem negro
20/11/2020
Seguranças de loja Carrefour espancam homem negro até a morte em P. Alegre
Da Redação, com informações das Agências

Porto Alegre/SP - João Alberto Silveira de Freitas, 40 anos, foi espancado até a morte por seguranças de uma loja do Carrefour no bairro Passo D’Areia, Zona Norte de Porto Alegre, nesta quinta-feira (19/11) – véspera do Dia Nacional da Consciência Negra. Beto, como era chamado pelos amigos estava acompanhado da mulher e foi ao Carrefour fazer compras.

O caso guarda semelhanças com o que ocorreu no dia 07 de agosto de 2.009 com o vigilante da USP – Januário Alves de Santana – tomado por suspeito do roubo do seu próprio carro – um EcoSport – e torturado por seis seguranças por quase meia hora. Santana, que também estava acompanhado da mulher e dois filhos menores, teve fraturas graves na face que o obrigaram a passar por cirurgia. Beto, porém, não teve a mesma “sorte”. 

Veja as imagens fortes no vídeo:

https://youtu.be/zkPAkrfLmlE

Também lembra o assassinato de George Floyd, o homem negro norte-americano estrangulado por um policial branco, em Minneapolis, no dia 25 de maio deste ano, e que desencadeou uma revolta negra e antirracista sem precedentes nos EUA, obrigando alguns Estados a decretar toque de recolher diante da onda de protestos.

Uma ambulância do Samu foi chamada e tentou reanimá-lo, mas ele não resistiu. Enquanto era espancado brutalmente pessoas próximas pediam para que as agressões parassem. “Não pararam. A gente gritava “tão matando o cara”, mas continuaram até ele parar de respirar”, contou uma testemunha do crime.

ASSASSINATO

Os dois assassinos, que vestiam uma roupa preta de segurança, tem 24 e 30 anos, respectivamente. Um deles é policial militar e fazia bico. O outro pertence a empresa de segurança que presta serviços ao Carrefour. Os dois estão tendo o benefício de ter seus nomes mantidos em sigilo pelas autoridades de segurança com a cobertura da mídia.

O anonimato vem sendo a senha para a impunidade. No caso do vigilante da USP, só  repercussão e os protestos fizeram com que os algozes tivessem seus nomes revelados e fôssem processados por tortura motivada por discriminação racial. Todos, porém, foram absolvidos, em primeira instância pela Justiça de Osasco, e pelo Tribunal de Justiça de S. Paulo.

Enquanto era espancado, uma mulher, aparentemente funcionária da empresa filmava a cena de tortura com o celular e deve ser denunciada como cúmplice do homicídio.

De acordo com testemunhas, o motivo do assassinato brutal foi uma discussão banal ocorrida no caixa. A vítima foi seguida para fora do estabelecimento e covardemente espancado e morto.

A reação do hipermercado é a padrão nestes casos: lamentar “profundamente o caso, informar que  iniciou “rigorosa apuração interna” e que tomou providências para que os responsáveis "sejam punidos legalmente". O Carrefour também anunciou o rompimento do contrato com a empresa de segurança. Nada diferente do que vem fazendo nestes casos que se repetem com frequência cada vez maior.

No caso Januário, a empresa anunciou uma mudança de protocolos e a implantação de uma política de diversidade, que incluiu treinamento de funcionários. As empresas de segurança que prestam serviços a rede, na sua maioria dirigidas por militares que serviram durante a ditadura militar, porém, mantiveram as práticas de sempre: discriminação cotidiana, violência e agora mortes. As vítimas preferenciais são, claro, os negros e pobres.

O BILIONÁRIO MERCADO DA SEGURANÇA PRIVADA

O mercado de segurança privada, que surge em 1.969 em pleno auge da ditadura militar, tem crescido continuamente. É um dos setores da economia que mais fatura. Estima-se que, entre 2002 e 2015, o faturamento nominal do setor passou de R$ 7 bilhões para R$ 50 bilhões, segundo o IV ESSEG (Estudo do Setor da Segurança Privada) feito pela Federação Nacional de Empresas de Segurança e Transporte de Valores (Fenavist).

O número de empresas também cresceu em torno de 75% entre 2002 e 2016, passando de 1.386 para 2.438 autorizadas a prestar serviços, especialmente com a presença de policiais em seus quadros. Em S. Paulo, por exemplo, cerca de um quarto (23%) das empresas especializadas registradas, tem ou já teve policiais em seu quadro societário, de acordo com dados de um levantamento feito pela Pública com as fichas cadastrais das 476 empresas e cursos de formação da área registrados na Junta Comercial do Estado de S. Paulo (Jucesp) e autorizados pela Polícia Federal.

Há, ainda, um grande número de policiais associados ao enorme setor clandestino da segurança privada. Estima-se que para cada vigilante cadastrado haja outros três atuando na clandestinidade, frequentemente policiais, agentes penitenciários e outros servidores ligados à segurança pública.

 

O número de vigilantes também impressiona. De acordo com os dados da PF – que é, por lei, a responsável pela fiscalização das empresas –, há quase 500 mil vigilantes cadastrados no país. Muito próximo do número de policiais civis e militares em todo o país: 552 mil. Entre 2010 e 2015, a PF emitiu em média 160 mil novas Carteiras Nacionais de Vigilantes (CNVs) por ano. Ainda segundo o órgão, as empresas de segurança privada possuem um arsenal de 248 mil armas e 122 milhões de munições.

 

 


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