9 de Abril de 2020 |
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Ativista negra se declara inocente e acusa justiça seletiva
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19/03/2020
Extermínio estrutural ou genocídio pandêmico: o coronavírus e a população negra
Maria Adelina G. Braglia

Foi Coordenadora do Núcleo de Apoio aos Povos Indígenas, Comunidades Negras e Remanescentes de Quilombos do Pará.

Fui buscar um dado de 2015, no Valor Econômico, porque nada estrutural muda em 5 anos. Vamos lá.

“55,3% dos domicílios em que a pessoa de referência era negra ou parda tinham acesso simultâneo aos serviços de abastecimento de água por rede geral, esgotamento por rede coletora ou pluvial e coleta direta ou indireta de lixo. Entre os domicílios em que a pessoa de referência era branca, esse percentual subia para 71,9%.”

Outra informação pronta, quase imutável, é da rede Criola:

A população negra não é uma população doente”, explica Lúcia Xavier, coordenadora da organização de mulheres negras Criola. “O que acontece é que ela vive com menos qualidade. O grupo é mais vulnerável às doenças porque está sob maior influência dos determinantes sociais de saúde, ou seja, as condições em que uma pessoa vive e trabalha, a insalubridade, as baixas condições sanitárias às quais está submetida, por exemplo. E a soma desses diversos indicadores de vulnerabilidade aumenta também o risco de perder a vida”. Completa essa informação a de que dos brasileiros estritamente vinculados ao SUS, 80% são negros.

Complemento essa “introdução” com essa notícia:

“Recente reportagem no The New York Times, de 07 de março 2020, feita pelo jornalista John Eligon, chamou atenção para o risco do extermínio de populações negras e latinas, sobretudo as mais pobres, em razão da ausência de um atendimento adequado das mesmas pelos nossos sistemas de saúde. É sabido, que os nossos sistemas de saúde devolvem para a população negra um tratamento não-isonômico, ao qual podemos definir como uma das manifestações necropolíticas do racismo institucional. Assim, podemos definir o racismo institucional como práticas não isonômicas realizados pelos Estados onde a população negra se faz presente, especialmente na política institucional dos órgãos, entidades e serviços delegados de saúde.”

Não é preciso muito mais do que isso para prever o que advirá do descontrole e do esgotamento do sistema público de saúde num governo gerido por um canalha. Racista, homofóbico, desqualificado, fruto dos interesses espúrios de segmentos da sociedade, resultado da ascensão da milícia como forma de poder, Bolsonaro veio para matar. Literalmente.

Começou assassinando lutas e direitos e agora demonstra seu pouco apreço à vida, seja desmentindo a gravidade da pandemia, seja afrontando as medidas propostas contra ela. Não há nada que mude esse quadro, a não ser a ação direta do vírus contra esse virus da maldade! Ainda assim, não sonhamos que o bolsonarismo é fruto da desmedida loucura de um homem, certo? É maior e mais fundo do que isso.

Gostaria de ser especialista em alguma coisa, para contribuir efetivamente com soluções. Mas, não sou. Leio virologistas recomendando testes massivos e todas as boas recomendações para não sairmos de casa. E nada disso responderá pela preservação da saúde e a proteção da população negra nessa pandemia.

Homens, mulheres e jovens negros  sairão de casa todos os dias, enfrentarão o transporte público lotado, as aglomerações das plataformas de metro e de ônibus. Não terão prioridade nos testes massivos, caso ocorram. A cada escola fechada, dezenas de crianças negras e pobres – eufemismo no Brasil real -  ficarão sem a merenda escolar.

Não tenho insígnias para propor e não sei responder ao texto que nomeei. Mas, não suportava mais não falar sobre isso. Não consigo das aval à cumplicidade.

 

 


"Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Afropress não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo."
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