No dia 27 de março próximo passado, eu e minha equipe estreamos no Festival de Curitiba, na Mostra paralela Fringe o espetáculo "Jean", baseado na vida do pintor negro Jean Michel Basquiat. Estrear no Dia Mundial do Teatro, no maior festival de teatro do Brasil, em sua mostra paralela, com um espetáculo que reverencia justamente um artista que inventou-se à margem, é um ato, uma decisão política.

Por isso, não posso, não vou aceitar a invisibilidade, a segregação e o silenciamento em referência a este trabalho. Não posso evocar Basquiat no palco e fingir que "the same old shit" não está acontecendo. Não devo permitir!

Basquiat, em seus quadros fez denúncias, provocações, mas, principalmente, levantou reflexões sobre a "viciada e monocromática" cena artística. Por isso questiono e proponho um debate aberto sobre a invisibilidade, segregação e o silenciamento em relação a este trabalho e de tantos outros artistas marginais.

Fui convidado para uma coletiva de imprensa, falei com jornalistas a respeito deste espetáculo, desta pesquisa, da ousadia de vir da Alemanha por conta própria para esta Mostra. De me bancar, bancar meu sonho, bancar contar a vida desse jovem negro, que sai das ruas e torna-se referência mundial no campo das artes. Isso não interessa?

Um ator negro, radicado na Alemanha, vivendo um pintor americano que fala da importância da preservação da vida. Isso não interessa?

Os quadros, diários, Raps, de SAMO são na verdade o grito de muitos jovens que são massacrados, iludidos, usados, e não falo apenas de jovens do Brooklyn, mas sim de Berlim, da Baixada Fluminense; jovens negros que, quando respondem aos clichês, são usados e logo em seguida, cuspidos, descartados.

Questiono se abafar, não repercutir "Jean" é uma questão de ignorância, de quem seja Basquiat, pode ser. Pergunto também se é porque trato em cena de um personagem negro ou simplesmente porque não enxergam a importância cultural desta figura. A razão seria porque a imprensa não se atualizar culturalmente? Ou Porque o grafite na história cultural contemporânea não interessa?

Basquiat grita, sangra nas suas telas, eu grito, sangro no teatro e no palco. Sangro apagado do 25º Festival de Teatro de Curitiba. Quantos Basquiats ainda hão de sangrar até o final do Festival?

Alex Mello