Durante duas horas, na semana passada (19/03), José Jorge falou para dezenas de estudantes do Centro de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e também professores da instituição, e fez um histórico da implantação do sistema de cotas no mundo e também como estão sendo desenvolvidas as ações afirmativas na América Latina.
Em abril ele vai à Venezuela, onde pretende conhecer o sistema de universidades implantadas em áreas carentes, política de inclusão desenvolvida pelo presidente Hugo Chávez.
Em entrevista à Afropress, Jorge Jorge fala sobre o papel das universidades no sistema de cotas e chama a atenção para a falta de mobilidade do governo brasileiro em aprovar mecanismos que tornem as cotas uma ação legal. Acusou o Governo Lula de timidez no trato do tema e também fez críticas aos meios de comunicação que, segundo ele, desempenham papel negativo e colaboram para o fortalecimento de uma cultura racista na sociedade.
Veja, na íntegra, a entrevista concedida ao correspondente de Afropress, em Florianópolis, Oscar Henrique Cardoso.
Afropress – Como o senhor está acompanhando os debates em torno da implantação do sistema de cotas na América Latina?
José Jorge de Carvalho – Acho que é um momento de efervescência. O que está acontecendo hoje no Brasil também está ocorrendo em outras nações da América Latina. Na Colômbia, onde tenho ido por várias vezes e estou colaborando no que posso. A Colômbia é o segundo país com a maior população negra da América Latina – tem um programa parecido, com cotas para a população indígena, algo mais avançado que no Brasil. Mas ainda não tem para a população negra. Entre os países andinos, a Bolívia é o mais avançado de todos, pois propõe a interculturalidade, onde as universidades devem ser trilíngües. Abrir o saber acadêmico é abrir a universidade para os povos que não são europeus. A discussão das cotas está atravessando o continente todo, já que está aliada a democratização do nosso país e também de toda a América Latina.
Afropress – Como o senhor analisa a posição do governo brasileiro frente aos debates que surgem nas universidades?
José Jorge – O Governo está tímido demais. As universidades começaram, se adiantaram. Desde 2004 estamos em discussão com o Governo Lula, que preparou um decreto e depois retirou. Passam vários ministros da Educação e nenhum se posiciona com veemência, nenhum dá as caras para defender o sistema de cotas. Acho que a pressão também tem que ser em torno do Executivo. Já estava na hora de essa questão ser resolvida federalmente.
Afropress – Isso se dá também pelo fato de o sistema não ter virado Lei?
José Jorge – A timidez do Governo está em não colocar a Lei. Por outro lado, o próprio ministro da Educação também não incentiva as universidades. Até agora, os reitores das universidades que são contra as cotas não sofreram nenhum ônus. Eles decidem assim, tipo UFRJ e UFMG. Eles não sofrem nenhuma conseqüência em deixar os negros do lado de fora. O Ministério da Educação (MEC) poderia fazer o seguinte: as universidades que têm cotas terão apoios. E as universidades que se recusam a se abrir para estudantes
negros não terão apoios. Isso pode ser uma sinalização de fora.* *
Afropress – Se fala em ingresso de estudantes negros nas universidades.. mas o que se fala quando se trata de mantê-los nas vagas que conseguiram ocupar?
José Jorge – Bom aí entra o MEC. O MEC tem que ter uma linha específica de apoio aos cotistas. Isso tem que ser compreendido como um esforço nacional, uma mudança radical do sistema educacional brasileiro. Tem que ser organizado de cima para baixo. Tem que se pensar em apoiar a comunidade negra que ficou do lado de fora.
Afropress – De que forma se pode avaliar o papel da mídia diante ao processo de implantação do sistema de cotas?
José Jorge – A mídia é controlada por um grupo de pessoas que são contrárias as cotas. De 10 matérias que saem, três são a favor. É muito centralizada nas opiniões contrárias as cotas, que vem da UFRJ, da USP, Folha de São Paulo, TV Globo. As opiniões sempre ficam conectadas e concentradas na mão daqueles que são contrários ao sistema.

José Jorge, em entrevista ao correspondente de Afropress, em Florianópolis, jornalista Oscar Henrique Cardoso