Excetuando-se aqueles que, cinicamente, ainda ousam afirmar que os problemas do Brasil passam ao largo deste tema, fato é que deixar de reconhecer a importância das relações étnico-raciais é um erro imperdoável para quem quer discutir a sério as mazelas do país.
Se alguns anos atrás o Movimento Negro ia às ruas afirmar a auto-estima da população negra e denunciar o mito da democracia racial, hoje vai às ruas para exigir, peremptoriamente, que ações efetivas sejam levadas a cabo de forma a combater as desigualdades sócio-econômicas geradas pelo racismo no Brasil.
O mês de novembro de 2005 entra para a história como o mês em que foi realizada em Brasília uma marcha mobilizando mais de 10 mil militantes de todo o país. Isso já havia ocorrido 10 anos atrás com um número muito maior de pessoas, mas pela primeira vez a militância negra se viu por sua “própria conta”. Sem apoios e sem bandeiras partidárias, sindicais ou de qualquer outro tipo que não apenas os da militância negra.
A Marcha Zumbi +10 – Contra o Racismo e Pelo Direito à Vida, cumpriu o papel de denunciar, no documento intitulado Manifesto à Nação, que foi entregue diretamente ao presidente Luis Inácio Lula da Silva:
* a insuficiência das iniciativas de combate ao racismo e à discriminação por parte do Estado Brasileiro;
* o não reconhecimento por parte dos segmentos hegemônicos da sociedade brasileira, do racismo como questão estrutural que organiza as relações sociais no país;
* a incapacidade das instituições de reconhecer – por omissão ou resistência à mudança de mentalidade e atitudes – que praticam preconceito, discriminação e racismo contra homens e mulheres afro-descendentes;
* a recusa dos segmentos formadores de opinião de reconhecer os movimentos negros enquanto interlocutores e atores na construção dos mecanismos de superação do racismo e das desigualdades raciais.
Além disso apontou como questões estruturais desse racismo à brasileira o assassínio em massa da juventude negra, as mortes evitáveis de homens, crianças e mulheres negras, o trabalho precário e desemprego, a exclusão educacional, a intolerância religiosa e a violação de direitos culturais, a não titulação das comunidades quilombolas, a situação das mulheres negras.
Para não cair apenas na denúncia pela denúncia a Marcha Zumbi +10 – Contra o Racismo e Pelo Direito à Vida, cumpriu o papel responsável de apresentar soluções para estes problemas.
O trecho do documento intitulado “O Custo do Racismo” aponta que investimentos de: R$ 22,2 bilhões em educação, R$ 37,4 bilhões em habitação e R$ 7,6 bilhões em saneamento, se não resolvem todos os problemas, como de fato, não resolvem, pelo menos serviriam para diminuir o nível de desigualdade entre negros e brancos nesses três aspectos.
Uma nova agenda emergencial
Uma das questões que aparece com força tanto no documento quanto na Marcha em si é a pauta da juventude negra urbana. Não há dúvida que o nível de morte de jovens negros (principalmente homens) têm sido uma das mais visíveis tragédias que se abatem sobre a população negra brasileira.
No Manifesto à Nação é dito que:
“O Brasil possui um dos mais altos índices de homicídios entre a população jovem do mundo e, em todos os estados da federação, os jovens negros são as principais vítimas (Unesco, 2004). A crueza dos números não permite evasivas nem subterfúgios: o Brasil é um país que mata negros. A cada 100 mil habitantes, 30,3 brancos morrem por homicídio, enquanto o número de negros é de 68,5 – uma diferença de 74% entre as raças. (Mapa da violência IV: os jovens do Brasil, Unesco, 2004). Principais vítimas da violência urbana, alvo predileto dos homicidas e da ação policial do Estado brasileiro, os jovens negros são objeto de uma política de extermínio.”
Os jovens presentes à Marcha – por sinal em número extremamente significativo – afirmaram em vários momentos a emergência desta nova pauta e, num rap feito pela campanha “Reaja”, de Salvador, afirmavam: “Reaja ou será morto. Reaja ou será morta”.
A Marcha Zumbi +10 – Contra o Racismo e Pelo Direito à Vida, cumpriu seu papel de, mais uma vez, pelas vias institucionais e democráticas, apresentar ao Estado brasileiro os problemas e as possíveis formas de resolução dos mesmos. No entanto, ao clamor dos jovens negros e à agenda do Movimento Negro como um todo o que se vê é um silêncio retumbante, tanto por parte do Estado, como por parte da sociedade.
O que os jovens estão dizendo é que não dá mais. Não dá mais para morrer. Não dá mais para ficar fora das escolas e das universidades. Não dá mais para permanecer no sub-emprego. Enfim, não dá mais, é necessário reagir para que não mais se morra. E o que a Marcha concordou com essa juventude é que é cada vez mais urgente que o Estado e a sociedade brasileira busquem, junto com o Movimento Negro, resoluções efetivas para os problemas concretos. Chega de simbolismos, chega de cartas de boas intenções. Enquanto se faz discurso, nossos meninos e meninas estão sendo mortos e isso não aceitaremos mais.
“Reaja ou será morto. Reaja ou será morta”, eis a nova palavra de ordem.

Márcio Alexandre Martins Gualberto