O racismo como fator estruturante dessa situação de desigualdade precisa ser erradicado para que se possa falar em democracia, justiça e outras belas palavras, ainda muito distantes da realidade de milhões de negros e negras brasileiras.
A história da resistência à opressão e a negação de direitos, vem se dando ao longo dos séculos no cotidiano do povo negro; nas suas manifestações culturais – do hip hop ao carnaval -, nas religiões de matriz africana – desde sempre reduto da resistência à tentativa de destruição de nossa identidade como seres humanos -; no futebol, nas Escolas de samba. Nossa história e a nossa própria existência podem ser traduzidas numa palavra: Resistência!
A redescoberta das mais de 4 mil comunidades de remanescentes de quilombos espalhadas por todos os Estados são a prova de que a idéia de passividade presente na historiografia oficial é falsa, tanto quanto é falso o mito da democracia racial ou do racismo cordial brasileiro que celebra a nossa presença, desde que nos conformemos ao círculo de giz que já vem traçado, a definir o nosso espaço e lugar: o da invisibilidade e da subalternidade.
A Marcha Zumbi + 10 pela Cidadania e pela Vida, marcada para daqui a um mês,tem o sentido e o significado não apenas de afirmação da identidade histórica herdada dos nossos ancestrais e forjada ao longo de séculos. É também o momento de nos levantarmos não como um ou dois, mas como milhões – a legião de excluídos, deserdados e discriminados da terra Brasil – para dizermos ao Estado Brasileiro que jamais aceitaremos o confinamento ao espaço que a elite branca racista nos reserva.
Nosso diálogo não é com o Governo ou com Governos – sejam de que Partidos forem -, mas com um Estado, que durante cinco séculos, nos usou, primeiro como mão de obra escrava, e hoje nos usa como exército de reserva; um Estado que preserva o racismo em suas instituições, que alimenta e reproduz nas suas práticas e políticas a exclusão, que é a sua marca.
Temos agenda própria, que não pode estar atrelada, nem subordinada a agenda de Partidos, nem de Governos, todos passageiros e transitórios, todos – de direita, de esquerda ou de centro – com um passivo secular em relação à população negra, nunca resgatado.
Daí porque, a disputa em torno de datas para a realização da Marcha Zumbi + 10 não pode se transformar numa guerra de egos de lideranças em busca de espaço político para seus projetos, que até podem ser legítimos; não pode significar a superposição da agenda de Partidos e ou de Governo sobre a nossa própria agenda; não pode servir aos que torcem pela nossa divisão e alimentam disputas menores para fragilizar e enfraquecer a nossa luta.
O movimento social negro – o mais antigo movimento de resistência do povo brasileiro contra a opressão – é, por natureza, democrático e plural. Nele estão presentes e representadas as várias correntes políticas e ideológicas. É nesta pluralidade que devemos buscar os pontos de convergência para a conquista da máxima unidade, indispensável para a vitória contra o racismo.
Devemos compreender que a construção de uma frente anti-racista não pode ser feita enquanto continuarmos presos a uma concepção de gueto, que nos isola e fragmenta; e que temos aliados em todos os segmentos e camadas – que podem ser ganhos se tivermos a capacidade e a generosidade de costurar as bandeiras do anti-racismo com o humanismo; da liberdade com justiça; da democracia traduzida em acesso à Educação, mercado de trabalho, Saúde e aos direitos plenos da cidadania.
Nossos irmãos e parentes indígenas – vítimas do genocídio que perdura por cinco séculos até os dias de hoje – são aliados naturais; os demais setores da sociedade atingidos pelo preconceito da pobreza ou vítimas históricas de discriminação, igualmente parceiros no combate à ignomínia do racismo e da discriminação – causa que temos o dever de honrar em memória dos nossos ancestrais.
É fundamental, contudo, que não se perca de vista que o pressuposto para a construção da unidade em torno de um Programa capaz de unir – da Academia à Periferia – os 84 milhões de afrodescentes brasileiros é que tenhamos a nossa própria agenda.
A tentativa de dividir a Marcha abertamente patrocinada por setores do Governo, sua base e setores aliados, com a marcação de uma outra data para o protesto, bem como a resistência ao diálogo que poderia servir para resolver divergências entre as lideranças, revelam que mais do que nunca o caminho é o da independência.
A Afropress – Agência Afroétnica de Notícias – projeto de Comunicação focado na temática racial e étnica da ONG ABC sem Racismo -, seguirá sendo um espaço plural aberto à defesa das diferentes teses e posições das articulações para a Marcha. Temos demonstrado isso na linha editorial da nossa cobertura.
Contudo, a Marcha a qual nos somamos é aquela que – independente das divergências entre seus articuladores – melhor representa uma postura de autonomia do Movimento Negro em relação ao Governo e aos Partidos – a Marcha Zumbi + 10, marcada para o dia 16 de novembro que reunirá milhares de negros e negras de todo o país. Marchamos para dizer ao Estado brasileiro: temos a nossa própria agenda e não aceitamos mais a condição de sub-cidadãos (ãs) a que estamos relegados há séculos.