Pestana, que acaba de lançar seu trabalho mais recente – “Trabalhando a Diversidade na Cidade de S. Paulo” – iniciativa da Comissão da Diversidade da Secretaria do Trabalho, fala a Afropress sobre o significado do Cartum 20 anos depois.
Afropress – Como é que você começou a abordar o tema da discriminação no mercado de trabalho?
Maurício Pestana – Anteriormente já havia feitos outros cartuns sobre a violência policial, sobre a discriminação nos meios de comunicação e questões ligadas miserabilidade do povo negro em nosso país, mas o tema abordado o racismo no mercado de trabalho surgiu em naquele ano com os ” Três mais Altos da Turma” e posteriormente em uma seleção de cartuns editada na cartilha ” O Negro no Mercado de Trabalho” publicada pelo Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade do Estado de São Paulo na qual tive parceria em textos do historiador Clovis Moura.
Interessante observar que mesmo levando em consideração as varias edições da cartilha durante muitos anos, e a reprodução dos cartuns ali publicado, este cartum em especial sempre me chamou atenção pela a unanimidade e a identificação que as pessoas invariavelmente tiveram com ele. É das minhas criações, a mais reproduzida dentro e fora do país, contrariando inclusive a minha própria preferência, pois criei viários cartuns que considerei profundos na questão racial como o das duas caveirinhas vizinhas de túmulos que diziam uma pra outra: – Quando eu era vivo detestava Negros e vc. -Eu? Eu era Negro!
Adoro esse cartum, porem ele não tem nem 50% de impa tia com o publico como tem os “Três mais altos da Turma” presença obrigatória em exposições que realizo.
Afropress – A que você atribui o sucesso desse Cartum, mesmo 20 anos depois?
Pestana – É difícil entender seu sucesso, talvez pela simplicidade do humor, ou pela dureza da situação mostrada, ou pela visibilidade que ele consegue dar ao nosso maior inimigo o racismo invisível brasileiro, ou tudo isso junto com uma certa dose de ironia, tristeza e dor.
O certo é que 20 anos após sua publicação ele continua infelizmente vivo, provocando ainda muita discussão provavelmente porque a sociedade brasileira insiste em mantê-lo atual.
Afropress – Fale sobre o seu trabalho mais recente, a Cartilha editada por iniciativa da Comissão da Diversidade da Secretaria do Trabalho.
Pestana – Acredito que a melhor celebração dos 20 anos da publicação deste Cartum foi o lançamento da cartilha “Trabalhando a Diversidade na Cidade de São Paulo” pela Secretaria Municipal do Trabalho, pois nesta publicação o mesmo tema foi tratado, mas com a perspectiva de que somente a valorização da diversidade incluindo outros setores também discriminados poderemos unir forças para conter as ações cada vez mais duras e perversas do racismo e da exclusão brasileira. Se este caminho dará certo, espero não precisarmos de mais 20 para saber.