Vejamos:
a) O ano começou – ou, repetindo: não começou – em fevereiro com um anti-fato, notícia velha, esperada desde que estourou o escândalo do abuso dos cartões corporativos: a demissão da ex-ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas da Igualdade Racial (Seppir), imolada no altar do sacrifício criado pelo escândalo.
É incrível a fixação de certos negros, ocupantes tradicionais dos “puxadinhos” do Estado por se autoimolarem no altar do sacrifício para manter as aparências e salvar os anéis e suas alianças políticas.
Como todos sabemos, até mesmo o fato da demissão era velho; vimos esse filme antes, com outra ministra, também mulher, também negra – a ex-governadora do Rio, Benedita da Silva, exonerada do primeiro Governo Lula, por usar cerca de R$ 4 mil reais de dinheiro público para participar de um culto em Buenos Aires.
b) O ano que passou marcou a volta às gavetas do Estatuto da Igualdade Racial que havia – à duras penas e com muita luta – sido desengavetado durante a histórica mobilização liderada por S. Paulo para a coleta de 100 mil assinaturas entregues aos três Poderes da República.
Incomodados com a pressão das ruas pela aprovação do Estatuto, o deputado Arlindo Chinaglia, que já houvera se indisposto com manifestantes fazendo uso de um “cala à boca” que de tão emblemático fala por si, simplesmente esqueceu os compromissos assumidos em 2.007, quando prometeu pautar e votar o Projeto do Estatuto, ainda que o resultado fosse sua rejeição. Para isso contou com a inestimável ajuda dos representantes negros no Congresso, liderados por parlamentares do PT que, em face da ausência de interesse de outros partidos pelo tema, decidiu que o melhor mesmo era monopolizá-lo.
c) Os 120 anos da Abolição também passaram quase despercebidos. Não fosse por uma ou outra iniciativa isolada ninguém teria notado que há 120 anos o Brasil prometia entrar na modernidade capitalista aderindo ao regime de trabalho assalariado e abolindo a escravidão. Os 100 anos da imigração japonesa ganharam, de lavada, em espaço na mídia e em visibilidade, inclusive com iniciativas e por uma agenda oficial adotada pelo Estado brasileiro, com direito a lançamento de selos pelos Correios e tudo o mais.
No final do ano, já às vésperas do recesso parlamentar, parlamentares resolveram lembrar-se do tema e prestar “uma homenagem” aos negros brasileiros, agilizando a votação do projeto 73/99, que cria cotas nas universidades e escolas técnicas federais, na proporção da representação de negros e indígenas em cada Estado da federação. Escolheram, claro, o 20 de novembro – Dia Nacional da Consciência Negra – para a homenagem. É estranha a fixação que essa gente tem por “homenagens” a nós, quando o que queremos é Justiça.
A Emenda saiu pior que o soneto, porque o deputado e ex-ministro de educação tucano Paulo Renato, resolveu introduzir o critério de renda, transformando o projeto em um grande imbróglio capaz de unir os senadores Demóstenes Torres, de Goiás, que não vê razão para discutir temas tão espinhosos e incômodos como racismo e discriminação, com a nova passionária das cotas, a senadora catarinense Ideli Salvatti que, de repente, descobriu-se negra desde criancinha.
Resultado: o projeto das cotas também voltou para onde dorme há nove anos – as gavetas do Congresso.
d) Ainda em novembro, a manifestação na Avenida Paulista, no 20, que vinha reunindo em torno de 20 mil pessoas para celebrar Zumbi e as bandeiras históricas, ao juntar duas manifestações numa só – A Marcha da Consciência e a Parada Negra – deu um passo atrás. A Parada Negra não aconteceu; não foi promovida este ano porque seus organizadores se recusarem a expor publicamente fraturas e a passar pelos constrangimentos do ano anterior, impostos por uma minoria de negros que se julga dona do Movimento apenas porque milita num Partido e é mais ou menos articulado, o que, em tradução livre e no bom português significa: ter espaço no “puxadinho” do Partido, no Estado ou na Academia, ou então em alguma empresa de consultoria especializada em políticas públicas para negros e diversidade que, por puro marketing usa o nome fantasia de “organização negra”.
Resultado: a Folha de S. Paulo e outros grandes jornais que, nos anos anteriores registraram 20 mil pessoas na Paulista, em 2.008 fizeram o registro de apenas dois mil manifestantes, o que, convenhamos, é muito pouco para uma cidade que é a maior cidade negra do mundo fora da África, com 3,8 milhões de afro-brasileiros. Se já tivéssemos maturidade para aprender lições com a realidade, não seria difícil tirar do episódio pelo menos uma: sectarismo, autoritarismo de alguns poucos que se pretendem neo-feitores pós-modernos, não é o caminho para construirmos um movimento negro com capacidade de influenciar na agenda política do país.
e) Em 2008 também não aconteceu nada do que prometiam os “donos” do Movimento Negro, que anunciavam nestes 120 anos de Abolição inacabada, recolher 1,3 milhões de assinaturas para emendas de reparação, marcha de 100 mil à Brasília, assembléias massivas e democráticas no Congresso Nacional de Negros e Negras etc, etc. etc. Faltaram coletas, marcha, assembléias, e sobrou conchavo de bastidor, intrigas, busca voraz por poder, briga de foice no escuro, mas isso já é outra história, matéria de jornalismo investigativo a espera de um autor.
Para não dizer que não falei de flores, registre-se o avanço do número de cidades que, por iniciativa de suas Câmaras Municipais passaram a celebrar o 20 de Novembro como feriado municipal, que já chegam a 360 dos 5.564 municípios brasileiros, e o aumento do número de Universidades que, por decisão de seus Conselhos Universitários adotaram ações afirmativas e, em muitas delas, cotas para negros e indígenas – que já chegam a 60 instituições.
Nos dois casos não é possível deixar sem registro que, tanto nas Câmaras Municipais, quanto nos Conselhos Universitários, a presença negra é quase insignificante, o que diz muito, sobre a importância da construção de um Movimento Social Negro que tenha a capacidade de compreender que a luta real pela igualdade no Brasil passa pelo rompimento dos muros, dos guetos e pela consolidação de alianças cada vez mais fortes e sólidas com amplos setores não negros da sociedade.
Em tempo: Evitando cansá-los com excesso de pessimismo, mas impossível não registrar que 2009 começou muito mal para nós, todos os que lutamos por Igualdade e Justiça, ao menos por dois fatos: a) o massacre criminoso de 1,5 milhão de palestinos em Gaza pelo Exército israelense com a proteção e o silêncio cúmplice da ONU e da comunidade internacional; b) a morte, logo no dia 1º de janeiro, do poeta negro gaúcho Oliveira Silveira, idealizador do 20 de Novembro dedicado a Zumbi dos Palmares. Quando morre um poeta, o mundo fica mais triste. Descanse em paz, Oliveira Silveira!