Minha origem afetiva, carnal, biológica, visceral foi-se embora desse mundo. Um vazio do tamanho… uma falta… não há palavra para dimensionar o abismo interior e a inexistência da luz naquele momento. Hoje, estranho, quando me vejo pensando que, se eu não sabia que eu era capaz de amar, a minha mãe, tanto assim.
A luz brilha novamente e enxergo com mais intensidade as trilhas, as curvas, as intempéries e os horizontes dos caminhos. Reflito sobre a minha insignificância no mundo, sobre quantos amigos, amigas, amores, afetos, companheiros (as) fui perdendo pela vida afora. Não são tantos, é verdade, mas fazem tanta falta. Há como retroceder no caminho sendo só no mundo? Eles e elas nunca voltarão. O importante é perceber que a angústia de hoje é diferente da melancolia da entrada de 2009. O importante é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos….tão inconstantes…
Sei que nada sei, pensou Sócrates. Assim como os antigos pré-filósofos gregos que, quiçá, beberam da sabedoria milenar africana, eu vou aprendendo com a dor que as perdas geram e sei que as perdas são relativizadas com o tempo. O tempo não passa no espírito, o tempo não para com a vida moderna, o tempo não espera. Com o tempo, o senhor dos caminhos, nós acostumamos com as perdas. Muitas esquecemos. Outras marcam profundamente o nosso ser e o nosso corpo. Com o tempo, aquelas feridas que abrimos em nós mesmos cicatrizam-se e as marcas desaparecem.
Assim como perdemos, da noite para o dia, aqueles que não gostam de nós e passam por nossa vida sugando nossa energia e usurpando da nossa pureza mesmo que não sejamos tão bons assim. Haja coração para dar conta de tanta “maldade”. Nada que é humano me é estranho, filosofou Marx. A mesma mão que reza é a mesma que tortura.
Nesses momentos, a pressão cardiovascular vai ao limite, esgota o corpo, a cabeça agita e a luz some. Só um sopro divino atuando maravilhosamente para oxigenar o cérebro e me reconectar com o mundo reafirmando que a vida persiste e insiste… é a vida … o que é o que é meu irmão… Esses seres que vivem na contramão da nossa estrada, dos nossos amores e afetos, que vivem a nos chatear e incomodar, que vivem solapando nossos projetos, nossas vitórias e pequenas conquistas, merecem que continuemos a lutar a favor da vida, da beleza e arte.
O nosso espírito não considera estes seres vis como perdas. Não podemos e nem queremos considerá-los como perdas, pois eles desaparecem da nossa lembrança assim como vieram… do nada… são fugazes demais para fixar na nossa memória afetiva. A dor que eles provocam transforma-se, instantaneamente, numa enorme alegria. Isso é fantástico…
Porém, há perdas que, dolorosamente, são fincadas em nós por outros seres, dos quais gostamos muito e somos afetivamente e umbilicalmente ligados. Tais perdas nos machucam, talvez, para a eternidade inteira, cujas marcas ficam sulcadas para sempre no tecido da nossa pele. Demoramos a enxergar essas marcas, não às vemos de imediato, pois são raras e quase invisíveis a olho nu.
Sofremos sem saber do que e para que. Essas são as perdas, das quais, não esquecemos nunca, pois elas vão e desaparecem nas brumas, numa espécie de penumbra, depois voltam nas lembranças de tempos felizes. Elas também voltam para nos atormentar e, às vezes, quando isso acontece, queremos esquecê-las, mas não podemos, pois estão incrustadas no fundo da nossa alma, soldadas com aço na história do nosso corpo e cimentam o sentido da nossa existência.
Na entrada de 2010, tomo o pensamento da filósofa judia Hannah Arendt para dialogar comigo mesmo. “O que primeiro solapa e depois destrói as comunidades políticas é a perda do poder e a impotência final: e o poder não pode ser armazenado e mantido em reserva para casos de emergência, como os instrumentos da violência: só existe em sua efetivação. Se não é efetivado, perde-se; e a história está cheia de exemplos de que nem a maior das riquezas materiais pode sanar essa perda. O poder só é efetivado enquanto a palavra e o ato não se divorciam, quando as palavras não são vazias e os atos não são brutais, quando as palavras não são empregadas para velar intenções, mas para revelar realidades, e os atos não são usados para violar e destruir, mas para criar relações e novas realidades”.
É o poder que mantém a existência da esfera pública, o espaço potencial da aparência entre os homens (e mulheres) que agem e falam. (…) O poder é sempre, como diríamos hoje, um potencial de poder, não uma entidade imutável, mensurável e confiável como a força. Enquanto a força é a qualidade natural de um individuo isolado, o poder passa a existir entre os homens quando eles agem juntos, e desaparece no instante em que eles se dispersam.
Devido a essa peculiaridade, que possui em comum com todas as potencialidades que podem ser efetivadas mas nunca inteiramente materializadas, o poder tem espantoso grau de independência de fatores materiais, sejam estes números ou meios. Um grupo de homens relativamente pequeno, mas bem organizados, pode governar, por tempo quase indeterminado, vastos e populosos impérios; a história registra não poucos exemplos de países pequenos e pobres que levam a melhor sobre nações grandes e ricas. (A história de David e Golias só é verdadeira como metáfora: o poder da minoria pode ser superior ao da maioria, mas, na luta entre dois homens, o que decide é a força, não o poder; e a sagacidade, isto é, a força mental, contribui materialmente para o resultado não menos que a força muscular).
Por outro lado, a revolta popular contra governantes materialmente fortes pode gerar um poder praticamente irresistível, mesmo quando se renuncia a violência face a forças materiais vastamente superiores. Dar a isto o nome de “resistência passiva” é, sem dúvida, uma ironia, pois trata-se de um dos meios mais ativos e eficazes de ação já concebidos, uma vez que não se lhe pode opor um combate que termine em vitória ou derrota, mas somente uma chacina em massa das qual o próprio vencedor sairia derrotado e de mãos vazias, visto como ninguém governa os mortos.
O único fator material indispensável para a geração do poder é a convivência entre os homens. Estes só retêm poder quando vivem tão próximo uns dos outros que as potencialidades da ação estão sempre presentes; e, portanto, (…) o que mantém unidas as pessoas depois que passa o momento fugaz da ação (aquilo que hoje chamamos de “organização”) e o que elas, por sua vez, mantém vivo ao permanecerem unidas é o poder.
Todo aquele que, por algum motivo, se isola e não participa dessa convivência, renuncia ao poder e se torna impotente, por maior que seja a sua força e por mais válida que sejam suas razões. (…) Sua única limitação é a existência de outras pessoas, limitação que não é acidental, pois o poder humano corresponde, antes de mais nada, à condição humana da pluralidade (… ) Mas se a violência é capaz de destruir o poder, jamais pode substituí-lo.” (ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de janeiro. Forense Universitária, 1989. 4ª edição, p.p 212-213).
Ou o fato de estar dialogando comigo e com Hannah Arendt significa dialogar com vocês, na medida em que convivemos, portanto, podemos pensar na potencialidade do poder. Será que meu pensamento vincula-se a uma estratégia de poder em 2010. Será que os seres que já esqueci insistirão em atacar a minha carne e sugar o meu sangue. O nosso sangue. O que o conceito de poder tem a ver com gente, com a mundaneidade da política? Você me quer forte e eu não sou forte mais, me cortaram o corpo – a faca – sem terminar…
Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo. Ela é uma doce ilusão. É o sopro do criador numa atitude repleta de amor. Somos nós que fazemos a vida sempre desejada. Ninguém quer a morte, só saúde e sorte. E a pergunta rola, e a cabeça agita. Eu fico com pureza da resposta das crianças, é bonita, é bonita e é bonita.
“Filosofar é aprender a morrer”…
Saúde, afeto, muita sorte e prosperidade em 2010 para você, é o que eu desejo. Markinhos kardozo.

Marcos Cardoso