Todo dia 25 de março, a ONU celebra em todo o mundo o "Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão". No Brasil, todos os anos impera um silêncio absoluto. Por qual razão, o Brasil se omite nessa data de reflexão humanitária patrocinada pela Organização das Nações Unidas (ONU), órgão criado no fim da 2ª guerra mundial e que teve por inspiração o combate ao racismo e a todo crime de lesa-humanidade, tal como a escravidão humana e que nenhum outro país tem tanto a ver quanto o Brasil?

Os mais de três séculos da perversa escravidão africana no Brasil foi o fato mais significativo dos fatos sociais da nossa história. Sem o recurso a esse crime de lesa-humanidade jamais o colonizador português teria conseguido manter a extensão territorial e a unidade nacional.

A relevância que mais de trezentos anos de sistema escravista demarcaram a nossa própria formatação demográfica, em que mais de 50% dos atuais brasileiros são pretos e pardos, frutos da intensa miscigenação induzida pelo escravismo. Entretanto o estado tem se postado com um notório silêncio sobre a temática "Memória das Vítimas da Escravidão", onde não cabe a omissão estatal.

É preciso educar o povo brasileiro para a nossa plena ciência de que o racismo nasceu da escravidão. Os herdeiros das vítimas, cuja "Memória" se pretende solene, continuam na base da pirâmide social brasileira. Há poucos anos, programas sociais continuados, como o Bolsa Família, tem revelado um pequeno esforço estatal para nos retirar da miséria que a escravidão nos relegou. O racismo, sucessor da escravidão, continua produzindo milhões de vítimas.

Joaquim Nabuco, no livro "O Abolicionismo" (1883) já constatava: o regime perverso degrada a todos. Degrada às vítimas, os escravos, e degrada igualmente ao opressor, o senhor. E também sentenciava: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil". 

Não será pelo silêncio do estado que se restabelecerá a dignidade humana de todos os que foram degradados e vilipendiados por mais de três séculos através do crime continuado de lesa-humanidade. Não se faz o tão necessário combate ao racismo com eficácia sem se relembrar de suas origens, suas mazelas e da nossa própria herança da escravidão imposta desde o século 16.

Ao contrário do que muitos ainda acreditam inclusive administradores públicos e políticos em geral, não foi a escravidão que nasceu do racismo. A ideologia do racismo surge apenas a partir de meados do século 18 criando a classificação e a hierarquia racial dos humanos, classificando a "raça negra" como base inferior da pirâmide "racial", portanto, o racismo foi edificado no auge do sistema escravocrata.

Nenhum outro país utilizou tanto e por tantos séculos do trabalho escravo quanto o Brasil. Por séculos fomos os maiores importadores, estimando-se de 7 a 10 milhões de sequestrados na África e conduzidos para os nossos portos, em que mais da metade morreriam entre a captura, embarque, travessia do atlântico e desembarque. Fomos também o último país ocidental a abolir a escravidão. São marcas que deslustram a nossa história e dela, como nação ainda em construção, precisamos nos lembrar e dela nos penitenciar.

Com o silêncio estatal, há muitos que consideram nada ter a ver com essa perversa história, especialmente os filhos da imigração pós-abolição: "nossos antepassados não tiveram escravos", argumentam singelamente. Eles desconsideram e desconhecem que os novos imigrantes encontraram um país já em desenvolvimento, com uma economia pujante e razoável infra-estrutura que viabilizou o rápido desenvolvimento no século 20 – um dos maiores do mundo – e tudo fora edificado pelos únicos trabalhadores que até então foram, por séculos, as vítimas do regime degradante.

Em nome do combate ao racismo é preciso que se conte a trágica história. Para a edificação da dignidade humana de todos que foram degradados como vítimas e como opressores e que ainda hoje se manifesta pelas discriminações e preconceitos contra os descendentes das vítimas da escravidão. Conforme as magistrais aulas de Florestan Fernandes (Raça & Classe) os pretos e pardos foram excluídos no Brasil não em razão da "raça" como muitos pensam. Foram e continuam sendo excluídos por que tinham a cor do ex-escravos. Uma herança que não pode ser omitida.

Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos

Quinta-feira, 28 / março / 2013 by Ascom

Na data em que se relembram as vítimas da escravidão e do comércio transatlântico em todo o mundo, o secretário geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, reflete sobre os fatos históricos ligados à população afrodescendente na diáspora e também nas nações dizimadas e empobrecidas com a retirada de seus braços mais jovens e mais saudáveis e solicita dedicação mundial no compromisso de honrar e restaurar a dignidade das populações afetadas.

A ONU pede que sejam intensificados os esforços para eliminar os resquícios de escravidão que ainda persistem em nosso mundo.

Confira:  http://unicrio.org.br/dia-internacional-em-memoria-das-vitimas-da-escravidao-e-do-comercio-transatlantico-de-escravos-por-ban-ki-moon/  

“O comércio de escravos durou 400 anos e fez mais de 15 milhões de vítimas. Os africanos e as pessoas de ascendência africana foram vítimas desses atos brutais e continuam sofrendo suas consequências.

No Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos, dizemos ao mundo que nunca esqueça este crime contra a humanidade.

Não devemos nunca esquecer as torturas, os estupros e os inocentes assassinados, homens, mulheres e crianças, as famílias que foram separadas, as vidas que foram interrompidas e as horríveis condições nos navios negreiros, nas plantações e nos mercados de escravos. Estas degradações não podem ser enterradas pelo tempo, elas devem ser examinadas e compreendidas.

Ao refletir sobre as consequências desta tragédia contemporânea, vamos lembrar a coragem daqueles que arriscaram tudo pela liberdade e daqueles que os ajudaram nesse caminho perigoso. A sua coragem deve nos inspirar na luta contra as formas contemporâneas de escravidão, o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e a intolerância correlata.

Neste ano, juntamente com a reflexão solene, temos um motivo especial para comemorar. Lembramos os 150 anos desde que Abraham Lincoln libertou milhões de afro-americanos da escravidão.

Este ano marca também outros acontecimentos importantes. Em 1833, a escravidão terminou no Canadá, nas Índias Ocidentais Britânicas e no Cabo da Boa Esperança. Há 170 anos, em 1843, a Lei da Escravatura Indígena foi assinada. A escravidão foi abolida há 165 anos na França, há 160 anos na Argentina, há 150 anos nas ex-colônias holandesas e há 125 anos no Brasil.

Neste dia, comprometamo-nos a honrar e restaurar a dignidade das pessoas afetadas e intensificar os esforços para eliminar os resquícios de escravidão que ainda persistem em nosso mundo.” A) Ban Ki-moon, Secretário Geral da ONU

José Roberto Militão