A ultima semana foi recheada de surpresas para todos os gostos políticos. Depois de 20 anos do "Fora FHC" e do processo de privatizações [que entregou estatais brasileiras para empresários estrangeiros e aos amigos do PSDB ao custo de banana e financiados pelo BNDS]; e há quase 30, das "Jornadas dos caras pintadas", o "Fora Collor", a juventude do meu país volta as ruas para protestar exigindo Tarifa Zero e Passe Livre nos transportes urbanos.

Também cobra o fim da corrupção e melhor uso do dinheiro público para políticas de ganhos sociais permanentes, em benefício de todo o povo. A burguesia e os fascistas se refestelaram na condenação e  ataques à bela festa democrática e cidadã da juventude rebelde, depois travestidos em cordeiros, os aplaudiram.

Vimos a criminalização do movimento por políticos, governantes, emissoras e jornalistas que avaliaram tratar-se de uma manifestação de minoria “dos de baixo” para os quais eles só tem um adjetivo: bandidos!  E uma solução: Polícia! 

Dando-se conta depois de que se tratava da classe média [O Datena, da Band, manipulando para condenar o movimento, foi derrotado ao vivo em uma enquete, onde o dobro do povo apoiou a manifestação “com baderna”] políticos e programas sensacionalistas e os comentaristas dos jornais da noite, mudaram da água para o vinho, demonstrando todo seu oportunismo, ao ponto de alguns ferozes críticos, como Jabor, Datena, Haddad e a presidenta Dilma, voltarem atrás e se transformarem, ao final, em bajuladores do movimento.

Ainda que pese sobre o movimento todo tipo de acusação, ontem no Programa Mesa Redonda da TV Brasil, os entrevistadores do Estadão, Folha e da Globo tentarem intimidar os dois entrevistados do MPL-Movimento Passe Livre, com ameaças de responsabilização judicial pelos atos de “vandalismo”, desobediência civil e resistência à prisão, também foi denunciada a “fabricação da mobilização” por servidores do Palácio do Planalto. O certo é que houve infiltração de provocadores da direita e da policia.

Participou  também o lumpem proletariado, sem alternativa de inclusão e perspectivas de futuro, como haviam aqueles que acreditavam estar em pleno processo da revolução – os quais me nego a classificar como reles baderneiros, simplesmente. Gerações de ditadura, repressão e exclusão parem criaturas de difícil explicação. Temos que compreender e caracterizar o que os movem, porém, a obrigação de  desvendar e explicar o fenômeno é da sociologia e da antropologia.

Sergio Cabral, Tasso Genro, Alckmin, Jacques Wagner e Mercadante, o ministro da Justiça, como toda a direita, condenaram a “baderna dos manifestantes” exigindo obediência e a outra face, negando o direito à legítima defesa aos manifestantes, frente às provocações de iniciativa da própria polícia.  Segundo eles, “devemos apanhar da autoridade [eles], sem nos defender”. Essa turma legitima as práticas policiais de atirar com balas de borracha dentro de automóveis e apartamentos, mirarem a cabeça das pessoas, cegando-as, quebrarem vidros de viaturas e iniciarem o quebra-quebra culpando civis.

Fosse a insatisfação só isso, não seria pouco, mas é muito mais: os brasileiros não aguentam os estádios construídos em localidades sem tradição de futebol, times ou torcidas, ao custo final de centenas de milhões de reais [duas, três vezes mais que o orçado], para agradar políticos ou favorecer empreiteiros contribuintes com campanhas políticas. Com apenas duas rodadas, algumas seleções participantes da Copa das Confederações, reclamam das distâncias e transtornos das viagens para realização dos jogos, e a torcida, da desorganização dos eventos.

Ocorre que alguns desses elefantes brancos, não terão publico que justifique suas construções, nem times, nem torcidas, nem rendas para amortecerem os custos desses monumentos, que depois não se transformarão em hospitais, escolas, creches ou de equipamentos para o esporte, o lazer e a cultura para a maioria. Os mais lucrativos certamente servirão para multiplicar as fortunas dos Eike Batistas, e empresas de familiares, apaniguados e sócios dos políticos.

Parte dos manifestantes reclamam, com razão, da má qualidade dos serviços públicos, da educação, do desmantelamento do atendimento hospitalar do SUS, das péssimas condições do transporte, da brutalidade policial, e dos privilégios concedidos pelo Governo aos empreiteiros, aos ruralistas e agronegócio, bem como das relações conservadoras de intimidade com a bancada evangélica e da direita no congresso, a maioria na base do Governo.

Não bastasse tudo isso, a alta do custo de vida, a inflação, as campanhas consumistas, do crédito que abre e fecha, redução e aumento dos juros, a desindustrialização, a falta de ocupações e emprego para a juventude periférica e da crise financeira internacional que nos bate à porta, enquanto o Governo, preocupa-se com prestígio internacional, fazendo propaganda e discursos fora da realidade para o público doméstico, cercando-se de figuras oportunistas e notóriamente carimbadas pelos desserviços prestados à Nação, preocupados com o próximo processo eleitoral e com os próprios bolsos. 

A brutalidade e violência da polícia, tradicionalmente dirigida aos negros e à população pobre da periferia, tratados como inimigos do Estado, submetidos a um genocídio por uma verdadeira Guerra não declarada, e que vem sendo denunciada e foi precursora da luta solitária do Movimento Negro nas ruas, agora foi experimentada pela classe média, no inicio dessas mobilizações.

Uma guerra não declarada aos negros e pobres, “inimigos da nação”, causada pela tradicional  falta de vontade política das elites e dos políticos em solucionar os grandes problemas de inclusão do povo, e absorção da juventude em um Projeto de Nação que contemple a todos, não apenas às elites e uma pequena classe média branca e mestiça, abandonando os demais nas mãos genocidas das instituições do estado racista e sua polícia.

Por isso, os políticos se fazem de mortos, são coniventes e se omitem quanto à violência e a brutalidade policial é contra os pobres. Finalmente, eles tem que sair da moita, pois a agua bate à bunda das classes médias formadoras de opinião.

Os dados de pesquisa das instituições privadas e estatais, em conluio, comprovaram-se falsas: não há inclusão, mas o aumento da marginalização juvenil, bem como, pela presença dessa geração nas ruas, agora. Nos frequentes assaltos, o pouco valor dado à vida das vitimas, e à própria vida, nos enfrentamentos com uma policia, denotam que esses jovens infratores sabem de antemão, que estão condenados, pois essa é uma policia que mata, longe dos refletores da TV, por isso, optam pelo tudo ou nada, já que não há esperança de uma vida decente.

A desilusão na falta de alternativas e perspectivas no país, em que a ideologia como valor se expressa na exaltação da prosperidade individualista e ao apelo ao consumismo alienante, ambos sem garantias de prazo de validade e continuidade. A solução mais fácil e barata para os políticos, elites e governantes [que historicamente quando não apoiam, lavam as mãos], tem sido a entrega à policia, a tarefa de fazer o serviço sujo, eliminando o problema da pobreza das periferias: a juventude negra, os pobres, os quilombolas, os indígenas, os sem moradia e sem terra, colocando em prática mais uma vez a política do branqueamento como solução final, a higienização social através do genocídio.

Esse é o reflexo de uma elite econômica e política egoista, preocupada exclusivamente com o próprio lucro e com a alternância no poder. A Nação tem jeito, não pelas suas elites econômicas, políticas e militares. Avante brasileiros trabalhadores, brancos, negros, das classes solidárias, corintianos, flamenguistas, são paulinos, vascaínos, palmeirenses, santistas ou fluminenses, de todas as cores, torcidas e credos. O Brasil nos coloca a responsabilidade  de construir uma Nação para todos.

 

Reginaldo Bispo