S. Paulo – Ao contrário da crença de uma parte da esquerda de que a oposição ao golpe militar no Brasil se limitou a setores da classe média branca das cidades, a presença negra no movimento de combate ao regime foi expressiva, segundo reconhecem hoje historiadores, ex-presos políticos e militantes ativos na resistência armada à ditadura.

Segundo Ivan Seixas, ex-preso político e assessor da Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”, criada pela Assembléia Legislativa de S. Paulo, a participação de mulheres e homens negros na resistência deve ser lembrada e reverenciada.

“A participação de homens e mulheres negros foi absolutamente importante dentro da resistência. A quantidade não é o mais importante, mas a qualidade. São pessoas que tiveram um destaque muito grande na luta. São pessoas que a gente deve reverenciar de uma forma muito presente”, afirma Seixas, torturado junto com o pai Joaquim Seixas no Doi-Codi de S. Paulo. Ambos militavam no Movimento Revolucionário Tiradentes, organização clandestina de luta armada contra o regime e Joaquim foi morto no local – considerado hoje um centro de extermínio da polícia política.

Segundo Ivan cerca de 10% das pessoas até hoje desaparecidas eram negras, assim como 11% eram mulheres. “O mito de que foram só brancos os que combateram é uma grande bobagem. Negros, japoneses, descendentes de árabes se destacaram no combate. Os negros tem de ter muito orgulho disso", acrescenta.

Nesta segunda-feira, 31 de março, familiares de mortos e desaparecidos, ex-presos políticos, pesquisadores, ativistas e mais 145 entidades, incluida esta Afropress, promovem, a partir das 9h, na antiga sede do Doi-Codi, atual 36ª Delegacia , na Rua Tutóia, ato “Ditadura nunca mais” para lembrar os 50 anos do golpe militar.

Combatentes

A manifestação vai exigir, entre outras coisas, a localização e identificação dos corpos dos desaparecidos políticos e esclarecimento das circunstâncias e os responsáveis por suas mortes, identificação e punição dos torturadores. Os nomes de cerca de 400 pessoas, que se opuseram ao regime, ainda constam como desaparecidos e seus corpos nunca foram encontrados. 

Seixas destaca o papel de Carlos Marighella, da Ação Libertadora Nacional (ALN), dirigente máximo da organização mais ativa da guerrilha e considerado o inimigo número 1 do regime militar, morto em novembro de 1.969. Marighella (foto ao lado), baiano de Salvador, era filho de um imigrante italiano e de uma negra descendente de escravizados.

Outro nome destacado da resistência negra foi Osvaldo Orlando da Costa, Oswaldão (foto abaixo), comandante militar no do Araguaia, morto em 1.974, no Araguaia, que se tornou uma figura mítica da guerrilha.

Dossiê

Marco Antonio Silva, liderança da Associação dos Marinheiros, Itaí José Veloso, Luiz José da Cunha, o comandante Crioulo, comandante militar da ALN, ao lado de Helenira Resede de Souza Nazareth – a "Preta" Helenira, Ieda Santos Delgado e Alceri Maria Gomes da Silva, gaúcha de Cachoeira do Sul, e militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), são outros nomes que constam do Dossiê Direito à Memória e à Verdade, dedicado “aos descendentes de homens e mulheres que cruzaram o oceano a bordo de navios negreiros e foram mortos na luta conta o regime militar”, editado pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos e pela SEPPIR, em 2.0009.

No caso de Crioulo, 33 anos após ser morto pelos órgãos de segurança em 1.973, sua ossada foi exumada do cemitério Dom Bosco, em Perus, S. Paulo. Seu atestado de óbito dizia ter cor branca, o que foi posteriormente corrigido, após alerta feito ao Ministério Público Federal, responsável pela identificação. Em 2006 foi sepultado no Cemitério Parque das Flores, em Recife.

Momento especial

Segundo Ivan, o Brasil vive hoje um momento muito especial. “Nós já ganhamos a batalha da comunicação. Eles não tem como defender o golpe. No Brasil inteiro mobilizaram mil pessoas nessa versão farsesca da Marcha da Família. Só em S. Paulo, a Marcha antifascista reuniu mais gente. Eles não tem mais condições de defender o golpe”, acrescenta.

Ele ressalta que o trabalho da Comissão da Verdade – que em S. Paulo, é presidida pelo deputado Adriano Diogo – reforçou a necessidade de punições aos torturadores.

Veja o clip dos Racionais MC's – Mil faces de um homem leal – Marighella

http://youtu.be/Q7MOtsjDFUw

Da Redacao