Na entrevista, por e-mail, ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, o cineasta, que é doutor em Ciências da comunicação pela Escola de Comunicações e Arte da Universidade de São Paulo – ECA/USP e fez pós-doutorado no departamento de rádio, TV e cinema e no departamento de antropologia da University of Texas, em Austin, nos Estados Unidos, falou ainda do seu novo filme, dos projetos em que está trabalhando e, claro, da repercussão do bate boca na semana passada, entre o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, e Joaquim Barbosa, o primeiro negro a ocupar uma cadeira no STF em 200 anos de história.
Para Joel Zito, Gilmar Mendes representa os interesses que defende prontamente, “a exemplo de sua agilidade em soltar o Daniel Dantas, e se irrita e choca com o seu grande antagonista, o ministro Joaquim Barbosa, que por sua vez, representa uma nova república, democrática, popular, anti-colonialista e anti-racista”.
Autor de clássicos do cinema negro como “Filhas do Vento” e “A negação do Brasil”, ele é de opinião que o Brasil precisa de heróis. “Aliás, no cinema, em momento de grande tensão, o mocinho sempre rompe as regras para assegurar a justiça, assim como JB fez. Com a sua atuação no supremo, desde o início, ele passou a representar a parte a boa da sociedade, os bons desejos, as boas aspirações, as boas ações, as transformações necessárias para fazer do Brasil uma das melhores nações para se viver no mundo”, concluiu.
Leia, na íntegra, a entrevista do cineasta Joel Zito Araújo.
Afropress – Como analisa o episódio do bate-boca envolvendo os ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, que criou a atual crise vivida pela mais alta instância do Judiciário brasileiro?
Joel Zito Araújo – O episódio revela a existência de dois ministros que estão “pilhados” pelo peso de suas representações e existências naquela casa. Gilmar Mendes representa os interesses que defende prontamente, a exemplo de sua agilidade em soltar o Daniel Dantas, e se irrita e choca com o seu grande antagonista, o ministro Joaquim Barbosa, que por sua vez, representa uma nova república, democrática, popular, anti-colonialista, anti-racista. E, Joaquim Barbosa é a novidade. JB é o melhor que poderíamos esperar do primeiro ministro negro no STF. E, convenhamos, ele dá orgulho e honra para a história e importância do povo na construção da sociedade e da civilização brasileira. Assim como ele dá orgulho para todos os brasileiros que querem refundar o país, mais justo, menos desigual, sem corrupção (veja a sua coragem também no caso do mensalão). Portanto, parece que a existência de um ameaça a existência do outro. E, óbviamente, eu torço pelo fortalecimento do ministro Joaquim Barbosa. Diante de uma casa majoritariamente conservadora, com “ecos da Casa Grande”, como alguém lembrou por aqui, acho que ele estrategicamente buscou se fortalecer no lado de fora da casa, no Brasil, para poder melhor atuar.
Afropress – Você considerou que as afirmações do presidente do STF, Gilmar Mendes, tiveram viés racista?
Joel Zito – Não existe racismo explícito, mas é muito estranha aquela afirmação “”Vc não tem condições de dar lição”. Será que esta frase não significa: “Você, negro, vindo dos porões dos navios negreiros, da ralé da sociedade, não tem condições de dar lição!”. Tomando em consideração a atuação intransigente e ética de Joaquim Barbosa em tantos julgamentos, é evidente que não é possível interpretar esta frase de outra maneira. Aliás, o comentário que ele tem um temperamento difícil, cada vez mais presente nas entrevistas de alguns ministros do supremo e bastante enfatizado pela imprensa é algo bastante conhecido por todos nós. Só faltam dizer que ele é complexado e ressentido.
Afropress – Como está avaliando a repercussão do episódio, com pessoas na rua cumprimentando o ministro Joaquim, como aconteceu na última sexta-feira (24/04), no Rio?
Joel Zito – O Brasil precisa de heróis, aliás todas as sociedades precisam de heróis, como bem demonstra o mitólogo norte-americano Joseph Campbell no seu livro “A Jornada do Herói”. Falando em cinemês, temos neste episódio a configuração clara de quem é o vilão e quem é o mocinho naquela casa. Aliás, no cinema, em momento de grande tensão, o mocinho sempre rompe as regras para assegurar a justiça, assim como JB fez. Com a sua atuação no supremo, desde o início, ele passou a representar a parte a boa da sociedade, os bons desejos, as boas aspirações, as boas ações, as transformações necessárias para fazer do Brasil uma das melhores nações para se viver no mundo.
Afropress – Você está trabalhando em algum novo projeto? Quando lança o próximo filme?
Joel Zito – Estou com dois roteiros ficcionais prontos (uma história que tem a escola de samba Vai-Vai como contexto e cenário e uma outra que liga o antropólogo Lévi-Strauss, ao povo índio e negro no Mato Grosso nos anos 30). Mas, tá difícil levantar dinheiro. Tô naquela fase chata de andar de pires na mão, procurando financiamento. A boa novidade é que lanço comercialmente nas salas de cinema o meu novo filme “Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado”, sobre a mulher e a criança negra e o turismo sexual, a partir do próximo dia dia 18 de maio. Começaremos por 7 capitais (BH, Porto Alegre, Brasília, Salvador, Recife, Fortaleza e Belém). Depois faremos São Paulo, Rio de Janeiro e mais outras 5 cidades (possivelmente, Natal, Manaus, Cuiabá, Santos e Vitória). O filme começa com pré-estreias no dia nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra a Criança e o Adolescente. Portanto, além do apoio do Comitê Nacional dedicado ao tema, estaremos lançando em cada capital com a participação das entidades voltadas para a luta contra a exploração sexual infantil. Serão eventos muitos interessantes. Todas as entidades negras estão convidadas.
Afropress – Como viu a entrega da Relatoria na Conferência de Revisão de Durban a um não negro, quando o Brasil tem essa posição justamente por ser o país com maior população negra do mundo fora da África?
Joel Zito – Eu li aqui, na Afropress, a ótima entrevista que vocês fizeram com o José Jorge de Carvalho. Eu assino embaixo em tudo que ele falou. É uma entrevista que recomendo. Uma análise lúcida, de alguém que acompanha o tema com muita acuidade. Ele sempre foi um grande parceiro.
Afropress – Como está avaliando a Seppir, com o ministro Edson Santos?
Joel Zito – Ainda não estou avaliando, mas percebo esforço e vontade de acertar. Não acho legal compará-lo com a injustiçada ex-ministra Matilde, são líderes diferentes, mas cada um à sua maneira estão voltados para a população negra. Não podemos perder de vista, que é uma secretaria-ministério de governo, e não das entidades. Acho que muitas vezes cometemos injustiça nas críticas por não perceber isso. Devemos pressioná-los, ficar no pé, mas sem confundir que somos sociedade civil e eles governo.

O cineasta Joel Zito, na entrevista ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.