Primeiramente, um mea culpa aos leitores: fiquei afastada desta coluna por uns meses, em função da intensidade de compromissos assumidos, desde a minha recente posse como professora de Psicologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro, o IFRJ (que as pessoas costumam confundir, erroneamente, com a UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Faço parte de um Campus novíssimo, o de Belford Roxo, que terá como primeiro eixo a Economia Criativa (design, moda, empreendedorismo e inovação), logo estamos criando tudo, literalmente, do zero, e levantando nosso prédio do chão. Assumi as disciplinas “Trabalho e Felicidade” e “Cultura, Identidade e Cidadania: Representação e Diversidade”, que fazem parte da formação comum de todos os nossos cursos de formação inicial e continuada (também conhecidos, por alguns, como cursos livres). Futuramente teremos a formação técnica, de graduação e de pós-graduação.

Voltando à nossa coluna. O tema deste artigo é a frequente arrogância de algumas pessoas brancas em lugares de fala empoderados, frente a pessoas negras.

Quantas vezes você, mulher ou homem negro, foi interpelada(o) por alguém, não por acaso branco(a), e geralmente colega de trabalho ou estudos, que lhe interrompeu no meio de uma apresentação sua, seja para “contribuir” com alguma informação que ele(a) considera didática ou “auxiliar” na compreensão do que você está dizendo? Eu já passei muito por isso.

Pra quem não sabe como é a sensação, adianto que ela varia do apequenamento à raiva. Ainda mais quando você sabe do que está falando, domina o conteúdo e a forma de expressá-lo. Isso acontece ao longo da vida, e não importa se você é professor(a) doutor(a) com saber e experiência.

Há gente branca que se acha mentora de pessoas negras, mesmo que estejam tateando uma área na qual é menos capacitada que estas.

A minha análise é que essa prática desagradável tem a ver com o ideário da branquitude na sociedade brasileira, que de modos conscientes e inconscientes, explícitos e implícitos, move pessoas brancas que não costumam refletir profundamente o racismo, a se colocarem no lugar do ser humano que sabe, em detrimento da pessoa negra que, de acordo com a lógica da branquitude, não sabe.

A colusão (prática de atos discriminatórios sem a intenção consciente de discriminar) é uma constante em nossas relações sociais, quaisquer que envolvam integrantes de grupos opressores e de grupos sociais historicamente discriminados.

De forma geral, pessoas brancas com pouco acúmulo nos debates sobre racismo, e que são beneficiadas pela branquitude, tendem a ver essa prática discriminatória como uma ação individual, isolada, e não como a expressão rotineira de uma ideologia que estrutura a sociedade; ao contrário do que ocorre com as pessoas negras, vítimas diretas do preconceito.

Por isso é tão difícil para eles aceitarem críticas, quando se aponta que estão agindo de maneira racista. Para eles, o racista pode parecer um monstro que nada tem a ver com a sua própria natureza.

Não necessariamente o fazem porque sejam “pessoas más”, mas sim porque lhes falta uma compreensão mais complexa do seu lugar privilegiado de fala, tanto quanto uma percepção mais elaborada do estereótipo que aponta negras e negros como incapazes de falar por si mesmos.

Destarte, brancos, evitem a arrogância de uma mentoria que não foi solicitada. Pensem duas vezes antes de tentar “ajudar” ou “fortalecer” pessoas negras, interpelando as nossas falas em público. Até porque há aqueles que ficarão deprimidos e terrivelmente fragilizados, e outros, como eu, que irão responder-lhes mandando ficar quietos.

Jaqueline Gomes de Jesus