Esse artigo não se propõe a apresentar novas informações. Trabalho com as velhas e dolorosas informações, mas sempre acredito que ao agregá-las é possível acordar consciências. Assim, é um desabafo. Assustado. E, espero, que seja assustador.

Não tão silenciosamente, mas sem políticas capazes de contê-la, a violência contra jovens e determinantemente contra jovens negros cresce sem perdão. A estes, além da pena de morte não oficializada, resta a pena de vida, abandonados das oportunidades, e, principalmente, dos direitos: 53% do total de pessoas exterminadas em 2016 eram jovens entre 15 e 29 anos.

A percepção de que a juventude negra é  intencionalmente prevalente deve-se a estatísticas de simples compreensão: num período de dez anos, a taxa de assassinatos de jovens negros cresceu 23%, enquanto a dos não negros regrediu 6,8%. No que se refere às mulheres negras, a taxa de homicídios contra elas foi 71% superior à de mulheres não negras.

São “estatísticas simples” e por trás delas há números espantosos e cada número é uma pessoa. Dados da ONU e do IPEA mostram que “ de cada mil adolescentes brasileiros, quatro vão ser assassinados antes de completar 19 anos. Se nada for feito, serão 43 mil brasileiros, entre os 12 e os 18 anos, mortos de 2015 a 2021, três vezes mais negros do que brancos.”

A isso se deu o nome de violência letal. Sem dúvida é menos desagradável do que assassinato institucionalizado. Mas, desde que se inventou no Brasil eufemismos para esconder vergonhas e “requalificar” o que não conquistamos plenamente – do tipo “justiça social”, “democracia participativa”, “reforma agrária ampla” – desisti de discutir conceitos renomeados. Assim, considero que estamos falando de assassinatos oficiais e não de violência letal. Pelo menos, satisfaço minha vontade.

Do excelente artigo, “Pedagocia da crueldade: racismo e extermínio da juventude negra”, de Nilma Lino e Ana Amélia Laborne, destaco esse trecho:

“Negros e negras sofrem enormes disparidades em diversos setores da vida social. No mercado de trabalho dados recentes divulgados pelo IBGE mostram que negros ganham 59% dos rendimentos de brancos. Além disso, representam 70% da população que vive em situação de extrema pobreza, concentram maiores taxas de analfabetismo do que brancos – 11% entre negros e 5% entre brancos – (PNAD, 2016), além de constituírem mais de 61% da população encarcerada (DEPEN, 2014), embora representem 54% da população (IBGE).

Ou seja, as disparidades e violência ultrapassam o ciclo da juventude. Estão presentes ao longo da vida da população negra. E, considerando a juventude como um ciclo importante na trajetória social e identitária da nossa sociedade é grave a sentença de morte que a perversa articulação entre racismo e vulnerabilidade social impõe a essa parcela da população que, antes, deveria ser muito mais cuidada pela sociedade, Estado e mundo adulto.”

E em se tratando de um governo proto fascista, onde um governador aliado comemora o assassinato de um jovem com visíveis distúrbios emocionais – por favor, não digam que não havia alternativas para imobilização e prisão! – onde as políticas de ações afirmativas são destruídas diariamente,  onde loucos e vigaristas comandam políticas “públicas”, não há esperanças dentro das bolhas. Salvo se elas se juntarem nas ruas e nas praças.

Não consegui localizar o poema inteiro, mas tenho parte dele gravada na minha memória, desde os 16 anos. O autor é Sidônio Muralha, poeta e escritor português. Fecho meu desabafo com o trecho gravado na minha cabeça:

“A caça foi aberta esta semana, é branco o caçador, negro o caçado,

lá onde ninguém sana a luta insana…”

 

Maria Adelina G. Braglia