Primeiro porque como Coordenação Nacional de Entidades Negras (há que se perguntar que coordenação e de que entidades negras) orientar o voto não deveria, necessariamente tomar posição para este ou aquele candidato. Depois porque a realidade atropela os dizeres do documento já que este governo que aí está (o do dólar na cueca, o dos dois milhões de cartilhas não feitas) já retrocedeu na sua posição com relação às cotas (provavelmente com a anuência sorridente da ministra titular da Secretaria que menos recursos, menos projetos e menos visibilidade tem em toda a esplanada).
Eu adoro a frase, se não me engano de Alzira Rufino, quando diz que estamos por nossa própria conta. Ao ver documentos como este isso cada vez mais se confirma para mim.
Além de estarmos por conta própria nós estamos diante de um grande paradoxo que é o seguinte: nós, militância negra e parceiros conseguimos dar imensa visibilidade à temática étnico-racial em nosso país.
Chegamos ao momento de dizer, inclusive que ações devem ser implementadas para combater o racismo, a discriminação racial e o preconceito (ou, como gostam de dizer os modernos governistas: a promoção da igualdade racial – eu detesto este termo). Pois bem, apesar de tudo isso a cada dia para mim se torna claro que estamos carecendo urgentemente de LIDERANÇAS POLÍTICAS.
Destaco em caixa alta porque realmente não as temos. Temos uma grande gama de intelectuais. Homens e mulheres valorosos que com seus escritos e suas pesquisas têm reforçado o argumento da militância e tem construído outros no embate cotidiano com as forças conservadores que relutam em admitir os malefícios da discriminação racial para a sociedade brasileira.
Temos comunicadores, temos militantes, temos estudantes, temos formuladores mas nos faltam as lideranças políticas. Nos faltam mulheres e homens que assumam o embate político e ajudem a transformar este movimento em um movimento de massa.
Não adianta ficar citando aqui uma ou outra personalidade que por acaso é vereador, deputado, senador ou o que for. Efetivamente o Movimento Negro tem imensa dificuldade em construir grandes lideranças políticas.
Para mim a explicação é simples, quando muitos querem ser a mesma coisa ninguém acaba sendo coisa alguma. Como todo mundo que aparece com um textinho, uma tese, ou uma entrevista na TV vira logo liderança do Movimento Negro fica difícil realmente construir lideranças sólidas que de fato liderem.
Aí aparecem casos como estes da CONEN (que eu mesmo já lutei muito para ver como uma real coordenação de entidades negras), onde, de fato o que está em defesa são interesses particulares e não os interesses reais do Movimento Negro, porque, se coragem houvesse, se compromisso e liderança política realmente houvesse, este povo estaria era cobrando do Lula e do seu comando de campanha uma posição firme e “clara” sobre as propostas de ações afirmativas que estão circulando, e não dizendo “sim sinhô” com tanta alegria, como vemos na novela das seis e na posição da tchurma.
Desculpem o desabafo logo pela manhã mas eu estou muito cansado. Tenho 35 anos, mas estou na militância desde os 12 e cansei de ver gente oportunista tratando a questão racial como militância profissional. Acho que todos têm que se dar bem e ganhar dinheiro mas não a custas de um movimento que precisa ser extremamente sério.
Espero francamente que lideranças políticas surjam, pois o embate que está vindo é forte e além de lutarmos uma guerra insana à frente teremos o tempo todo que combater o fogo amigo dentro de nossas próprias hostes.

Marcio Alexandre M. Gualberto