Trinta anos após a redemocratização e depois de 13 anos de governos que se apresentam como de esquerda (apesar de todas as evidências em contrário), é impossível não constatar por ocasião das celebrações de mais um Mês da Consciência Negra: a situação dos negros no Brasil, na essência, não mudou.

Embora correspondam a 50,7% da população, segundo o IBGE 2010, ou 53,1% de acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio – PNAD 2013, negros (pretos e pardos), continuam ocupando a base da pirâmide social.

Ganhamos menos, moramos mal e morremos mais cedo: temos 1,73 anos a menos de expectativa de vida devido a "violência letal" (homicídios), de acordo com o estudo mais recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), órgão ligado ao Governo Federal. A média geral de expectativa de vida do brasileiro ao nascer é de 73,5 anos.

Os jovens continuam sendo os alvos preferenciais das balas da Polícia nos grandes centros urbanos: as chances de um jovem negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior que um branco. Os dados são do IPEA corroborados pelo Mapa da Violência, estudo divulgado todos os anos, coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo, com apoio do Ministério da Justiça.

E o que é pior: não há perspectiva de que a situação mude no curto prazo. A conclusão não é pautada pelo pessimismo, justificável, consideradas as evidências. Basta olhar os números e as iniciativas adotadas pelo movimento negro refém das agendas partidárias, da Academia e ou de lobbies clientes de financiamentos da Fundação Ford norte-americana e que prefiro chamar de movimento negro chapa branca (com perdão do trocadilho).

Movimento negro chapa branca

Senão, vejamos. Qual tem sido o tom e a marca registrada da ação de tais lobbies, ainda, desafortunadamente, muito influentes em espaços de poder e decisão? Via de regra, ficam na denúncia e as tratam como expressão simbólica da existência do racismo no Brasil.

Ora, uma sociedade em que, dos 500 anos de história, quase 400 foram vividos sob escravidão, precisa demonstrar que as mazelas desse período permanecem presentes e influenciando todos os setores da vida brasileira – da economia à política?

No entanto, são comuns expressões do tipo “… e ainda dizem que não há racismo no Brasil!” Ora, alguém tem dúvida disso? Precisamos provar prá quem mais? A conclusão é óbvia: são os próprios autores de tais frases que ainda se alarmam apalermados diante do que constatam. Contudo, a constatação funciona como uma espécie de antídoto paralisante. Tem apenas esse propósito: constatar.

O racismo para esse tipo de militante é um ente abstrato, sem rosto. Não é o infrator, o autor, o violador da Lei – pessoa de carne e osso ou instituição, a ser, portanto, responsabilizada com base na própria Lei, a começar da Constituição, base em um Estado Democrático de Direito. É o racismo – assim mesmo, esse ente abstrato – e estamos conversados. Ou seja: não é ninguém.

Agora, como uma variante, dessa saída pela tangente de quem se propõe a apenas fazer “propaganda”, fala-se em racismo institucional como crime. Quem conhece um mínimo da legislação antirracista brasileira, sabe que não existe essa figura no Código Penal nem na legislação especial. A Lei 7.716/89, o Estatuto da igualdade Racial – Lei 12.288/2010 – que, por sinal, nunca saiu do papel não reconhecem essa figura.

Também sabe que a Polícia e o Poder Judiciário, principalmente, estão ainda com a cabeça na década de 1.950 (os tempos da Lei Afonso Arinos), quando o racismo não era sequer crime, mas mera contravenção penal.

Estamos, portanto, diante de um caso de propaganda enganosa que tem como único propósito ludibriar incautos e ou desinformados. Ou acalmar – e acomodar – consciências culpadas.

Problema real, cotidiano

Nas denúncias veiculadas nas redes sociais – em que todo mundo virou especialista em qualquer coisa e se sente habilitado a expressar opinião sobre qualquer tema – essa militância do que chamo de movimento negro chapa branca fala de racismo sempre no abstrato, deixando para segundo – e, quase sempre, no último plano – que o racismo é um problema real no cotidiano das pessoas e que suas vítimas são pessoas reais, gente de carne e osso.

Em resumo: os termos genéricos utilizados pela Academia e também por acadêmicos negros preocupados em engordar seus próprios currículos, não servem para nada e expressam e revelam o surgimento nos últimos anos de uma nova figura de pesquisador: o “negrólogo” negro. Antes todos os que se dedicavam ao estudo acadêmico da situação dos negros – óbviamente com o olhar enviesado a que se referia Milton Santos – eram brancos. Agora temos o “negrólogo” munido da "autoridade da raça".

Tais estudiosos, ou militantes, utilizam conceitos distantes e estranhos a grande maioria dos que sofrem no dia a dia a iniquidade das mazelas da herança maldita da escravidão – provavelmente porque não sofrem as humilhações, blindados pelos títulos e pelos espaços que ocupam nos ambientes de poder, e também porque, quem sabe, para eles a categoria negros tenha passado a ser só um objeto de estudo.

Há um outro aspecto que é recorrente nesses lobbies: o grau de subordinação e a dependência colonizada a instituições e personalidades do movimento negro norte-americano, que só pode ser explicada pela matriz racialista de pensamento que é majoritária também no Brasil, e pelo financiamento de projetos, além dos privilégios quase sempre presentes em viagens, estágios e bolsas.

Não se vê uma única proposta, capaz de unir a maioria em torno de um programa concreto que mobilize as pessoas para a luta por inclusão dos milhões de negros aos direitos à cidadania plena e, portanto, de democratizar verdadeiramente o Brasil e torná-lo uma República digna desse nome, luta que não é apenas dos negros, mas de todo o povo brasileiro.

Algumas das marchas previstas para este mês cheio de marchas, como a das mulheres, tem como palavra de ordem “Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e pelo bem viver”. Ora, o que significa exatamente isso?

A que racismo se referem para além da abstração? O que é o "bem viver"? Qual a dificuldade que tais grupos tem de dar nome e sobrenome as coisas? Não seria mais educativo e pedagógico assumir que o "bem viver" a que se referem não combina com a política de arrocho fiscal colocada em prática pelo Governo Federal e que tem no ministro da Fazenda Joaquim Levy o seu executor? Não seria mais correto denunciar que as condições econômicas degradadas, a perda do emprego, a recessão com a queda de 3% do PIB só este ano, o aumento da inflação que atinge majoritáriamente a população negra brasileira?

Não seria mais honesto assumir que, apesar dos 13 anos de governos do lulopetismo (além da SEPPIR, agora rebaixada e que não por acaso, apoia a "Marcha") seguimos na mesma – ou seja, a desvantagem permanece intacta, a despeito das centenas de seminários, conferências, debates, palestras – eventos que não passam disso?

Não seria mais honesto assumir que essa forma de combater um inimigo real de forma abstrata e baseada nos manuais racialistas do movimento negro norte-americano, só serve para justificar os recursos e os “apoios” da Fundação Ford e de outras instituições e governos, para nada mais?

Aos organizadores/as de tais marchas e contra-marchas, porém, não ocorre que é impossível combater verdadeiramente o racismo sem nominar os responsáveis pelo crime, nem identificar seus beneficiários, bem como a omissão do Estado que se recusa a cumprir a Lei por esse mesmo Estado sancionada. Mais ainda: sem tocar nas estruturas, nos pilares de  uma sociedade capitalista e de uma República construída sobre os escombros do escravismo e desse mesmo regime legatária e que se mantém graças a herança maldita da escravidão. Ou se lhes ocorre fazem o que fazem por puro cálculo e conveniência.

Por isso, em mais um Novembro, não temos razões para otimismo. Tudo segue na mesma batida e não avançaremos um mílimetro, enquanto a luta contra o racismo – um dos elementos estruturantes da desigualdade social brasleira – não sair das plataformas de "eventos" e "festejos" e se transformar em bandeira real para milhões de brasileiros, negros e não negros.

Tudo o mais é conversa, ou como diria na minha terra, o pequeno mais glorioso Estado de Sergipe: “conversa prá boi dormir”.

Dojival Vieira