Muitas críticas foram dirigidas ao presidente americano George W. Bush, pela lentidão e insuficiências na ajuda aos desabrigados, a esmagadora maioria formada por pessoas pobres (e negras). Uma das mais contundentes partiu do documentarista e escritor Michael Moore: onde estão os helicópteros militares, senhor presidente? Como eles conseguem chegar mais rápido ao Oriente Médio do que a Nova Orleans? Em suma: racismo ou incompetência? Esta questão vai ficar em aberto, mas ela merece ser pensada.
Talvez o cineasta americano pudesse acrescentar a seu rol de questionamentos ao presidente outra pergunta, esta formulada aqui no Brasil: onde você guarda seu racismo? A frase – lembramos — é o mote de uma campanha promovida por dezenas de organizações não governamentais brasileiras desde dezembro do ano passado. Trata-se de uma pergunta provocativa – como as de Moore – para despertar a reflexão.
No Brasil, a questão do racismo vem sendo discutida devido, em grande parte, a políticas de ação afirmativa implementadas por alguns governantes (dividindo opiniões, é bem verdade) e também por conta de casos de preconceito no futebol. Iniciativas como a da campanha das ONGs contra o racismo tem o mérito de nos lembrar, a todo instante, que a questão está aí, e está viva.
E os resultados, no que diz respeito à participação de instituições e pessoas, são animadores. O site da iniciativa (www.dialogoscontraoracismo.org.br) tem sido amplamente visitado. Não, o racismo no Brasil não acabou, mas muita gente está debatendo o tema. Esse já é um grande avanço, pois muitas destas mesmas pessoas, que hoje se sentem encorajadas a tocar na ferida do preconceito, até há pouco tempo acreditavam que vivíamos em uma ”democracia racial”.
A campanha tem recebido elogios, mensagens de apoio e críticas também. Acusam seus organizadores – entre estes o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) – de fomentar o racismo (ou até mesmo criá-lo), de quererem a supremacia do povo negro sobre a população branca, de querer tratar como iguais pessoas naturalmente desiguais, pois Deus as fez assim, e por aí vai. Muitas críticas – é importante frisar – também são feitas por negras (os) que acreditam que toda essa discussão sobre ação afirmativa faz com que a população negra perca a auto-estima, pois está recebendo favores e, até, ”mendigando empregos”.
Nos últimos dois anos o governo dederal tem se mostrado sensível às questões levantadas pelos movimentos negros. Criou a Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Também tem reservado vagas para negros (as) em concursos públicos. Tudo isso ainda é pouco, mas é um começo. São iniciativas, recordemos, voltadas para a correção de distorções. E aqui é importante ressaltar alguns dados: 44,1% das pessoas negras no Brasil vivem com renda per capita inferior a U$ 1,00 diário (Ipea); somente 14,1% dos estudantes universitários são pessoas negras (Pnad 2003) e a chance de uma pessoa negra ser assassinada é 86,7% maior do que de uma pessoa branca (Social Watch 2004). São tantas as estatísticas que seríamos capazes de preencher um livro.
É esta realidade que a campanha quer ajudar a mudar. Mas, para isso, será necessária muita ajuda, precisamos que a sociedade civil organizada (ou não) esteja empenhada. Ainda é muito cedo para saber os benefícios que as ações governamentais podem trazer e se elas serão capazes de tornar as pessoas negras em cidadãos e cidadãs de primeira classe, pois hoje, queiram ou não, eles (as) são vistos (as) como de última classe. Para reverter isto, é necessário, além de políticas públicas afirmativas, o envolvimento de todos e todas. Questionar onde guardamos nosso racismo pode ser um bom primeiro passo.

Luciano Cerqueira